A TARDE MEMÓRIA
Acervo do Cedoc A TARDE tem inspirado trabalhos acadêmicos
Edições e fotografias potencializam a elaboração de teses e dissertações em variados campos do conhecimento


Uma coleção formada por mais de 1.400 registros sobre as religiões afro-brasileiras revela aspectos da relação entre comunidades religiosas e imprensa, especialmente fotojornalistas. Outro estudo apesenta as informações que podem ser acessadas por meio de fotografias utilizadas em reportagens. No âmbito das pesquisas sobre festas foi possível reunir uma coleção de quase sete mil textos e 2.690 imagens relacionados às comemorações de largo ocorridas no verão em Salvador. Os cadernos da Consciência Negra inspiraram uma abordagem acadêmica sobre como o jornalismo pode colaborar no combate ao racismo. Esses trabalhos realizados no campo dos estudos étnicos e africanos, da antropologia, da ciência da informação e em diálogo com a comunicação social têm a característica em comum de ser baseados nos acervos do Centro de Documentação A TARDE (Cedoc A TARDE).
De minha autoria, da jornalista Regina de Sá e do jornalista Hugo Mansur eles são uma amostra de como um centro documental de uma empresa de mídia pode inspirar abordagens em perspectivas diversas. Além disso aponta como o departamento tem a potencialidade de inspirar o debate e a reflexão científicos.
Conheci o Cedoc A TARDE como repórter quando passei a integrar a equipe do jornal A TARDE em 1998. Naquele período ele estava localizado na Redação, o que tornava ainda mais intenso o contato entre a unidade e os repórteres que faziam as pesquisas iniciais no acervo para desenvolver sua apuração. Em 2006 essa minha relação de repórter ganhou o desafio de adotar uma conexão com o departamento como pesquisadora para uma atividade acadêmica.
Encontrei as pistas para reunir a coleção que foi a base do meu trabalho de mestrado durante a produção do caderno especial intitulado Saudações África elaborado por ocasião da II Conferência dos Intelectuais Africanos e da Diáspora (II Ciad) realizada aquele ano em Salvador. O que despertou a minha atenção foi uma pasta com fotografias sobre o candomblé. A diversidade dos elementos registrados - abate de animais, oráculos, presentes nas águas, dentre outros - me impressionou, pois, a composição das imagens já indicava a intimidade dos autores com o universo dos terreiros.
A análise desse material resultou na dissertação intitulada O Discurso da Luz - Imagens das religiões afro-brasileiras no arquivo do jornal A TARDE. O trabalho que analisou 50 das 1.432 fotografias catalogadas foi orientado pelo professor Cláudio Luiz Pereira, doutor em antropologia, e apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia (Pós Afro), em dezembro de 2009 para a obtenção do meu título de mestra.
Em 2013 comecei uma nova pesquisa com base no acervo já denominado Cedoc A TARDE. Sob a orientação da professora e doutora em antropologia Fátima Tavares cataloguei e analisei um banco de dados formado por 6.992 arquivos em PDF de reportagens publicadas em A TARDE de 1912 a 2016 e 2.690 fotografias das festas de largo que acontecem de novembro a fevereiro antes do Carnaval: São Nicodemus, Santa Bárbara, Nossa Senhora da Conceição, Santa Luzia, Bom Jesus dos Navegantes, Reis, Bonfim, Ribeira, São Lázaro, Pituba, Iemanjá e Itapuã.
As reportagens e imagens foram reunidas em um site que dialoga com conceitos do web jornalismo. Trata-se do Espelho de Festa que, além dos dados da tese, possui conteúdo em linguagem especializada nesse tipo de plataforma, como quiz, blog, playlist, dentre outros.
Foi a partir dessas duas experiências com pesquisa que passei a refletir sobre o papel do jornalismo na preservação da memória especialmente a partir daquela que ele registra no cotidiano. Passei também a compreender como o acervo de uma empresa do segmento privado pode dialogar com a memória coletiva, o que ocorre com A TARDE, o mais antigo jornal baiano em atividade. São 110 anos de circulação diária e ininterrupta, o que dá ao seu acervo ainda mais elementos de preciosidade.
Informação como ciência
Sob a orientação da professora Suely Ceravolo, a jornalista Regina de Sá, que também integrou a equipe de A TARDE, desenvolveu a dissertação intitulada Recuperação da Informação fotográfica: o arquivo do jornal A TARDE. O trabalho foi apresentado em 2010 ao Programa de Pós-Graduação em Ciência da Informação do Instituto de Ciência da Informação da Ufba.
Para a obtenção do seu título de mestra, Regina de Sá destacou o tratamento dado à fotografia nas plataformas analógica e digital do jornal. Parte do discurso jornalístico, a fotografia não é, como aparenta à primeira vista, um complemento do texto ou a prova de que algo aconteceu, mas uma outra linguagem com informações muitas vezes divergentes daquela em formato escrito. “Analisei o tratamento e a organização do documento fotográfico nas plataformas analógica e digital e de que maneira o acesso a esses ambientes informacionais funcionava no Cedoc”, completa Regina de Sá.
Auxílio precioso
O jornalista Hugo Mansur identificou uma novidade nas edições de A TARDE a partir de 2003. Além de cadernos especiais para celebrar o Dia Nacional da Consciência Negra, comemorado em 20 de novembro, o periódico passou a dar um tratamento mais especializado para questões étnico-raciais.
A partir dessa percepção ele desenvolveu seu projeto de pesquisa para o mestrado no Pós Afro- Ufba. Para o desenvolvimento da dissertação intitulada Ebó de Palavras: uma leitura afirmativa das páginas da Consciência Negra em A Tarde-Ba, 2003-2015, orientada pelo professor Jesiel Ferreira de Oliveira Filho em coorientação com a professora América Lúcia Silva César, Mansur necessitou analisar um amplo número de edições de A TARDE.
De acordo com ele, questões como a linguagem e o tratamento editorial e gráfico adotados sobretudo nos especiais transformaram o conteúdo em material didático para o uso em sala de aula. Para essas e outras análises, o jornalista consultou dezenas de páginas de A TARDE. Por esse motivo, quando teve oportunidade de conhecer o Cedoc A TARDE e sua coleção digital, mas também de exemplares físicos a experiência ganhou uma nova característica.
“Visitar o Cedoc A Tarde foi a oportunidade de materializar meu objeto de pesquisa, à época, os Cadernos de Consciência Negra. Pude manusear as edições comemorativas ao 20 de novembro durante todo seu período de circulação, entre os anos de 2003 e 2015. Encontrar o acervo organizado, preservado e com acesso foram aspectos fundamentais para desenvolvimento da pesquisa”, acrescenta Hugo Mansur que prossegue na pesquisa acadêmica para a conclusão do doutorado em Mudança Social e Participação Política na Universidade de São Paulo (USP).
Experiências como as relatadas por essas pesquisadoras e pesquisadores demonstra um traço que é cada vez mais marcante na maior proximidade do meu contato com o Cedoc A TARDE: as suas potencialidades para além da guarda da memória institucional.