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A Tarde Memória

Por Cleidiana Ramos*

ACERVO DA COLUNA
Publicado sábado, 22 de janeiro de 2022 às 6:01 h | Autor:

Edição de A TARDE destacou a beleza da puxada de rede

Cercada de elementos como canto, dança e demonstração de solidariedade, atividade vai além da técnica

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Na edição de 12 de janeiro de 1926, A TARDE publicou, em sua capa, o clichê que registrou uma prática cultural capaz de superar a esfera de um ofício profissional: a puxada de rede na pesca do xaréu. A imagem mostra um conjunto de homens próximos à praia no esforço coletivo para arrastar as redes. Nas informações do texto está o aviso de que, infelizmente, não dá para reproduzir a animação que acompanha o cenário. A observação do autor do texto é porque o trabalho costumava ser acompanhado pelo canto dos pescadores e por movimentos cadenciados que lembram uma dança, como foi possível reproduzir em uma das cenas iniciais de Barravento, o primeiro longa-metragem de Glauber Rocha (1939-1981) concluído em 1962.

Cena de Barravento, de Glauber Rocha
Cena de Barravento, de Glauber Rocha | Foto: Cedoc A TARDE | 13.05.2001

“A rede foi lançada longe, nas águas de pleno oceano da costa norte, Pituba, Amaralina, Itapoan... Depois vem sendo arrastada vagarosamente por pescadores e assistentes sentindo quanto está pesada”. (A TARDE 12/1/1926, capa).

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Capa da edição de 12/1/1926 trouxe registro
Capa da edição de 12/1/1926 trouxe registro | Foto: Cedoc A TARDE | 12.1.1926

Mais adiante o texto informa o quanto a pesca do xaréu era importante para as comunidades de baixa renda, mas com o alerta que mesmo esse alimento estava ficando mais difícil de ser adquirido devido à carestia, uma queixa constante nas reportagens de A TARDE nas primeiras quatro décadas do século XX:

“Que o xaréo é o peixe de predilecção das classes menos favorecidas. Talvez por uma questão de preço, apesar de que já não custa o que custava. O xaréo também subiu...”. (A TARDE 12/1/1926, capa).

Essa é uma indicação do que cerca a pesca do xaréu: trabalho coletivo, solidariedade e partilha com as comunidades do entorno. No livro Reflexões- Escritas de Mãe Valnizia Bianch, a ialorixá do Terreiro do Cobre, que foi articulista de A TARDE, narra, no texto intitulado “Uma grande mulher: Telinha de Iemanjá”, a experiência em torno da puxada de rede vivida pela comunidade do Engenho Velho da Federação onde ela nasceu, cresceu e exerce a sua liderança religiosa.

“Outra lembrança que tenho de Telinha é de sua ida à praia de Armação com minha mãe e tias para a puxada de rede, onde pescadores, adultos e crianças pegavam o xaréu em meio a muitas cantorias. Após a puxada de rede, elas ganhavam os peixes. Aí preparavam um escaldado com quiabo, abóbora, maxixe, jiló e o molho nagô que era feito com as pimentas raladas, limão, quiabo, coentro, cebola, tomate e camarão seco. E degustavam tudo bebendo uma cachacinha. Era só alegria”. (Reflexões- Escritas de Mãe Valnizia Bianch, p.26).

Nesse artigo de Mãe Valnizia Bianch está a menção à solidariedade em torno da pesca do xaréu e outra informação preciosa: detalhes do preparo de um prato com a apresentação dos outros alimentos utilizados, inclusive o molho nagô, que hoje não é tão comum de ser encontrado mesmo em restaurantes especializados em comida baiana.

Pescador e presidente da Colônia de Pesca Z-6, localizada no bairro de Itapuã, Arivaldo de Sousa Santana diz que a puxada de rede para recolher o xaréu já não é tão frequente em Salvador como foi no passado. “A técnica tem a característica de manter a rede sempre montada. Era muito comum em Stella Maris e no Costa Azul. O pessoal checava pela manhã se tinha xaréu. Se tivesse, os pescadores colocavam outra rede para cercar e então puxar os peixes capturados para a areia”, conta.

Segundo Ari, como também é conhecido, o xaréu continua abundante nas águas de Salvador. “Quando eu mergulho vejo muitos cardumes. Em setembro do ano passado apareceram muitos em Piatã”, relata Santana. Ele explica que o xaréu mais comum na pesca em Salvador é o que é chamado “do rabo amarelo”, e o de cor prata. O pescador afirma que há outras espécies que também são chamadas de xaréu.

De acordo com ele o de rabo amarelo tem a carne em tom mais escuro o que faz com que haja maior rejeição o que é uma pena, pois a espécie é rica em ômega 3, 6 e 9. “Inclusive passamos estas informações em um curso que realizamos com o apoio da Bahiapesca”, completou. A Colônia Z-6 tem 550 pescadores associados.

