Busca interna do iBahia
HOME > colunistas > A TARDE MEMÓRIA

A TARDE MEMÓRIA

Coleções de A TARDE contam as histórias da celebração ao Dois de Julho

Edições mostram como foi a grande festa do centenário da Independência da Bahia, em 1923

Cleidiana Ramos
Por Andreia Santana
Presença militar em cortejo conhecido pela forte participação popular
Presença militar em cortejo conhecido pela forte participação popular - Foto: Cedoc A TARDE

Hymnos, flores e ovações à memória dos heróes da Independência”. Com essa manchete na edição de 3 de julho de 1923, A TARDE iniciou a sua ampla cobertura das comemorações pelo centenário da Independência da Bahia. Foram dias de informações e imagens detalhadas sobre a programação que incluiu momentos memoráveis como a inauguração da sede do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) e o monumento a Castro Alves que virou praça com o seu nome. Além disso, uma coleção formada por centenas de imagens registra como o Dois de Julho passou a ser comemorado ao longo do tempo. É possível contar essas e outras histórias sobre a trajetória da festa por meio do acervo que abriga esse material: o Centro de Documentação A TARDE (Cedoc) que está comemorando 45 anos da sua organização.

Ao analisar, por exemplo, as edições dos anos anteriores dá para imaginar como se chegou a uma celebração tão extensa do centenário da Independência em 1923 com registros que se estenderam até o dia 11 de julho, ou seja, nove dias após a festa. A TARDE, em anos anteriores, vinha denunciando o que considerava pouca atenção para uma data tão importante, como em 1914:

Tudo sobre A Tarde Memória em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

“Um triste 2 de Julho- O dia maior da nossa terra teve, hontem, um aspecto de finados”. (A TARDE, 3/7/1914, capa).

O texto conta que em endereços da cidade como Praça Barão do Triunfo, Terreiro de Jesus e Campo Grande não ocorreram atividades. E há, inclusive, um apelo para que o povo se organize para garantir algum tipo de comemoração:

“Porque o povo não organiza, amanhã, para domingo, um préstito que percorra a cidade com os carros emblemáticos? Certamente o sr. chefe de polícia e o sr. inspetor da Região não negarão as músicas para essa comemoração cívica. O mais, fogos de bengala, etc, uma commissão conseguirá por meio de donativos possíveis a todas as bolsas. Vamos! um bom movimento pela grande data”. (A TARDE, 3/7/1914, capa).

Nove anos depois, a festa não deu espaço para reclamações. A programação foi intensa: o tradicional Te Deum, desfile de escolas, procissão marítima e terrestre com a imagem do Senhor do Bonfim, jogo de futebol em que baianos enfrentaram jogadores de outros estados, exposições e a exibição dos aviadores militares, evento com maior protagonismo. A equipe foi homenageada com saraus, coquetéis e outros eventos nos dias subsequentes à comemoração do Dois de Julho.

“Os bravos aviadores da Marinha Nacional receberam ontem uma merecida sagração popular. A multidão que formou o préstito que os foi saudar, defronte do Instituto Histórico aclamou-os demoradamente por mais de uma vez com o mais sincero entushiasmo. Para o mau tempo que fez, chovendo copiosamente na ocasião dos discursos, a manifestação não podia ser mais expressiva. Ninguém dissertou do seu posto, antes, a chuva fazia aumentar a vibração popular”. (A TARDE, 5/7/1923, p.3).

