As representações do agro e a eleição presidencial: O que vem depois?
Afinal, o que é o "Agro" no Brasil?

Como os agentes econômicos são postos aos nossos olhos e como eles realmente são em função do fazer e do agir em suas atividades? A melhor maneira de falar sobre o abismo que há entre a “representação” e o “ser de fato”, é explorar uma exposição exemplificativa que os retrate: o agronegócio, carinhosa e intimamente chamado simplesmente de “Agro”, no Brasil.
Por uma questão de método é imprescindível que seja definido o que é esse tal de Agro: trata-se da ideologia que aglutina as classes dominantes rurais em torno de uma forma de pensar, de produzir, de se relacionar com a terra, com o Estado e com a sociedade. Esse Agro aglutinou as frações das classes dominantes rurais da sociedade brasileira, desde os ruralistas mais conservadores àqueles mais liberais, de modo que se apresenta como um bloco econômico, social e político.
Pelo mesmo motivo, é necessário clarificar o que são as representações aqui referenciadas. Erving Goffman realizou um importante estudo sobre a forma como as pessoas se comportam socialmente, objetivando obter a maior aceitação e, assim, as vantagens decorrentes. Desse estudo, o autor deixa um importante legado para que possamos entender as relações sociais: os indivíduos representam um papel, como num teatro, para assim obter as melhores impressões sobre si. Esses mesmos indivíduos, cônscios dessa possibilidade de representar, agem também nas organizações em que atuam, construindo uma imagem representada delas perante a sociedade para obter os ganhos pretendidos do seu objeto social. Uma “boa organização”, constituída de valores socialmente aceitos, possui maior chance de êxito dos seus produtos e serviços do que aquelas corporações desprovidas de tais preceitos.
O grande problema é que a sociedade não consegue perceber o quanto dessa imagem “de boa organização”, que vai tecendo a reputação corporativa, é mera representação. Quando, por exemplo, atraídos pela publicidade, compramos um produto sem a devida análise prévia do histórico daquele bem ou daquela empresa que o produz/comercializa, apenas aceitamos como verdade o que é publicizado, incorporando, assim, como verossímil a representação exposta pela estratégia de comunicação do produto/empresa.
Igualmente ocorre no âmbito das ideias, onde as concepções adotadas como referenciais e os conceitos forjados visam aglutinar as pessoas em torno deles, mas muitas vezes não passam de meras representações destinadas a impressionar os indivíduos e, desse modo, se consolidarem como ideologia capaz de guiá-los, de norteá-los no dia-a-dia, nas tomadas de decisão das mais simples às mais complexas.
Voltamos ao Agro, o nosso exemplo. Esse grande bloco das frações dominantes rurais brasileiras se apresenta à sociedade como sendo o principal setor da economia nacional, atuando em temas estratégicos como a produção de alimentos, geração de emprego, geração de receita para o Estado e preservação ambiental. Esta é a representação forjada pelo Agro, que ocorre através do investimento de milhões de Reais para a propagação dessa imagem, através de uma campanha publicitária chamada “Agro – a indústria, a riqueza do Brasil” que, sem dúvidas, figura entre aquelas que mais teve incursão na TV e em diversas plataformas digitais nos últimos anos.
Entretanto, ao observarmos a realidade, esse Agro é bem menos do que ele representa ser. Dentre os estudos que comprovam o gritante abismo que há entre a representação e o ser do nosso Agro, destaca-se o recente trabalho de Mitidiero Júnior e Goldfarb, cujo título já ressalta as principais conclusões que a pesquisa revela: “O agro não é tech, o agro não é pop e muito menos tudo”.
Alguns números desse estudo mostram o quão distante está o Agro daquilo que ele se arvora a representar. Tomando como referência as variáveis estratégicas que utilizamos como exemplo para conceituar o Agro - produção de alimentos, geração de emprego, geração de receita para o Estado e preservação ambiental -, podemos extrair quatro pontos fundamentais da pesquisa em comento:
1.Produção de alimentos
Embora tenha assumido a responsabilidade em acabar com a fome, o Agro, ao se voltar para o mercado externo, contribuiu para que houvesse escassez de alimentos, colocando o Brasil como o detentor da maior inflação alimentar do planeta (em 2020) e, embora tendo batido recordes de produção nos últimos anos, assistiu, das sombras artificiais de suas propriedades, a fome voltar à mesa do brasileiro. Tínhamos 10,3 milhões de pessoas com insuficiência alimentar grave em 2018 e em 2020 chegamos a 19,1 milhões. Em 2022 o Conselho Nacional de Nutricionistas divulgou que 33,1 milhões de pessoas passam fome. Agro é fome?
