Fenômenos dão a Salvador privilégio para contemplar o entardecer

Oceanógrafo explica o que nos leva a perceber diferentes cores no pôr-do-sol

Publicado terça-feira, 29 de março de 2022 às 05:05 h | Atualizado em 28/03/2022, 22:48 | Autor: Cleidiana Ramos* | [email protected]

Salvador é conhecida pela beleza do seu vasto patrimônio arquitetônico, mas também do natural. A vista de locais como Abaeté, Parque São Bartolomeu, Gamboa, Amaralina, dentre outros, ajuda a afastar o estresse diante da beleza que apresentam mesmo em meio à área urbana. Fundada em 1549 para garantir uma nova fase do projeto de colonização portuguesa, a primeira cidade em território brasileiro foi ganhando características muito especiais e uma delas é a oferta cotidiana da experiência de acompanhar o pôr do sol transformado em um espetáculo de cores. E isso em espaços variados como Porto da Barra, Farol da Barra, Itapuã e Ponta de Humaitá. Tentar apontar qual entardecer é mais bonito transforma-se em uma missão tão difícil de alcançar unanimidade na cidade como a escolha do melhor acarajé.  Mas essa ampla oferta de locais para conferir a beleza da despedida diária do sol é resultado da combinação de condições físicas  na atmosfera com a paisagem natural da capital baiana. 

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O oceanógrafo Maurício Rebouças, que é mestre em meteorologia e doutorando em oceanografia física pela Universidade de São Paulo (USP) explica que a atmosfera da Terra é parcialmente transparente o que faz com que apenas uma fração da radiação solar chegue até o estágio em que podemos contemplar os fenômenos que ela produz. “Uma parte da radiação solar incidente é absorvida pela superfície da Terra e a outra parte é absorvida na própria atmosfera, espalhada ou refletida de volta ao espaço”, completa.

Farol da Barra: ponto de observação procurado
Farol da Barra: ponto de observação procurado |  Foto: Arquivo A TARDE | 7.2.1990
 

Neste trânsito, o comprimento da radiação solar associado à composição da atmosfera com elementos como gases, vapor d´água e partículas chamadas de aerossóis desempenham um papel importante no que vamos perceber como cores no espaço. “A luz visível é apenas uma faixa do espectro da radiação solar e cada cor possui seu próprio comprimento de onda. O azul tem um comprimento de onda menor que o verde, amarelo, laranja e vermelho nessa ordem”, explica Rebouças. 

A partir dessas interações quanto mais gases e micropartículas  estiverem espalhando a luz, uma cor vai ter maior relevância sobre as demais. Este é o fenômeno conhecido como Espalhamento Rayleigh.  Um exemplo: quando o sol incide zenitalmente à superfície da Terra, ou seja, vem de uma parte mais acima, e em dias claros, o céu é percebido por nós como mais azul. 

“Porém, próximo ao nascer e ao pôr-do-sol, a radiação solar incidente tende a tangenciar a superfície, o que significa que o caminho percorrido por ela é mais longo e passa por uma camada de ar mais densa. Assim, a luz azul é “tão espalhada”, que fica fora do nosso campo de visão, abrindo espaço para o espalhamento do amarelo, laranja e vermelho”, aponta Rebouças. 

É por essa combinação de fatores físicos que o céu no amanhecer e no entardecer fica com tons próximos do vermelho e do laranja. E, por ter características especiais como uma ampla e livre faixa para que visualizemos o mar, o pôr do sol de Salvador vai oferecer aquele espetáculo com a combinação de cores em tons ora mais claros ora mais escuros.    

“O sol se põe, digamos, atrás da Baía de Todos-os-Santos, o que naturalmente nos dá um privilégio por termos um pôr do sol atrás do mar, embora estejamos na costa leste do continente”,  completa Rebouças. 

A presença dos aerossóis na atmosfera e comuns em cidades com altas taxas de urbanização, como as capitais brasileiras, favorece o espalhamento de todas as cores independentemente do comprimento de onda, fenômeno chamado de Espalhamento Mie. Isso dá ao pôr do sol uma diversidade de possibilidades para visualização.  

“A variedade de tonalidades no pôr do sol das grandes cidades está associada à presença de aerossóis, o que gera, inclusive, tons esbranquiçados. Devido aos diferentes espalhamentos, as cores do pôr do sol são extremamente sensíveis às condições atmosféricas. Por isso, cada pôr  do sol é único”, acrescenta Rebouças. 

Entardecer na Praça Castro Alves
Entardecer na Praça Castro Alves |  Foto: Manu Dias | Arquivo A TARDE |14.3.1997
 

E, como Salvador tem um patrimônio natural vasto, mesmo com os problemas ambientais que se avolumam, ainda é possível observar essa variedade em diferentes localidades da capital baiana. Além disso, cada época teve ou terá a visualização do pôr do sol diferente, ou seja, em 1549, a visão do entardecer onde hoje está a Praça Castro Alves, local que foi estabelecido como um dos limites da cidade oficial após a sua fundação, é bem diverso do que contemplamos agora, mesmo desconsiderando a evolução urbana. 

Vale, portanto, conferir essa coleção de registros pertencentes ao acervo do Centro de Documentação A TARDE (Cedoc). As imagens apontam para a diversidade de espaços onde observar o entardecer em Salvador transforma-se em uma experiência única.  

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: Edições de A TARDECedoc A TARDE. Confira mais conteúdo de A TARDE Memória, no portal A TARDE, e em A TARDE FM.

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia

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