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A TARDE MEMÓRIA

Dona Flor e seus dois maridos quebraram tabus há 60 anos

Romance de Jorge Amado foi lançado em 1966 e, dez anos depois, levado ao cinema por Bruno Barreto

Priscila Dórea*
Por Andreia Santana
A polêmica cena de Vadinho, vivido pelo ator José Wilker, saindo nu da igreja, ao lado de Flor, vivida por Sônia Braga
A polêmica cena de Vadinho, vivido pelo ator José Wilker, saindo nu da igreja, ao lado de Flor, vivida por Sônia Braga - Foto: Cedoc A TARDE/15.11.1976

"Tudo isso aconteceu, acredite quem quiser. Passou-se na Bahia, onde essas e outras mágicas sucedem sem causar espanto", escreve Jorge Amado em Dona Flor e seus dois maridos, um dos romances mais populares do autor nascido na zona cacaueira baiana. O romance, de 1966, completa 60 anos agora em junho e traz a história de um insólito triângulo amoroso que figura entre os mais lembrados da literatura brasileira.

A encantadora Flor, o boêmio Vadinho e o fiel Teodoro caíram no gosto popular e escandalizaram os conservadores. Tanto que, 10 anos depois, o romance ganhou a primeira adaptação para o cinema pelas mãos do diretor Bruno Barreto. Filmado em Salvador e lançado nacionalmente em 1976, a versão filme de Dona Flor e seus dois maridos foi um fenômeno que atraiu mais de 10 milhões de espectadores às salas de exibição do país e manteve, por 34 anos, o título de maior bilheteria nacional.

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O romance, que mistura humor, sensualidade e realismo mágico, conta a história de Florípedes, professora de culinária que vive em Salvador. Após a morte súbita do marido Vadinho, no meio de uma folia carnavalesca, ela se casa com o farmacêutico Teodoro. Se o falecido era sinônimo de malandragem e volúpia, o novo marido simboliza estabilidade e respeitabilidade para a inconsolável viúva. Dividida entre a paixão arrebatadora que sentia pelo morto e a segurança dada pelo segundo marido, Flor se vê às voltas com a tentação quando o espírito de Vadinho retorna para continuar ao seu lado.

"As influências para a criação da história nasceram a partir das experiências vividas pelo autor e por pessoas conhecidas por ele – uma viúva e um jovem boêmio. A viúva foi uma senhora que fora casada primeiramente com um boêmio até o falecimento deste, e que posteriormente casa-se com um português de reputação impecável, aparentemente bastante distinto do falecido. A constante harmonia do casal foi devastada quando o falecido retornou em sonhos para a viúva, desejoso de levá-la à cama novamente, causando-lhe inquietação", explica a gastrônoma e mestre em ciência da literatura, Anna Carolina Deodato da Silva, no artigo ‘Comida, religião e outras histórias em Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado’

Jorge Amado publicou o romance Dona Flor e seus dois maridos em 1966
Jorge Amado publicou o romance Dona Flor e seus dois maridos em 1966 - Foto: Jacques Sassier/Cedoc A TARDE

O romance retrata a sociedade de uma época em que a mulher burguesa tinha um caminho predeterminado e que nem sempre correspondia ao que ela de fato desejava, explica Ângela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado. Para ela, o grande trunfo de Dona Flor é a sensibilidade do autor em retratar os anseios femininos. "A poeta Myriam Fraga dizia que o eu lírico não tem gênero e isso se confirma em Dona Flor. Jorge Amado conseguiu trazer uma sensibilidade feminina muito aflorada. Foi surpreendente para a época, quando nem todos podiam ler qualquer coisa, já que havia livros considerados 'próprios' para homens e livros ‘próprios’ para mulheres", acrescenta.