2.Geração de emprego
Embora o Agro não tenha parado as atividades produtivas na pandemia, batendo recorde na produção em 2020, 185.477 trabalhadores do agronegócio perderam seus empregos. Apesar de todo investimento governamental no Agro, na série história analisada de 2009 a 2019, a agropecuária foi o setor que menos gerou emprego no Brasil, pagando, ainda, os piores salários. Além disso, ainda nesse tema do emprego, entre 1995 e 2020 foram resgatados, das empresas do Agro, 55 mil trabalhadores em situação de trabalho análogo ao trabalho escravo. Agro é desemprego, subemprego e escravidão?
3.Geração de receita
Embora seja o agronegócio o grande beneficiado pela apropriação dos recursos públicos brasileiros, o retorno que ele dá ao Estado através de impostos é muito baixo. Em 2019 as chamadas “Atividades de Agricultura, Pecuária e Serviços Relacionados” arrecadaram R$ 6 bilhões, enquanto que o “Comércio Varejista” arrecadou cerca de R$ 112 bilhões e as “Atividades de Educação”, R$ 60 bilhões. Isso pode ser explicado, dentre outras coisas, pela Lei Kandir, através da qual o Agro goza de renúncia fiscal. Agro é privilégio?
4.Preservação Ambiental.
Embora o discurso de “moderno setor sustentável”, a produção do Agro aliada à devastação dos biomas ainda é a tônica. A Amazônia Legal, por exemplo, teve em 2014 uma área devastada de 5.012 km2. A sanha do agronegócio levou ao crescimento de 121,2% do tamanho da área desmatada de 2020, com 11.088 km2. Agro é incêndio acidental para criar gado?
Além desses quatro pontos, os autores chegaram a outros resultados que demonstram que o Agro está muito longe de ser aquilo que constrói como representação. A propaganda excessivamente deturpada que o Agro faz sobre si, se alinha muito com as práticas fascistas. Essa aproximação do Agro com o fascismo levou grande parte dos seus expoentes a levantaram a bandeira da reeleição do atual presidente e também a financiarem através do capital cultural, político e de recursos financeiros a campanha de Bolsonaro. Isso coloca grande parte dos indivíduos e organizações que compõem o Agro muito mais alinhados com a onda fascista do que com um projeto nacional de desenvolvimento sustentável que respeite as instituições democráticas e as múltiplas necessidades da sociedade brasileira, que é exatamente o que o Agro se diz ser.
Mas nem todo mal é feito somente de maldade. Dois aspectos servem de alento nesse processo. O primeiro é que a representação do Agro como o grande expoente econômico, bondoso e em defesa do Brasil está caindo por terra. O segundo é que ficou evidenciado que esse bloco não é tão hermético e homogêneo quanto parece, de modo que nem todos do Agro se mostraram afeitos a levantar a bandeira do fascismo.
Dessa maneira, dada a relevância do meio rural brasileiro para o desenvolvimento nacional, nosso alento nos traz a expectativa de que esse bloco tenha fissuras nos próximos meses, resultando, finalmente, no surgimento de um Agro que esteja realmente mais próximo das representações que atualmente figuram e mais distantes de suas práticas reais atuais. O fortalecimento de sujeitos do Agro no campo da esquerda reforça essa expectativa.
Em referência à propaganda tão massivamente vinculada, esperamos ver na prática, como resultado dessas fissuras, que o “Agro é ruptura” com esse conservadorismo decadente, que o “Agro é reorientação” das suas ações para garantir o desenvolvimento nacional, e por fim que o “Agro é respeito” à diversidade produtiva do meio rural, o que requer capacidade de convivência com a agricultura familiar e camponesa. Esse seria o Agro que interessa ao Brasil e não apenas aos ruralistas fascistas.
*Matteus Martins é economista formado pela Universidade Estadual de Feira de Santana, mestre em Agronegócios pela Universidade de Brasília, onde pesquisou agroindústrias da agricultura familiar, e doutorando em economia pela Universidade de Federal da Bahia
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