Ascensores contam história da mobilidade em Salvador
Elevadores e Planos Inclinados conectam a cidade desde os tempos coloniais e continuam importantes no sistema de integração de modais de transporte

Desde o Guindaste dos Padres até o Elevador Lacerda, passando pelos planos inclinados, Salvador sempre foi inovadora em encontrar formas de conectar os seus dois níveis: Cidade Alta e Cidade Baixa. Soluções práticas de mobilidade, os ascensores da capital ajudaram a moldar o desenvolvimento urbano, se tornaram símbolo da identidade soteropolitana e cartões-postais famosos mundialmente; além de fazer parte do cotidiano da população até hoje.
A capital foi fundada em um terreno acidentado e marcado por um desnível de mais de 60 metros de altura entre a Cidade Alta, onde grande parte da população vivia, e a Cidade Baixa, a região do porto e onde o comércio fervia. Desde a origem, essa diferença de relevo trouxe um desafio constante de garantir a comunicação entre os dois níveis da cidade, tanto no que diz respeito ao vai e vem de pessoas, quanto de mercadorias.
As primeiras soluções foram as ladeiras como da Conceição, Preguiça e Misericórdia, explica o arquiteto e urbanista Nivaldo Andrade, professor da Faculdade de Arquitetura da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Pesquisador do tema, ele acrescenta que já no início do século XVII surgiram os primeiros mecanismos mais sofisticados de transporte de cargas.
“Em 1610, há menções a elevadores de carga que ligavam diretamente o Porto de Salvador, responsável pela comunicação com Portugal, África e outros territórios, à Cidade Alta. O Guindaste dos Padres é o primeiro que se tem notícia, com registros do iniciozinho do século XVII. Ele ficava onde hoje está o Plano Inclinado Gonçalves, atrás da Catedral Basílica [antiga igreja da Companhia de Jesus] e tinha esse nome porque era dos jesuítas. No final do século XVII, já existiam seis guindastes nessa região da encosta, ligando sempre o Porto com a Cidade Alta, todos de ordens religiosas", explica.

O professor Nivaldo enumera que existiam, por exemplo, o guindaste dos "terésios", os carmelistas teresianos da Ordem dos Carmelitas Descalços, que ficava perto do Convento de Santa Tereza; e o guindaste dos Carmelitas, perto do Convento do Carmo, onde hoje está o Plano Inclinado do Pilar. Essas conexões entre as cidades Alta e Baixa se mantiveram durante séculos.
Em 1869, as linhas de bonde foram implantadas em Salvador, continua o professor Nivaldo, e havia uma linha na Cidade Baixa e outra na Cidade Alta. Só que a conexão ainda era difícil para a população de pedestres. "As pessoas subiam as ladeiras que eram extremamente íngremes, ocorriam deslizamentos de terra na época de chuva, as pessoas escorregavam. Então, a mesma empresa que implantou a linha de bonde recebeu a concessão para fazer a primeira conexão mecânica para passageiros ligando a Cidade Alta com a Cidade Baixa, que é o Elevador Hidráulico da Conceição, o atual Elevador Lacerda", acrescenta o urbanista e pesquisador.
Primeiro no mundo
Os elevadores urbanos foram inventados nos Estados Unidos (EUA) na década de 1850. Para lá, os irmãos Antônio e Augusto Frederico de Lacerda viajaram para aprender sobre o equipamento, trazendo a tecnologia para Salvador, com o financiamento do pai deles, Antônio Francisco de Lacerda.
Inaugurado em 1873 como Elevador Hidráulico da Conceição, o primeiro elevador urbano do mundo só foi rebatizado em 1896, se tornando então o Elevador Lacerda. No início, ele tinha duas cabines em uma torre incrustada na rocha da encosta. Mas, no final da década de 1920, uma segunda torre, com mais duas cabines, foi construída, assim como a passarela de concreto e revestida de aço para conectar as duas torres. Ao longo de seus mais de 150 anos de existência, o equipamento passou por inúmeras reformas.