Como toda a literatura de Jorge Amado, Dona Flor foi transgressora, aponta Ângela, e isso despertou enorme curiosidade nos leitores. "Dona Flor é um romance que pode ser lido por muitos públicos e ganhou ainda mais força com a adaptação para o cinema, sobretudo para o cenário cultural da Bahia, pois a obra traz uma identidade muito forte e a população consegue se ver refletida em personagens como Dona Flor. Ela representa a dicotomia do sentimento feminino entre o que é seguro e o que é atraente. Flor é uma personagem profundamente humana, como tantos de Jorge Amado, mas com uma sensibilidade especial para o universo feminino", reflete.

Flor no cinema

O longa-metragem começou a ser filmado em outubro de 1975. Entre o final de daquele ano e o início de 1976, a capital viu muitas de suas ruas, sobretudo no Centro Histórico, se transformarem em set de filmagem. As locações espalhadas por Salvador abrangiam locais como Gameleira, São Tomé de Paripe, Pelourinho, a Palma, o Carmo e o Dois de Julho, na rua Areal de Baixo, onde foi situada a Escola de Culinária Sabor e Arte, comandada por Dona Flor.

A população empolgada com os artistas famosos – Sônia Braga, como Flor, José Wilker, Vadinho, e Mauro Mendonça vivendo Teodoro - acompanhava as filmagens e até oferecia utensílios e objetos de cena para a equipe de produção. Jorge Amado e Zélia Gattai também compareceram às locações para ver as cenas do romance ganhando vida.

Jorge Amado e Zélia Gattai compareceram às filmagens de Dona Flor no Pelourinho em 1975
Jorge Amado e Zélia Gattai compareceram às filmagens de Dona Flor no Pelourinho em 1975 - Foto: Cedoc A TARDE/1975

A TARDE noticiava o burburinho: "Ontem, no Areal de Baixo foram iniciadas as filmagens de 'Dona Flor'. As primeiras tomadas se fizeram em um casarão onde foi posta uma placa 'Escola Culinária Sabor e Arte', desenvolvendo-se depois em vários locais da cidade [...] Sônia Braga - 'Dona Flor' - e José Wilker foram aplaudidos pela multidão, principalmente no Areal. Jorge Amado, ao lado de sua esposa Zélia, fez-se presente. Bruno Barreto (o diretor), filho de Luiz Carlos Barreto (o produtor) está entusiasmado com a hospitalidade e ternura dos baianos", diz a edição de 2 de outubro de 1975.

Bruno Barreto tinha apenas 21 anos na época das gravações do filme e até aquele momento havia dirigido dois longas e seis curtas. Dona Flor se tornou um dos maiores sucessos da carreira do diretor. Além do sucesso estrondoso no Brasil, a obra foi indicada a Melhor Filme Estrangeiro no Globo de Ouro de 1979. Dona Flor e seus dois maridos só perdeu o posto de filme nacional mais assistido no Brasil em 2010 para Tropa de Elite 2. Atualmente, é a quinta maior bilheteria da história do cinema brasileiro.

Durante as gravações, Bruno Barreto precisou lidar com a logística de filmar em ruas movimentadas, casarões coloniais e praças históricas; além de coordenar cenas em praias e mercados locais que exigiam grande interação com figurantes e moradores. O diretor também precisou equilibrar humor e sensualidade, elementos centrais da obra literária, sem perder a profundidade cultural. Nesse contexto, a escolha de Sônia Braga como Dona Flor foi decisiva e a entrega da atriz foi tão memorável que lhe rendeu a indicação de atriz revelação ao Bafta (prêmio de cinema britânico).

Química e escândalo

A química da atriz com José Wilker e Mauro Mendonça refletia fielmente o triângulo amoroso descrito por Jorge Amado no romance. Além disso, o apelo ao realismo mágico e a ousadia da história alimentou ainda mais o interesse das pessoas pelas gravações e pelo filme depois. As cenas de Vadinho, que sempre aparece nu para Flor no decorrer da história, renderam um capítulo a parte na história da produção em Salvador.

