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A Tarde Memória

Por Andreia Santana e Priscila Dórea*

ACERVO DA COLUNA
Publicado sábado, 04 de abril de 2026 às 4:01 h | Autor:

Há 40 anos, filme francês foi o último a sofrer censura prévia no Brasil

Produção inspirada em personagens bíblicos do diretor Jean-Luc Godard teve exibição proibida no país por José Sarney, em 1986, a pedido dos católicos

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Je vous salut Marie - Filme foi censurado no Brasil em 1986
Je vous salut Marie - Filme foi censurado no Brasil em 1986 -

A vida do primeiro a ocupar o cargo de ministro da Justiça do Brasi, depois dos 21 anos de ditadura militar, não estava nada fácil naqueles primeiros meses de 1986. Fernando Lyra, o titular da pasta, havia anunciado o fim da censura no país, mas não contava com a determinação de grupos religiosos e conservadores para banir dos cinemas um filme francês considerado herético e controverso, Je vous salue, Marie (Eu vos saúdo, Maria), de Jean-Luc Godard.

À mesa do ministro e à sede da Polícia Federal, em Brasília, chegavam ofícios e abaixo-assinados encabeçados por congregações como o Centro Bíblico Católico e a Liga do Professorado, de São Paulo, solicitando “a interdição imediata” do filme. A celeuma foi tão grande que chegou ao presidente da República, José Sarney, vice de Tancredo Neves que havia assumido o comando do país nos primeiros anos da redemocratização, após a morte do presidente eleito. Católico que afirmava ler os evangelhos todas as noites, Sarney autorizou o banimento do filme e, há 40 anos, Je vous salue, Marie, se tornou o último filme com exibição censurada no Brasil.

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A campanha contra o filme de Godard foi encabeçada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) que, por sua vez, seguia as recomendações do Vaticano. O então papa João Paulo II havia recomendado a proibição do filme na Itália e, em todo o mundo, inclusive na França, católicos se levantavam contra o que consideravam blasfêmia contra a Virgem Maria.

O filme só foi exibido em salas comerciais brasileiras muitos anos depois de seu lançamento. A saga do banimento de Je vous salue, Marie está documentada nos jornais da época e no site Documentos Revelados. A partir da Lei de Acesso à Informação (LAI), a página disponibilizou mais de 200 cópias em PDF de ofícios protocolados na PF pedindo a proibição do filme. Não que isso impedisse, de fato, alguém de assistir à polêmica produção.

O professor e pesquisador Guilherme Fernandes, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), explica que a interdição ao filme transformou Je vous salue, Marie em objeto de curiosidade não só de acadêmicos, como de todo mundo que ouvia falar no “filme proibido”. Mestre e doutor em comunicação e autor do livro Mentalidade Censória e Telenovela na Ditadura Militar, ele conta que grupos de estudantes pelo país conseguiam cópias clandestinas em VHS do filme e montavam cineclubes.

Na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), o cineclube dos estudantes foi frequentado por professores e alunos; e pelos profissionais de serviços gerais da instituição. A história na UFAM foi levantada pelo grupo de pesquisa do professor a partir de reportagens na imprensa sobre a censura ao filme. O grupo chegou a entrevistar a jornalista que cobriu o caso na universidade. “O filme não era nominado Je vous Salue, Marie, porque o nome francês é difícil de falar. Ele era só conhecido como o filme proibido. ‘Ah, vai passar o filme proibido, então vamos assistir ao filme proibido’”, conta o pesquisador.

A história do filme

Je vous salue, Marie tem o roteiro assinado também pelo próprio Jean-Luc Godard. O filme adapta para os tempos contemporâneos a história de Maria, mãe de Jesus, mas não necessariamente seguindo os cânones religiosos. São duas linhas narrativas. Em uma, acompanhamos a história de Marie, estudante que joga basquete, trabalha no posto de gasolina do pai e namora Joseph, que é motorista de táxi. Ao saber da gravidez da namorada, ele a acusa de traição e o anjo Gabriel tenta convencê-lo a aceitar a gravidez. O outro arco conta a história de um professor de ciências que estuda a origem da vida na Terra e tem um caso com uma das alunas, com quem promove debates filosóficos.

