CINEMA DA BAHIA
Filme mergulha nas raízes do Arrocha através das gerações em Salvador
'Sonho de Arrocha' aborda a herança musical e os conflitos geracionais através do Arrocha

Fenômeno cultural que arrasta multidões para shows que chegam a durar dez horas ininterruptas, o arrocha, há muitos anos, se tornou um estilo sedimentado na música popular baiana, para além da axé music e do pagode. Independente de gostos e de preferências musicais de cada pessoa, é inegável o poder de sua influência no imaginário de diferentes gerações, que possuem no arrocha um modo de se representar artisticamente ou, simplesmente, extravasar fisicamente, em danças próprias toda a energia contagiante que o ritmo possui.
Sonho de Arrocha, filme dirigido pelo cineasta baiano Marcos Alexandre, aborda justamente esse poder de influência da música através de diferentes gerações. Ao contar a história de Biel (Gui Nery), criança cujo avô já falecido, Humberto (Luiz Pepeu) foi um dos grandes cantores de arrocha de Salvador, o média-metragem ilustra bem essa capacidade que a arte tem de ser transmitida de uma pessoa para a outra, justamente por conta desse símbolo representativo dentro de uma mesma família.
Sua avó Joaquina (Mon Anjos), por conta de ainda viver o luto da perda do seu companheiro, censura os impulsos artísticos do neto de querer ser um cantor e tenta colocá-lo no caminho gospel, distante do arrocha, já que teme que um destino semelhante ao do seu marido seja o mesmo do pequeno no futuro.
“Desenvolvemos muito a história para pensar de que modo conseguiríamos equilibrar esse anseio da família, mas sem criar uma vilania da igreja evangélica e nem uma vilania dessa avó por ela não querer que ele cantasse por algum motivo religioso”, explica Marcos Alexandre, que co-escreveu o roteiro ao lado de Marcelo Lima.
“Queríamos fugir completamente disso, até porque muitos cantores de arrocha que, hoje, são proeminentes, vieram da igreja. A igreja é o primeiro local, a primeira instituição na qual muitos praticam algum tipo de instrumento, na qual se pratica o canto. E isso, de algum modo, foi meio que imbricado e gestado por conta da minha influência, já que eu frequentei algumas igrejas evangélicas”, explica Marcos, ao abordar aspectos de sua própria vida nessa questão religiosa que o filme traz com propriedade.
“Eu sempre via muitos amigos que cantavam e que louvavam à Deus, que tinham uma conexão direta com um instrumento em que a musicalidade esteve presente ali. E, ao longo do tempo, diversos gêneros dentro do próprio gospel foram criando mais força e expansão ao redor do Brasil. Seja no pagode, seja no rock, seja no arrocha. São diversos gêneros que englobaram um pouco esse ritmo”, define o roteirista.
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Preparação afiada
Um dos desafios na criação de um filme que conta uma história através de um olhar infantil de maturidade é justamente buscar crianças que possam, em suas atuações, transmitir ao público esses conflitos trazidos pelo roteiro. Experiente diretor, Marcos explica como foi superar esse desafio de dirigir atores mirins, bem como encarar profissionais com uma já longa estrada profissional.
“É importantíssimo ressaltar o trabalho e o empenho da (preparadora) Ana Paula Bouzas para construir e trabalhar com todo o elenco. Seja com os dois garotos, seja com Mônica, seja com Clara Paixão. Mas foi muito importante ela tentar trazer vida para esses personagens, com o Gui e com o Thiago (Accioli). Porque são perfis distintos e isso é impresso na tela, né?”, ressalta.
“Gui tem uma relação muito mais descontraída, muito mais extrovertida, pois já tem alguma experiência com curta-metragem, como vídeo em si e com a câmera propriamente dita. E Tiago está muito mais voltado para o teatro, muito mais voltado para a arte em cena real ali mesmo, no ao vivo. Com o trabalho de Ana Paula Bouzas, conseguimos equilibrar e dosar um pouco com os perfis de cada um”, pontua Marcos Alexandre.
Evidentemente, trabalhar com criança exige outro procedimento no set, e Marcos está bem ciente disto: “Obviamente que existe todo um lugar de energia. de entender o tempo da criança, de quanto tempo eles podem ficar no set, de qual maneira a gente pode puxar um pouco mais, puxar um pouco menos, a carga dramática. Então, é sempre tentar buscar esse equilíbrio para trazer os personagens como eu imaginava", define.
Brasil para brasileiros
Parte do projeto idealizado pela Rede Globo em produzir telefilmes oriundos de diversas regiões do país, Sonho de Arrocha foi o escolhido como representante baiano junto a filmes de outros cinco estados. Os trabalhos foram exibidos na tela do Cine BBB, dentro do reality show da emissora, e ganham, também, um espaço na tradicional faixa do horário nobre cinematográfico da Rede Globo.
“Esse projeto consegue construir e apresentar para o país inteiro diferentes formas de pensar e de imaginar esse Brasil atual. E de que maneira também podemos ver esses novos talentos na tela com o alcance de público e pessoas que vão comentar o filme e que só a Rede Globo tem", comemora Marcos.
“Foi muito bonito quando eu recebi a aprovação do meu projeto. Fiquei muito feliz. Porque cresci assistindo aos filmes na Tela Quente, também. É um canal de proximidade com o próprio cinema, com a própria arte. Para mim, chegar a um lugar onde eu posso apresentar uma história feita aqui na Bahia, regional, com elenco e equipe daqui, é uma honra. Para nós, isso importa muito para o que acreditamos. Eu, enquanto realizador baiano. E, também, nós enquanto produtora, enquanto Gran Maître Filmes", finaliza Marcos.
Sonho de Arrocha / Dir.: Marcos Alexandre / Com Gui Nery, Luiz Pepeu, Mon Anjos, Clara Paixão, Thiago Accioli / Segunda-feira, 30, à noite, na ‘Tela Quente’, logo após ‘Três Graças’
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