"Deve ter sido uma loucura, naquele tempo, José Wilker nu no meio do Largo do Pelourinho. Jorge Amado conta no livro Navegação de Cabotagem que pediu autorização ao cardeal, na época, para liberar a filmagem na igreja, que era uma coisa pouco usual", revela Ângela Fraga.

Na cena em questão, Flor sai de braços dados com os dois maridos. De um lado está Teodoro em seu terno sóbrio e chapéu; do outro, Vadinho, nu e apalpando a bunda da ex-viúva enquanto o trio sai da Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos juntamente com os outros devotos, após uma missa.

"Depois dessa confusão de Wilker estar nu no Pelourinho, Jorge Amado pediu de novo ao cardeal para gravar Os Pastores da Noite e teve uma negativa. Então, ele precisou se esforçar para convencer de que não ia ser daquele jeito [com atores sem roupa]. Como Myriam Fraga dizia, o Pelourinho é o lugar onde tudo acontece. A gente já vivenciou tanta coisa aqui e isso deve ter sido algo realmente muito inusitado naquela época", conta a presidente da Fundação.

Ângela explica que ninguém imaginava o grande sucesso que o filme faria e o quão atual ele se manteve com o passar das décadas. Quem reassiste ou assiste o filme pela primeira vez nos dias de hoje, 50 anos desde o seu lançamento e 60 desde a publicação do romance, ainda se surpreende com o quanto a história é transgressora.

“Jorge Amado sempre declarava em entrevistas que as adaptações para cinema e TV não eram mais a obra dele, que ganhavam vida própria. Dona Flor ganhou uma vida própria, mas de uma forma bem fiel ao romance. Acho que desperta interesse até hoje porque realmente é muito interessante aquela narrativa feminina, no espaço da cidade, com toda aquela cultura popular também envolvida", afirma.

Outro elemento que ajudou a eternizar o filme foi a trilha sonora original composta por Chico Buarque de Holanda. "Depois que viu o 'copião', Chico compôs o tema musical cantado no filme por Milton Nascimento e Simone. Chico fez três letras diferentes para a mesma melodia, cada uma se referindo a uma fase da história. A primeira é a de abertura, que é cantada sobre os letreiros iniciais, depois o tema da viuvez e o fechamento sobre a felicidade de D. Flor com seus dois maridos.

No dia 13 de novembro de 1976, A TARDE anunciou o lançamento do filme, que aconteceria na semana seguinte. "Lançamento nacional em grande estilo em várias capitais brasileiras e em inúmeros cinemas. Já dispensa qualquer comentário, porque não tem quem não saiba tudo sobre o livro e o filme, feito aqui mesmo em Salvador, a maioria das cenas no Largo da Palma. Direção de Bruno Barreto, com Sônia Braga, José Wilker e Mauro Mendonça nos principais papéis. Música de Chico Buarque. Creio que vai fazer um sucesso espetacular de bilheteria. Vai ser exibido nos cinemas Iguatemi, Bahia, Tamoio, Nazaré. Espero que a Censura não tenha cortado nada", dizia o texto.

Sonia Braga e Mauro Mendonça caracterizados como os personagens de Dona Flor e seus dois maridos. O ator vive o segundo marido de Flor
Sonia Braga e Mauro Mendonça caracterizados como os personagens de Dona Flor e seus dois maridos. O ator vive o segundo marido de Flor - Foto: Cedoc A TARDE

A censura da vigente Ditadura Militar, no entanto, cortou e modificou inúmeras cenas. Palavrões foram vetados e as cenas mais explícitas foram escurecidas ou totalmente cortadas. Algumas passagens foram alteradas para planos mais abertos. Em 1996, em comemoração aos seus 20 anos, o filme voltou a ser exibido nos cinemas com as cenas restauradas e sem os cortes de 1976. Atualmente é possível ver o filme na íntegra e sem censura no Prime Vídeo.