O filme foi produzido e finalizado em 1984 e, dois anos depois, teve lançamento mundial. "Ele gerou polêmicas em outros países, incluindo a própria França. Faz um paralelo com a história da Virgem Maria, mas é uma livre criação do Godard, que se inspira nesses nomes e histórias para conceber um filme contemporâneo, da década de 1980. A grande polêmica surge porque ele seria considerado blasfêmia contra a figura de Nossa Senhora e isso logo gerou repercussão”, acrescenta o professor Guilherme Fernandes.

No Brasil, a ditadura militar havia acabado em 1985, mas a censura prévia ainda era realidade no país. A decisão de proibir a exibição de filmes ou outros produtos culturais considerados impróprios, seja por questões morais ou por serem contrários ao regime, era tomada pela Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCPD), da Polícia Federal, que avaliava as produções previamente.

Nos 10 anos daquele que foi o último ato de censura prévia no país, a edição de A TARDE de 16 de setembro de 1996 traz uma reportagem de página inteira comentando a proibição a Je vous salue, Marie e o próprio mecanismo de funcionamento da censura nos anos 1980.

De acordo com a reportagem, quem assinou o documento que proibiu o filme de Godard foi o último diretor da DCPD, Coriolano Fagundes. “O censor, considerado um liberal na época, mesmo contrariando sua própria vontade, sucumbiu às pressões dos militares e da CNBB e vetou o filme”, diz trecho do texto. Ainda na mesma reportagem, o jornal explica que em 1996, Fagundes, que chegou a ser conhecido como ‘mãos-de-tesoura’ por conta dos cortes feitos nas produções parcialmente censuradas, já havia se convertido a uma denominação evangélica, era pastor e conservador.

A TARDE tem outros registros no decorrer da década de 1990 sobre o filme de Godard, como a edição de 10 de setembro de 1991, que anuncia a exibição de duas sessões diárias, de quarta a domingo, de Je vous Salue, Marie, “uma metáfora considerada profana sobre a concepção de Maria, mãe de Cristo, numa versão moderna”, descreve o texto. A exibição aconteceu na Sala Walter da Silveira, nos Barris, com ingressos a Cr$ 400 e Cr$ 800.

A censura do presidente

O professor Guilherme Fernandes explica que havia uma hierarquia dentro da DCPD. O chefe da divisão era subordinado ao chefe da Polícia Federal que, por sua vez, respondia ao Ministério da Justiça. Nos casos envolvendo grandes polêmicas como a do filme francês, a norma era que a resolução ficasse a cargo do ministro, sem envolver diretamente o presidente da República. "Mas isso mudou com Je vous salue, Marie. Tanto Coriolano Fagundes, quanto Fernando Lyra, não concordavam com a censura inicialmente, afirmando que a Igreja Católica não deveria interferir nessa esfera. Ainda assim, o filme foi proibido. E aí entra a figura do presidente José Sarney", diz.

O presidente, continua o pesquisador, declarou aos jornais da época que era um homem muito católico e “não poderia aceitar a exibição de um filme que desonrava a imagem da Virgem Maria. Não há relatos de que Sarney tenha assistido ao filme, mas a proibição foi decretada”, complementa Guilherme.

Estudioso da censura às diversões públicas, o professor da UFRB revela que atos proibindo a circulação de bens culturais aconteciam no Brasil desde os tempos coloniais. “Inicialmente, no Brasil colônia e no Império, a religião católica era a oficial e as pessoas eram obrigadas por lei a serem católicas. Isso exigia seguir as normas do Vaticano, que publicava o Index, um catálogo de livros que a igreja proibia. Esses livros não poderiam circular em território nacional. Com o passar dos anos, além dos livros, o teatro começou a ser censurado e depois as mídias eletrônicas - já no curso do século XX -, o cinema, depois o rádio e a televisão”, detalha, enfatizando que a censura prévia só caiu de fato no país com a Constituição de 1988.

