A rainha baiana
Confira artigo de José Medrado

Na última segunda-feira, 29, convite recebido, fui a uma grande homenagem que a vereadora Marta Rodrigues fez passar na Câmara dos Vereadores à mãe Carmen do Gatois e post-mortem à veneranda mãe Menininha. Festa de beleza intraduzível, por força da história, da tradição e sofrimento daquele povo resistente, de santo e de força. Surpreendido, fui convidado a proferir uma saudação, a pedido da homenageada, anunciou a inspirada vereadora da iniciativa. Subi ao púlpito, não era meu lugar de fala, era daquela boa gente, certamente, todas descendentes de escravizados que precisaram esconder suas crenças (daí o tal sincretismo) para reverenciar as suas divindades. Ao ver aquela onda branca, mulheres em sua grande maioria coroadas pelos seus turbantes, as minhas palavras se embaralharam, pois a emoção veio com uma indignação cheia de revolta. Não tinha o que falar, mas perguntar por quê? Por que tanta perseguição, por que tanta maldade àquela boa gente que só quer reverenciar o seu sagrado? Dei um murro no púlpito, quase que suplicando que eles não deixassem de lutar, de firmar o seu lugar.
Amo a família da Yalorixá Carmen do Gantois, guardo verdadeiro afeto pelas filhas Ângela, Neli e o seu genro Carlos. Uma onda de fraternidade me tomou ao ver aquela mulher, que segue o legado da mãe resistente, e triunfa. Mostrava as suas honrarias, proclamadas pela vida e seus feitos. Agitava com galhardia o reconhecimento. A plateia lotada com seus cantos e ritmos, exaltava a sua rainha: mãe Carmen do Gatois. As senhorinhas cantavam seus louvores, penso que em yourubá, e dançavam com graça, leveza e eu me perguntando: por quê? Por que não se respeita? É nossa tradição, é também a nossa história. Senti-me, como sempre nesses ambientes, abraçado e cheio de afeto.
Não falo, de forma alguma, que as pessoas precisam seguir esta ou aquela religião, não se trata de proselitismo, muito menos de indução à crença, seja qual for. Falo simplesmente de respeito, do reconhecimento do direito cidadão de cada um ter a sua crença ou não. Falo da necessidade de se consolidar o respeito pelo diverso, pelo diferente, no ideal de cidadania. Há sim um país adoecido, com as suas feridas expostas e não podemos deixar esses desrespeitadores confortáveis com suas sanhas de racismo, inclusive religioso à conta do tal é assim mesmo. Não. Respeito se aprende, vão dizer os mais velhos, desde casa, mas se não for assim, que seja pela ação dos Tribunais, fazendo-se crer que não há terra sem lei, no mundo real, nem no virtual, e que essas sacerdotisas têm o direito de envergar seus mantos e transitar pelas ruas e avenidas sem com que pessoa alguma atravesse o olhar, ou muito menos fale criminosamente algum despautério.
*José Medrado é Mestre em família pela Ucsal e fundador da Cidade da Luz
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