Novas adaptações

"O final do romance parece conduzir o leitor pela Salvador mágica, poética e festiva, de liberdade e alegria construída por Jorge Amado, imune aos terrores que a Ditadura Militar promovia à época da publicação. O caráter fantástico dessa sociedade permite abrigar Dona Flor e sua duplicidade matrimonial, após tantas batalhas entre espírito e matéria, moral e desejo, sagrado e profano, sem cair no discurso moralista da bigamia - o caráter mágico a protege da política do punir", destaca Anna Deodato em outro trecho do artigo ‘Comida, religião e outras histórias em Dona Flor e seus dois maridos, de Jorge Amado’.

Esse caráter mágico e ousado conquistou, também, o público internacional e a carreira do filme no exterior também foi destaque em edições de A TARDE. "No número de abril de 1982, 'Adventura Travel', revista especializada em turismo e cultura, publica um artigo de 11 páginas sobre a Bahia e sugere que 'dois romances que realmente dão um sabor autêntico de Salvador são 'Tenda dos Milagres' e 'Dona Flor e seus dois maridos'. [...] Outra área onde o nome de Jorge Amado figura nos Estados Unidos é no palco. Em New York, 'Dona Flor e Seus Dois Maridos' foi adaptado para o palco com o nome de 'Saravá'", informa a edição de 19 de abril de 1982.

Ao longo das décadas, Dona Flor e seus dois maridos ganhou diferentes adaptações que reforçam sua força cultural. Além da peça Saravá, que ficou em cartaz em Nova York por 129 apresentações, em 1979, uma versão americana do filme, chamada Meu Adorável Fantasma, estreou em 1982 nos Estados Unidos. Em 1998, a Rede Globo produziu uma minissérie, com Giulia Gam, Edson Celulari e Marco Nanini nos papéis principais. Já em 2008, a obra chegou aos palcos em uma montagem teatral dirigida por Pedro Vasconcellos que, em 2017, lançou um remake cinematográfico com Juliana Paes, Marcelo Faria e Leandro Hassum. Mais recentemente, o clássico de 1976 foi relançado em versão restaurada dentro das comemorações de seus 50 anos.

"As adaptações também ajudaram a popularizar ainda mais a história. Nem todos têm acesso ao livro, mas ao assistir ao filme ou à minissérie, muitos correm para conhecer o texto original e descobrir o que Jorge Amado escreveu e o que Bruno Barreto revelou na tela. Essa ponte entre literatura e audiovisual é muito interessante. Todo romance que permite ao leitor se reconhecer no protagonista desperta interesse. E Jorge Amado fazia isso com maestria. Ele criava personagens profundamente humanos, não apenas em Dona Flor, mas em toda sua obra", afirma Ângela Fraga, presidente da Fundação Casa de Jorge Amado, que este ano completa 40 anos de criação, cumprindo o papel de reforçar a importância da literatura amadiana.

Fundação Casa de Jorge Amado preserva acervo do autor e promove atividades culturais como a Flipelô
Fundação Casa de Jorge Amado preserva acervo do autor e promove atividades culturais como a Flipelô - Foto: Shirley Stolze/Cedoc A TARDE/8.3.1996

Fundada em 1986 e aberta ao público em 1987, a missão da Fundação é manter a chama das obras de Jorge Amado, assim como a própria história dele, vivas. "Por isso sempre procuramos nos inspirar nas obras dele na construção de nossos projetos culturais. Um bom exemplo é o Merendas de Dona Flor, onde trazemos as feiras gastronômicas para a frente da Fundação e que esse ano vem com ainda mais força em virtude da comemoração do aniversário da Fundação e da obra. Sempre pensamos em projetos que tenham aderência ao universo de Jorge Amado, de Zélia ou da nossa cultura que carrega esse DNA dele", afirma Ângela Fraga.

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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cinema brasileiro Dona Flor e seus dois maridos Feminismo na Literatura Jorge Amado literatura baiana realismo mágico

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