Outros proibidos

Nos 21 anos da ditadura militar, que se sustentava também com apoio conservador, a censura funcionava tanto como ferramenta política, silenciando críticas ao regime e moldando uma narrativa oficial, quanto como forma de controle social, vetando obras que confrontavam valores tradicionais e supostamente blasfemavam contra a fé cristã ou tinham teor sexual e violento.

Entre as produções proibidas no Brasil nos anos da ditadura estão filmes como O Massacre da Serra Elétrica (1974), pelas cenas de violência e sangue. Outro filme exibido nos anos 1970, Laranja Mecânica, adaptação do romance distópico homônimo de Anthony Burgess, até foi liberado sem cortes, mas círculos pretos ocultavam a genitália dos atores e atrizes nas cenas em que as personagens apareciam sem roupas.

Na esfera literária, o livro Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca, foi proibido de circular em 1977. Escritoras como Cassandra Rios, campeã em ser censurada na época, teve obras como Eu sou uma Lésbica, A Borboleta Branca e O Prazer de Pecar proibidas. Adelaide Carraro, Nelson Rodrigues, Ignácio de Loyola Brandão e outros autores e autoras também foram censurados.

No âmbito das peças teatrais, Roda Viva, de Chico Buarque, e Navalha na Carne, de Plínio Marcos, foram proibidas. Plínio teve 18 peças vetadas. Entre os compositores, Chico Buarque, Gonzaguinha, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Odair José foram alguns que tiveram músicas vetadas.

Dois casos foram emblemáticos na teledramaturgia, as novelas Roque Santeiro, do baiano Dias Gomes, em 1975, e Despedida de Casada, de Walter George Durst, em 1976. "Ambas foram inicialmente aprovadas, com sinopse e capítulos liberados, mas acabaram barradas. Minha pesquisa no Arquivo Nacional revelou que a censura atuava como uma espécie de coautora das novelas. Ela modificava perfis de personagens, alterava enredos e obrigava autores a mudar suas histórias", revela o professor Guilherme Fernandes.

A DCPD seguiu avaliando previamente produções artísticas até 3 de agosto de 1988, quando o Artigo 5º da Constituição estabeleceu a “liberdade de expressão, intelectual, artística, científica e de comunicação”. Nos anos 1990, não foi só na Sala Walter da Silveira que Je vous salue, Marie finalmente entrou em cartaz. O filme, com o fim da censura, chegou a outros cinemas do país, inclusive no interior de Minas Gerais, na pequena cidade de sete mil habitantes onde o professor Guilherme Fernandes morava: "Eu era criança, mas recordo de algumas mulheres da igreja, beatas, com uma lista pedindo às pessoas para assinarem pela proibição da veiculação do filme", conta.

Apesar da Constituição de 1988 ter erradicado a censura oficialmente, produções culturais ainda sofrem tentativas de banimento no Brasil e, na opinião de Guilherme Fernandes, isso se deve ao fato de que dos tempos coloniais até a promulgação da Constituição Cidadã foram séculos de restrições; enquanto de 1988 para cá, são menos de quatro décadas.

“É um tempo muito curto em que o Estado não rege mais o que podemos ou não assistir. E vemos que hoje isso atinge questões morais, sobretudo no âmbito das sexualidades dissidentes. É muito complicado ver grupos políticos ou religiosos, e pior ainda quando são políticos religiosos, decidirem o que as pessoas podem ou não consumir", reflete o pesquisador.

*Com a colaboração de Tallita Lopes

*Os trechos retirados das edições históricas de A TARDE respeitam a grafia da época em que as reportagens foram originalmente publicadas.

*Material elaborado com base no acervo do CEDOC A TARDE

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