 Registro mais contemporâneo de puxada de rede na Boca do Rio
Registro mais contemporâneo de puxada de rede na Boca do Rio | Foto: Gildo Lima | Cedoc A TARDE | 4.2.2001.

Cultura do mar

“O xaréu é um peixe pelágico, o que significa que ele não vive associado a nenhum substrato. Ele tem capacidades nadatórias elevadas, o que lhe dá uma característica migratória”, explica o oceanógrafo Maurício Rebouças, que é mestre em meteorologia e doutorando em oceanografia física pela Universidade de São Paulo (USP).

De acordo com Rebouças, o xaréu aparece no Oceano Atlântico desde a costa dos Estados Unidos e Canadá até o Uruguai, na costa leste, que vai da Europa até a Namíbia, na África, e no Mediterrâneo. “O xaréu é uma espécie que vive na coluna d´água sob a plataforma continental que são as regiões mais costeiras até mais ou menos uns 200 metros. Ele vive nessas regiões porque se alimenta dos peixes que ali vivem, camarões, invertebrados e outros organismos e tem uma capacidade de viver em diferentes taxas de salinidade”, acrescenta Rebouças.

Em cidades litorâneas como Salvador, o mar é um espaço que necessita de olhares sob as mais variadas perspectivas. Dentre elas está o entendimento dos patrimônios materiais e imateriais que ele reúne, especialmente em uma cidade que tem a sua história e cotidiano profundamente vinculados às águas. A partir desse entendimento, o projeto Archemar está sendo retomado por um grupo de pesquisadores em parceria com a Prefeitura de Salvador por meio do Plano de Ação do Programa Nacional de Desenvolvimento do Turismo Salvador (Prodetur).

“No início da década de 1970, o professor Pedro Agostinho, em conjunto com outros pesquisadores, iniciou uma ação voltada para a arqueologia naval que foi uma tentativa de dar conta do patrimônio subaquático. Em 2007 realizamos um grande encontro de pesquisadores da área, em parceria com a Prefeitura de Itaparica, onde chegamos a implantar o Archemar, mas ele foi descontinuado após a mudança de gestão. No ano passado retomamos o projeto agora em parceria com a Prefeitura de Salvador”, explica Carlos Caroso, doutor em antropologia, professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba) e coordenador do Observabaía, um projeto multidisciplinar de pesquisa com foco na Baía de Todos-os-Santos.

Um dos objetivos do Archemar, que está em vias de instalação no Forte de Nossa Senhora de Monte Serrat, é o mapeamento e qualificação dos sítios subaquáticos como o que fica na Barra. Uma das atrações são os navios que naufragaram ao longo da costa soteropolitana.

Segundo Rodrigo Torres, doutor em antropologia especializada em arqueologia subaquática e professor da Universidade da República, localizada no Uruguai, que integra, assim como Caroso, o Archemar, o turismo subaquático em Salvador tem um potencial diferenciado, mas necessita de ações que garantam a sustentabilidade.

“Há operadoras que realizam as ações de visita aos sítios subaquáticos, mas que lançam as âncoras das embarcações para viabilizar o mergulho dos turistas nos canhões de navios naufragados o que já causa um impacto inadequado”, completa. Uma das metas principais do Archemar é possibilitar a criação de uma rede de informações com um conceito diferenciado inclusive em museologia usando tecnologia de imersão digital, como as que permitem um mergulho virtual, além de viabilizar a formação especializada de grupos vinculados às comunidades tradicionais da costa, como os pescadores.

“Imagine os filhos de pescadores operando cooperativas de mergulho e tornando essa atividade mais acessível. Atualmente ela é muito cara e elitizada”, completa Torres. De acordo com ele também é importante observar como Salvador permite um tipo de experiência diferenciada, ou seja, um mergulho por sítios subaquáticos, mas ao mesmo tempo quando se está na costa observar uma puxada de rede de xaréu, a Festa de Iemanjá preparada pela Colônia de Pesca Z-1, situada no Rio Vermelho, ou a Festa de São Pedro, realizada pela Colônia Z-6, localizada em Itapuã.

Para o professor Carlos Caroso pesquisas na área de patrimônio necessitam ter como norte a certeza que ele sempre tem a ver com pessoas. “Uma abordagem, especialmente na área de turismo, nunca pode abdicar desse princípio, afinal essas intervenções necessitam de cuidados porque não podem se tornar predatórias ou uma ação intervencionista que acaba por prejudicar o bem ou a manifestação cultural”, acrescenta.

O mar, portanto, não está apenas para alimentação ou como lugar de passagem. Ele continua a inspirar a ciência, a arte e é capaz de transformar um ofício em um canal de disseminação de saberes e experiências variadas.

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE. Para saber mais: Reflexões- Escritas de Mãe Valnizia Bianch, publicação independente, 2019 (pedidos pelo email reflexoesescritasmae [email protected]), filme Barravento, de Glauber Rocha, 1962. Confira mais conteúdo de A TARDE Memória no Portal A TARDE e na rádio A TARDE FM.

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia

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