Um dia antes, o jornal publicou novamente a mensagem que havia recebido do então presidente do Brasil, Arthur Bernardes. A mensagem original integrou a edição especial do centenário, que circulou no dia 2 de julho. Mas diante da procura, a publicação esgotou nas bancas. Segundo a nota explicativa da redação foi decidido que o texto seria novamente publicado para também atender aos seguidos pedidos:

“Recordando a quebra da resistência do General Madeira pela pressão da coragem heróica dos defensores de nossa Independência, a data de 2 de Julho, tão justamente cara à Bahia é uma das mais bellas de nossa História, fala ao coração dos brasileiros, como gloriosa e decisiva affirmação dos nossos brios patrióticos. Que os descendentes dos bravos dessa jornada saibam sempre amar o Brasil com a mesma dedicação e espírito de sacrifício revelados pelos combatentes de 1823, tal deve ser o nosso voto constante e especialmente opportuno hoje, neste momento, em que a Pátria reclama de seus filhos a maior subordinação dos egoísmos à preponderância necessária dos interesses da collectividade. Arthur Bernardes”. (A TARDE, 4/7/1923, capa).

Cobertura do Centenário da Independência da Bahia foi extensa em A TARDE
Cobertura do Centenário da Independência da Bahia foi extensa em A TARDE - Foto: Cedoc A TARDE

Celebração

O Cedoc A TARDE tem quatro coleções de imagens relacionadas à Festa da Independência da Bahia. Cada uma delas dá protagonismo aos elementos que compõem a celebração ao Dois de Julho: os Caboclos; fotos mais antigas do desfile e as mais contemporâneas.

Na pasta sobre os registros mais antigos um dos destaques é uma fotografia de 1973. A anotação no verso da imagem a identifica como a do rito conhecido como “Volta da Cabocla”. Ainda hoje, dias após o desfile do dia 2, as imagens são reconduzidas do Campo Grande, ponto final do cortejo, para a Lapinha. O retorno é uma celebração mais lúdica com a participação de banda de sopro e percussão e sem atividades como hasteamento de bandeira e outras mais formais.

Nessa coleção também se destaca uma imagem de 1977 em que é possível ver em destaque a estátua do Caboclo. O figurino é bem mais simples do que aqueles que são utilizados atualmente. Além disso, a imagem é em Preto & Branco o que a faz ter um maior contraste com os registros coloridos.

Já uma imagem de 1978 faz lembrar uma frase que era sempre repetida pelo professor Cid Teixeira, um dos maiores historiadores da Bahia e que tinha um carinho especial pelo Dois de Julho: “A festa é do povo. O governo é penetra”, dizia. Isso para recordar a história mais contada sobre o início do cortejo: em 1824, o povo, percebendo que nada havia mudado no campo dos seus interesses organizou uma espécie de caricatura da entrada do chamado Exército Libertador na cidade, inclusive com um indígena como grande destaque. Essa é considerada a origem de um desfile em que as estátuas dos Caboclos, representando o povo brasileiro e o povo baiano, são os protagonistas do cortejo cívico.

Nessa fotografia de 1978 está em destaque o então titular do governo da Bahia, Roberto Santos. É comum até hoje que a comitiva do governador seja formada por seus aliados, secretários, mas também apoiadores. O mesmo acontece com quem estiver como titular da Prefeitura de Salvador, além dos mais diversos aspirantes a cargos eletivos. Pois, na fotografia, quem aparece logo atrás do governador são os militares. Eles inclusive estão à frente do carro do Caboclo. Era tempo de ditadura militar, o que mostra, portanto, que, mesmo nessa festa, a sombra da ameaça às liberdades civis conseguiu ofuscar a característica mais marcante do Dois de Julho: a participação popular diversa e espontânea.

São histórias e análises nesse estilo que mais uma vez o acervo do Cedoc A TARDE permite realizar E, nesse ano de celebração dos 200 anos da independência, é o momento de considerar qual será a marca desse evento que os registros de A TARDE vão poder preservar para as reflexões do futuro.

Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia

*A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período.

Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE

Confira mais conteúdo de A TARDE Memória no Portal A TARDE e em A TARDE FM

Conheça o Projeto REC A TARDE, hospedado no Youtube, que tem outros conteúdos no campo da Memória Social

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Compartilhar no Whatsapp Clique aqui

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

Relacionadas

Mais lidas