Zelensky: quando a arte complica a vida
Confira o artigo de Jolivaldo Freitas

Quem assiste à série "Servo do Povo", disponibilizada em canais pagos este ano, não pode deixar de mudar o foco. O motivo principal pensado pelo roteirista era uma crítica pertinente à corrupção na Ucrânia e em diversos países semelhantes. A série foi lançada na Ucrânia em 2015, antes da pandemia da Covid-19 e muito antes da invasão russa. O sentido de assistir ao libelo contra os corruptos de forma engraçada, com o ator e comediante Volodymyr Zelensky em excelente papel, se transmutou em uma observação do cotidiano ucraniano; observar as belas paisagens do país, sua pujança econômica e cultural, e a beleza da arquitetura de suas cidades, especialmente Kiev.
Eu assisti toda a série imaginando que aquela rua movimentada, bela, moderna, com a mistura do passado e de um tempo recente, agora trata-se de uma, digamos, "paisagem morta". Os mísseis e drones russos destruíram a arquitetura e tiraram a vida de muitos ucranianos.
Embora não se possa comparar a formação ou tendência política, o comediante Zelensky foi conduzido à presidência da Ucrânia no ano da pandemia (2019) em um processo que motivou os eleitores em vários países, como nos Estados Unidos com a eleição de Trump e no Brasil com a eleição de Bolsonaro. Sua aparição em uma série que contestava o status quo vigente, como se fosse uma metalinguagem, o escolheu. O povo queria algo novo, alguém que não estivesse envolvido nos vícios políticos da elite. Alguém singular, mas que expressasse igualdade de condições. A série acabou sendo - sem querer - uma boa estratégia de marketing político, e o ator repetiu a arte em sua vida. Nunca antes na história da Ucrânia havia ocorrido tal feito. Nunca antes em sua vã filosofia Zelensky pensou em ser presidente. Ele foi levado pelo tsunami da opinião pública. Atendeu ao apelo das urnas e, digamos, "entrou numa fria".
Na série, Zelensky interpreta Vasily Petrovych, um professor de história que faz um discurso apaixonado contra a corrupção. Ele é filmado por um aluno, que posta o vídeo e o torna viral. Claro que os "donos" do poder veem ali um personagem que pode ser manipulado. Sem esperar, ele acorda como presidente. Agora, imagine um homem comum no poder, sem saber ou compreender a máquina política, ficando entre a cruz e a espada ao ter que tomar decisões para o futuro do país. Além disso, adota comportamentos populistas, como não ter segurança, não usar a residência oficial e nem os carros.
Hoje pode parecer até que foi algo oportunista e demagógico, e que deveria ser uma estratégia para promover uma reação junto ao povo, pois a série (como dito, uma verdadeira propaganda política, com três temporadas entrando nas casas das pessoas) foi uma lavagem cerebral com seus 51 capítulos. Hoje, na frieza do tic-tac do relógio e do tempo, podemos nos perguntar se a entrada na política de Zelensky não foi calculada. Zelensky diz que não.
Mas o imponderável, nestes anos de 2023, ganha protagonismo. Não dá para assistir a "O Servo do Povo" sem se deixar "contaminar" por aquilo que não existia, que não era realidade na época em que a série foi ao ar originalmente na Ucrânia. Zelensky iniciou seu governo com ampla aprovação e enfrentou a saga de fazer com que sua popularidade como ator se traduzisse em realizações positivas para o país. Ou seja, que sua vida na tela se traduzisse em ação real e concreta. Na época, críticos e analistas observaram que seu desafio era imenso, pois o futuro da Ucrânia dependia menos de seu carisma e mais de sua aptidão para promover políticas ativas no enfrentamento da crise econômica e política que assolava o país. O que não se sabia é que o desafio era imenso ao cubo; que a Ucrânia teria que enfrentar a Rússia, um gigante bélico. E o ator que vemos na ficção (observando-se no cenário atual) tem se saído muito bem na realidade presidencial; como um verdadeiro herói de filme de guerra. O povo da Ucrânia projetou a recriação do fictício no quadrado da realidade, e a realidade ultrapassou seus muros a ficção.
*Romancista e jornalista. Email: [email protected]
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