De donos de ilha a educadores: conheça o legado dos jesuítas na Bahia
Eles chegaram no século XVI, tiveram a controversa missão de evangelizar os indígenas e sua influência cultural, política e social marcou a história

Uma das explicações para o nome da Ilha dos Frades é a de que ela pertenceu aos jesuítas. Os religiosos desembarcaram na Bahia em 1549 juntamente com Tomé de Souza, que veio fundar Salvador. E teria sido ele, o primeiro governador-geral, quem deu a ilha para os padres, em 1551. A ilha pertenceu aos jesuítas até 1748 e não era a única propriedade da Companhia de Jesus. A ordem religiosa foi dona de terras, engenhos e imóveis nos mais de 200 anos que passou na colônia, até a expulsão das possessões portuguesas em meados do século XVIII. A controversa missão evangelizadora dos indígenas, a influência política, cultural e social que exerciam junto ao governo colonial e a vocação para a educação são os legados dos jesuítas para a Bahia e o Brasil. No mês em que Salvador chega aos 477 anos, relembramos essa história.
A data da fundação de Salvador, 29 de março, é uma convenção. Essa foi a data do desembarque de Tomé de Souza e sua comitiva no Porto da Barra. O registro só existe graças a uma carta jesuíta escrita por Manuel da Nóbrega, segundo conta o professor Fabrício Lyrio Santos, mestre e doutor em história e docente da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). Depois do desembarque, Tomé de Souza precisou encontrar onde erguer a “fortaleza grande e forte” que era a sua missão. O local escolhido foi a região da atual Praça Municipal. Os jesuítas, por sua vez, também vieram para cá desempenhar uma tarefa a pedido da coroa portuguesa.

A missão principal dos religiosos era a de evangelizar os povos indígenas na fé cristã. "Para os europeus do século XVI, o cristianismo era a única religião efetivamente válida. E isso descaracterizava a cultura, religião e religiosidade dos demais povos. Os jesuítas, inevitavelmente, são uma parte desse processo”, explica Fabrício Lyrio Santos, que tem estudos sobre a atuação da Companhia de Jesus na empreitada da colonização.
Educação e fé
Logo nos primeiros anos de sua chegada, os padres acumularam outra demanda, a educacional. Além do interesse em catalogar as línguas e toda a cultura dos povos originários, eles também precisavam formar novos evangelizadores e, por isso, criaram um colégio, ainda em 1550. O colégio foi instalado na área fora dos muros da Salvador original, onde hoje é o Terreiro de Jesus, no Centro Histórico, que tem esse nome justamente por causa deles. No século XVII, construíram a Catedral Basílica como parte do conjunto do colégio.
O prédio onde inicialmente se formariam novos jesuítas e depois a fina flor da elite intelectual colonial, se tornaria um hospital após a expulsão da ordem religiosa. Em 1808, seria transformado na Faculdade de Medicina da Bahia, a primeira da América Latina. Hoje, abriga o Museu Afro-Brasileiro da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e o Memorial da Medicina Brasileira.
Os jesuítas aprenderam e registraram as línguas indígenas, especialmente o tupi - em 1595 José de Anchieta escreveu a primeira gramática da língua tupi -, como forma de construir a metodologia para a catequese, mas acabaram legando muito material que permite aos historiadores de hoje entenderem o período colonial. O contexto da evangelização forçada é o mesmo da invasão, conquista e colonização do território indígena após a chegada dos portugueses, reflete Fabrício Lyrio:
"Os jesuítas não pegaram em armas, mas são parte do processo colonial e, em diversas ocasiões, os indígenas vão associar essas ações [de catequese] aos colonos, embora houvesse esforço dos jesuítas em tentar se diferenciar, afirmando que buscavam a salvação e não a exploração dessas populações. Mas, olhando hoje para o passado, é muito difícil separar uma coisa da outra".

