Delegação baiana teve pouco destaque no II Congresso Feminista

Queixa foi apresentada em reportagem que teve como fonte Hermelinda Paes, uma defensora da igualdade intelectual entre homens e mulheres

Publicado sábado, 09 de julho de 2022 às 05:10 h | Atualizado em 08/07/2022, 21:59 | Autor: Cleidiana Ramos*
Organização formal do movimento feminista na Bahia em 1931
Organização formal do movimento feminista na Bahia em 1931 -

Na edição e 16 de julho de 1931 A TARDE publicou uma reportagem sobre a repercussão do II Congresso Feminista ocorrido no Rio de Janeiro um mês antes.  O texto repercute as críticas ao evento feitas por Hermelinda Paes, uma das participantes. Embora a ênfase no subtítulo da reportagem tenha sido dada a uma frase em que ela aponta que faltava preparo para a mulheres conquistarem direitos, uma leitura mais atenta demonstra muito mais insatisfação da representante da delegação baiana com a ausência de espaço para a apresentação das propostas de ativismo dos outros estados durante o evento. Embora o movimento feminista estivesse em seu início no Brasil o relato ajuda a mostrar como as agendas, mesmo entre as mulheres com perfil aparentemente semelhante, eram e continuam mais complexas do que à primeira vista. 

“O Congresso podia ter tido resultados satisfatórios não fosse a desorientação, falta de ordem e methodo reinantes, talvez, devido a pouca prática das suas organizadoras em assumptos desta natureza, resultando dahi grande descontentamento por parte de muitas das congressistas. Os trabalhos foram feitos, pois, atabolhoadamente, devido a um programma  exhaustivo que demamandaria muitas sessões e para o cumprimento do qual se dispoz de pouco tempo e sendo sensível o interesse que se tinha de vencê-lo. Pela pressa de cumprir o programma resultou que as autoras das theses não tiveram sequer opportunidade de fazer a mais ligeira exposição sobre as respectivas conclusões”. (A TARDE, 16/7/1931, p.2).  

A autora da queixa, Hermelinda Paes, era bacharela, possivelmente em direito, embora não tenha essa informação no texto. Ela representava o Ministério Público na Justiça Militar, segundo a reportagem.  O I Congresso Feminista foi realizado em dezembro de 1922, quatro meses após a criação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino por Bertha Lutz. O segundo, portanto, aconteceu após nove anos e, quando, na Bahia, a filial da federação brasileira acabava de ser fundada.  

O grupo baiano foi, predominantemente, formado por mulheres da elite econômica, com acesso aos meios considerados intelectuais, e que foram capazes de dar dimensão e força às atividades feministas. A atuação das baianas estava muito próxima das ações realizadas no Rio de Janeiro, da perspectiva do protagonismo, de acordo com a dissertação intitulada Feminismo na Bahia 1930-1950, defendida por Maria Amélia Ferreira de Almeida no Mestrado em Ciências Sociais da Universidade Federal da Bahia (Ufba) sob a orientação da professora Alda Mota. O trabalho de Maria Amélia de Almeida, apresentado em 1986, é uma referência sobre as bases do ativismo feminista na Bahia. 

“As baianas até então (1931) praticamente ausentes desse tipo de manifestação incorporam-se com vigor à luta feminista no ápice nacional da campanha pelo sufrágio feminino”. (Feminismo na Bahia 1930-1950, dissertação de mestrado de Maria Amélia Ferreira de Almeida, p. 12). 

O trabalho de Maria Amélia de Almeida traça a trajetória de um movimento que começou com o interesse de mulheres por uma maior emancipação e participação na vida para além da casa e seus afazeres, mas ainda baseada em obras sociais educativas e religiosas. Nesse modelo destacou-se Amélia Rodrigues. Havia prevenção em relação ao que seria o feminismo e, quando o uso dessa palavra se tornou mais frequente, ela definia, nesse contexto, uma ação preventiva ao que destoasse de valores das estruturas mais conservadoras. 

Foi na defesa do voto feminino que começaram a ter protagonismo mulheres como Edith Mendes Gama Abreu que, em 1931, assumiu a presidência da Federação Bahiana pelo Progresso Feminino (FBPF). Esta e outras mulheres, como Lili Tosta, ganharam protagonismo e espaço nos jornais de Salvador. 

“Os assuntos mais contundentes e contestatórios dos movimentos feministas na Bahia só emergiram em meados da década de 1970, na chamada segunda onda. São temas como os direitos reprodutivos, às decisões sobre o seu próprio corpo, aborto, contestação aos chamados crimes de honra, dentre outros”, aponta Ana Amélia de Almeida, que é psicóloga, psicanalista e mestra em Ciências Sociais. 

Algumas das mulheres citadas por Ana Amélia de Almeida em sua dissertação foram mencionadas por Hermelinda Paes na entrevista que serviu de base à reportagem de A TARDE publicada na edição de 16 de julho de 1931: 

“Da actuação da senhora Gama e Abreu nada é mais preciso que se diga, dado o brilho que emprestou à nossa representação. D. Lili Lage na Comissão de Polícia foi um elemento valiosíssimo, o mesmo se podendo dizer no plenário das profªs Celeste Cerqueira e Judith Mendes. Enfim cumprimos o nosso dever”. (A TARDE 16/7/1931, p.2). 