A duplicação das cabines em 1920 foi feita pelos arquitetos Fleming Thiesen e Adalberto Szilard, em parceria com a empresa de elevadores Otis. Essas alterações deram ao Elevador Lacerda a estrutura que conhecemos hoje e que se tornou cartão-postal de Salvador. "Construído no século passado, em 1873, o Elevador Lacerda não teve sua importância diminuída, apesar do progresso: os bondes desapareceram, carros e ônibus tomaram o lugar; foi criada uma linha de condução direta da Cidade Alta para a Cidade Baixa pela Avenida Contorno, mas o hábito permaneceu", afirma A TARDE em reportagem sobre os ascensores de Salvador, publicada na edição de 05 de novembro de 1978.
Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (Ipac), o Lacerda é reconhecido como patrimônio histórico e cultural. No entanto, apesar da beleza e pioneirismo arquitetônicos, ainda frustra alguns turistas que esperam uma vista panorâmica de dentro das cabines.
“Muitos turistas ficam desiludidos quando chegam aqui e descobrem que não é panorâmico. Ele não é panorâmico porque não havia esse entendimento de elevador panorâmico na época, porque a estrutura dele é de concreto. Ele é uma das primeiras estruturas de concreto com essa altura feitas no Brasil. Na reforma nos anos 2000 houve uma proposta dele ser panorâmico, mas isso não foi autorizado pelo Iphan. Ele é tombado há mais de 20 anos e, sendo tombado, tem que preservar as características”, afirma Nivaldo Andrade.
Com capacidade para até 128 pessoas em suas quatro cabines, hoje o Lacerda transporta mais de 20 mil passageiros por dia e tem uma grande importância para o funcionamento da cidade. O professor Nivaldo acrescenta que o elevador só fica parado quando precisa fazer manutenção, tendo funcionado praticamente de forma ininterrupta desde a sua construção. Nessas paradas fica evidente que ele faz falta no trânsito de pedestres e que ficar sem o elevador acarreta providências, por exemplo, como criar linhas de transporte regulador para ligar o Comércio à Cidade Alta, como já ocorreu em várias ocasiões de reformas do equipamento.
Outros ascensores
O Elevador Lacerda é a vedete dos ascensores urbanos de Salvador, mas não é o único equipamento com esse fim. Até o final do século XIX foram criados mais três na cidade, o Elevador do Taboão e os planos inclinados Gonçalves e do Pilar. Logo após o Lacerda, veio o Plano Inclinado Gonçalves, inaugurado em 1889, no lugar do antigo Guindaste dos Padres. "Ele e o Lacerda são os que praticamente nunca ficaram fechados, apenas tiveram fechamentos para reforma ou manutenção", aponta Nivaldo Andrade.

Os períodos de manutenção no Plano Inclinado Gonçalves também sempre afetaram a população, como foi o caso das obras de recuperação na década de 1970, com o povo reclamando da demora em liberar o acesso: "Os comerciantes apelam para que, pelo menos, aos sábados, o Plano Inclinado Gonçalves funcione até às 14 horas. E a população, por sua vez, solicita à Prefeitura que determine mais rapidez nas obras de recuperação, que já caminham para o segundo ano", informa a edição de A TARDE de 1º de outubro de 1976, período em que o equipamento passava por reforma.
Em uma das muitas vezes que o Lacerda precisou fechar para manutenção, recorda o professor Nivaldo, o Plano Inclinado Gonçalves ficou muito sobrecarregado. “Esses ascensores possuem uma grande importância no sistema de transporte da cidade”, ressalta.
Na sequência do Lacerda e do Gonçalves, foi inaugurado o Elevador do Taboão, que conecta o Pelourinho e o Comércio, e que se tornou um marco da arquitetura em ferro baiana. Inaugurado na década de 1890, o Taboão foi todo construído em ferro europeu, com maquinário escocês e feito por engenheiros ingleses. Ele funcionou de 1890 até 1959 e ficou mais de 60 anos fechado.

Ainda na década de 1980, a Associação Comercial da Bahia (ACB) se mostrou disposta a arrendar o Elevador do Taboão para ajudar a revitalizar o Comércio na área próxima ao equipamento, que havia decaído desde que o elevador foi fechado. "O presidente da ACB, Wilson Andrade, confirmou esse interesse, mas disse que espera que a própria Prefeitura se encarregue de fazer a restauração do elevador. Se a prefeitura não tiver condições de executar a obra, a associação pretende arrendá-lo pelo prazo de dez anos e fazer o que for necessário para que ele volte a funcionar", informa a edição de A TARDE do dia 4 de agosto de 1981. Foram precisos mais 30 anos para que o Elevador do Taboão fosse reinaugurado, o que somente ocorreu em 2021.
Já o Plano Inclinado do Pilar foi construído no finalzinho da década de 1890, onde antes ficava o Guindaste dos Carmelitas, no período colonial. Liga a Rua do Pilar (Cidade Baixa) ao bairro de Santo Antônio Além do Carmo (Cidade Alta). Na década de 1970, o Pilar passou por uma grande reforma e renovação do maquinário. "O antigo plano inclinado conta, agora, com nôvo motor de tração, nôvo grupo gerador e com uma sub-estação e foram substituídos os cabos de aço e os pisos de ladrilhos. Nova pintura também foi colocada. O Plano do Pilar funcionará, diariamente, inclusive aos domingos", informa a edição de A TARDE de 13 de agosto de 1971. Após a reforma, o plano do Pilar funcionou até 1984, fechou novamente e foi reaberto em 2006.

Em 1981, mais um ascensor urbano foi construído na capital, o Plano Inclinado Liberdade/Calçada (PILC), que não é considerado um equipamento histórico como os seus antecessores, mas tem o mesmo papel essencial de conectar a cidade e compor os modais de transporte da cidade. O PILC, como o nome já diz, liga a Liberdade, na Cidade Alta, à Calçada, na Cidade Baixa.
"Acredito que Salvador deveria ter muitos mais ascensores urbanos, porque eles funcionam como uma parte importante do sistema de transportes da cidade", reflete o professor Nivaldo Andrade.
Nos últimos anos, os elevadores Lacerda e Taboão passaram por revitalização, assim como os planos inclinados Gonçalves e do Pilar, Os quatro equipamentos estão em pleno funcionamento, de acordo com a Secretaria Municipal de Mobilidade (Semob). Já o Plano Inclinado Liberdade/Calçada atualmente passa por reforma e ainda não tem data de reabertura.
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
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