O professor pontua que desde o início, os jesuítas viveram a tensão entre os objetivos espirituais e o sustento da ordem religiosa nas terras conquistadas. Comissionados pelo rei de Portugal e dependentes de recursos para manter as atividades, os padres logo se envolveram na vida econômica da colônia e passaram a administrar engenhos, fazendas de gado, plantações, imóveis e a Ilha dos Frades, dividida em lotes em 1561, segundo reportagem sobre a história do balneário, publicada em A TARDE, em 09 de maio de 1982.
Outra edição de A TARDE, essa de 31 de janeiro de 1931, também enfatizava a riqueza da Companhia de Jesus pouco tempo depois da chegada ao Brasil, em um artigo de Luiz Vianna Filho: "Após a chegada, a Companhia em pouco tempo alcançou lugar de destaque [...] E, sobretudo, um ponto havia em que os filhos de Loyola muito se distanciaram dos seus congêneres: a riqueza. O commercio e a herança faziam transbordar os arcos da Companhia", escreveu.
Os padres faziam voto de pobreza, lembra o professor Fabrício, mas enquanto instituição, a Companhia de Jesus e outras ordens religiosas tinham autonomia para gerir um patrimônio próprio. “Porém, não era recomendado que um religioso se envolvesse diretamente em algumas atividades, então eles contratavam feitores e outros profissionais para lidar com a mão de obra escravizada, por exemplo, e a renda desse trabalho era revertida, alegava a ordem, em suas missões e na expansão da religião", acrescenta.
Fazer uso de mão de obra escravizada é um dos aspectos mais controversos da atuação dos jesuítas e já naquela época gerava conflitos. “Eles chegaram a possuir o que é considerado o maior engenho do recôncavo baiano, o Sergipe do Conde, que havia sido doado pela viúva do Conde Linhares e foi descrito por André João Antonil, pseudônimo do jesuíta italiano João Antônio Adreoni, no livro "Cultura e Opulência do Brasil", de 1711, ‘como um modelo de produção de açúcar no período colonial’”, recorda o historiador da UFRB.
Influentes na política
O Largo do Pelourinho tem esse nome e fica onde está por causa dos padres da Companhia de Jesus. Ainda segundo Fabrício Lyrio, a influência dos jesuítas antes da ordem cair em desgraça e ser expulsa de Portugal e de suas colônias era tanta que eles mudaram o pelourinho [a estrutura usada para exposição e castigos] de endereço só com uma reclamação ao rei.
“Não temos o pelourinho em si, mas ficou a memória da existência através do nome, da toponímia do local, Largo do Pelourinho. Porém, ele nem sempre se localizou ali. Durante um período, foi localizado no Terreiro de Jesus, onde está a Catedral Basílica. Há uma reclamação dos jesuítas ao rei de Portugal de que os atos públicos que eram realizados no pelourinho acabavam atrapalhando as atividades religiosas da igreja. E eles reivindicam e conseguem uma ordem vinda de Portugal para que o pelourinho fosse removido dali e situado primeiro próximo da atual localização do mosteiro de São Bento e só posteriormente é que vai para o Largo do Pelourinho”, explica.
Durante os séculos XVI e XVII, a Companhia de Jesus seguiu expandindo sua influência na sociedade colonial, a atuação educacional e a catequese, levando missões para o Nordeste, Sudeste e Sul do país, além da Amazônia. Em 1759, já no século XVIII, a ordem foi expulsa de Portugal e suas colônias, dentro de um contexto que envolve divergências de poder e as ideias do Iluminismo, que fortaleciam o poder monárquico em detrimento do eclesiástico.
"Havia muitos grupos interessados na redução do poder que a Igreja tinha dentro da sociedade portuguesa e, sobretudo, a Companhia de Jesus, que era a ordem religiosa mais poderosa, tanto do ponto de vista da influência política que ela exercia, da influência cultural com seus colégios e universidades, e também da influência econômica, uma vez que ela possuía um patrimônio substancial", acrescenta Fabrício Lyrio.

O historiador conta que a Companhia de Jesus foi acusada de conspirar contra a monarquia portuguesa e de insuflar os súditos de Portugal contra o rei. Em 3 de setembro de 1758, o rei sofreu um atentado em Lisboa e os jesuítas foram apontados como responsáveis e considerados culpados pelo atentado. “A expulsão dos jesuítas ficou associada a esse crime fracassado de regicídio", acrescenta. Um ano depois, 3 de setembro de 1759, a ordem foi expulsa e toda a rede de colégios, missões e instituições que controlavam, desmantelada.
Perdoados pelo Papa
A saída dos padres da Companhia de Jesus não representou mudanças em relação aos métodos que eles praticavam em relação às populações indígenas. A imposição da religião cristã continuou via outras ordens como franciscanos e capuchinhos. "As missões que estavam nas mãos dos jesuítas foram convertidas em vilas e as igrejas que construíram para catequizar os indígenas, transformadas em sedes paroquiais", enumera o professor Fabrício Lyrio.
Somente em 1814, a Companhia de Jesus foi mundialmente restaurada a partir da bula Sollicitudo Omnium Ecclesiarum, promulgada pelo Papa Pio VII, em 7 de agosto. Lentamente, eles voltaram ao Brasil a partir do século XIX, retomando as atividades educacionais, principalmente.
Um dos marcos da volta, no começo do século XX, foi a criação do Colégio Antônio Vieira, em 15 de março de 1911. A instituição, que neste domingo faz 115 anos, "já surge como o principal colégio de referência da época e assim seguiu, tendo, por exemplo, entre seus alunos, o escritor Jorge Amado e Anísio Teixeira, patrono da educação pública brasileira ", lembra o professor e pedagogo Sérgio Silveira, diretor-geral do Antônio Vieira.
A sede do Vieira no Garcia foi inaugurada na década de 1930. Em 1932, A TARDE fez uma reportagem sobre os colégios e centros educacionais do Garcia e do Canela e visitou as obras da nova sede do colégio jesuíta. "Monumental, talvez o de maiores proporções do paiz, o edificio, ou antes a serie de edificios que os padres jesuitas estão construindo na antiga roça da Cruz, ao Garcia", descreve o jornal na edição de 5 de outubro.
Na história contemporânea, o diretor-geral enfatiza que "o colégio passou a ser referência nas ações em prol de uma educação antirracista, sempre a partir de uma educação jesuíta diferenciada, que prima pela reconciliação e justiça social, fincada em uma formação integral, pautada em valores cristãos".
Sérgio Silveira ainda lembra que a Companhia de Jesus não só fundou o Colégio dos Jesuítas do Terreiro de Jesus e o Antônio Vieira, mas escolas em todo o mundo. “São mais de 850 unidades educativas", afirma.
RODAPÉ
*Com a colaboração de Tallita Lopes
*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.
*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE
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