A Tarde destacou perfil de Hermelinda Paes, representante do movimento feminista baiano
A Tarde destacou perfil de Hermelinda Paes, representante do movimento feminista baiano |  Foto: Arquivo A TARDE
 

Críticas

É uma pena que o texto tenha deixado lacunas sobre a atuação de Hermelinda Paes no congresso. Além de apresentar algumas das suas críticas ao que considerou pouco protagonismo para as mulheres vindas de outros locais que não o Rio de Janeiro e a  Bertha Lutz usando termos como “prepotência”, ela citou diversos incidentes que ocorreram durante o congresso. Mas o texto não definiu que incidentes foram estes.    

Hermenilda Paes destacou também o discurso feito pela escritora Rachel Prado que invocou a memória de Leolinda Daltro (1859-1935) como a precursora do feminismo brasileiro. Baiana, Leolinda Daltro foi defensora do voto feminino e fundou o Partido Republicano Feminista em 1910 para dar visibilidade ao direito à emancipação política das mulheres. Além disso, separou-se do primeiro marido e organizou um curso de alfabetização para indígenas sem conotações religiosas. Chegou a ser chamada de “a mulher do diabo” por conta das suas lutas e da condição de mulher separada do marido.  A memória de Leolinda foi reivindicada em um debate sobre o pioneirismo das bandeiras do movimento em outras regiões do Brasil, como a Bahia.  

“Foi a nossa conterrânea d. Leolinda Daltro, veneranda professora no D. Federal e que apezar de tudo não foi esquecida”. (A TARDE 16/7/1931, p.2). 

Essas declarações de Hermelinda Paes ao longo da matéria são amostras de como os movimentos, especialmente em momentos tão conturbados, são complexos. No início do texto, ela fez duras críticas ao que viu no Rio de Janeiro chegando a dizer que mudou de ideia sobre o preparo das mulheres para que o feminismo fosse acolhido nas estruturas sociais vigentes o que afirmou ter, naquele momento, a simpatia do então presidente Getúlio Vargas. 

“Antes de tudo é preciso instruí-la e educa-la, pois se assim não o for ao lado da politicalha dissolvente dos homens teremos a da Mulheres na qual ellas entrarão neste ‘joguinho” com outros mais perigosos factores como sejam a perfídia, a calumnia e a mentira. Não é propriamente uma mudança de idéas. É que eu senti no choque das idéas a queda do véo dos sonhos e depois disto, visto face a face a Mulher do quanto ella é capaz”.  (A TARDE, 16/7/1931, p.2). 

Perspectivas

Para Daniela Auad, doutora em Educação pela Universidade de São Paulo (USP), é preciso, na análise de movimentos sociais brasileiros, o cuidado com as armadilhas do anacronismo, devido às complexidades da formação do país. “No caso do feminismo, por exemplo, podemos falar em multiplicidades. São mulheres de uma elite intelectual que têm as falas que eram possíveis naquele momento e em determinados espaços. Hermelinda Paes, por exemplo, teve uma trajetória de refutar as teorias de inferioridade intelectual das mulheres, por exemplo”, destaca a professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora (PPGED- UFJF) e da Universidade Federal de São Carlos, campus Sorocaba (UFSC-So).         

Autora do livro Feminismo: que história é essa?, Daniela Auad salienta que o feminismo tem muitas faces e atua de diferentes formas a partir de fatores como região, raça e exercício da sexualidade.  “Há múltiplos feminismos em micro e macro esferas. Nós estamos implicadas não só nas violências que sofremos, mas na transformação do mundo que nos violenta. Essa transformação vem ora com a militância, ora com o sofrimento, com o que é colocado nos jornais pelas mulheres de elites, pelas mulheres das comunidades que nem sempre vão aparecer no jornal e que nos obrigam a ajustes”, acrescenta.   

Hermelinda Paes, por exemplo, tinha muito acesso aos jornais, como aponta Daniela Auad. Ela, por exemplo, esteve em destaque na edição de 6 de abril de 1931 de A TARDE na seção Tribuna Feminista, onde fez uma apaixonada defesa da igualdade intelectual entre homens e mulheres. A declaração de Hermelinda Paes a seguir mostra uma interessante personagem que a memória cotidiana dos jornais pode revelar ou oferecer novas perspectivas a partir de um determinado debate: 

“Não me fiz, portanto, feminista. Em mim, esta qualidade, em estado latente, desenvolvia-se, brotava, e eu seguia, quasi inconsciente o caminho que me apontava: nasci para a luta, para o progresso, para a renovação. Sustento a igualdade intellectual dos dois sexos porque convencida estou de que desenvolvendo-se na mulher a intelligencia, cultivando-se-lhe o espírito, será ella capaz de emprenhender o que o homem empreende, realizar o que ele realiza”. (A TARDE 6/4/1931, p2). 

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia

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