Manuel Querino marcou a intelectualidade baiana
Natural de Santo Amaro, Querino produziu obras de referência sobre as contribuições negras na cultura

Na capa da edição de 14 de fevereiro de 1923, A TARDE noticiou a morte de Manuel Querino. O jornal fez, no texto, um resumo do que foi a trajetória de um intelectual negro que, apesar da inserção múltipla nas artes, no magistério e no esforço para registrar a contribuição afro-brasileira na formação do Brasil, ainda não tem uma celebração à altura da sua biografia. O ano do centenário da sua morte pode ser a oportunidade para que mais pessoas conheçam a trajetória do homem negro que, mesmo em meio aos obstáculos de uma sociedade marcada pelos efeitos colaterais do racismo, conseguiu destaque em instituições de prestígio da sua época. Um exemplo é o texto do seu obituário publicado em A TARDE.
“Funcionário publico, professor da escola de artífices e chronista apaixonado de homens e cousas baianas, Manuel Querino era um pesquisador infatigável das nossas velhas tradições. Certas informações sobre o passado da província que maior o tem no Brasil íamos colher dele como na melhor fonte viva. Por isso quando tivemos hoje a notícia de sua morte recebemo-la com a penosa impressão que sempre nos deixa o desaparecimento de uma vida útil, cheia de exemplos saudáveis, de amor ao trabalho, dedicação às boas letras e devoção à Pátria, pelo culto da sua história, além da estima que lhe tínhamos, como exímio colaborador d´A TARDE”. (A TARDE, 14/2/1923, capa).
Como uma das colaborações para A TARDE, em meio às comemorações do centenário da Independência do Brasil, na edição de 8 de setembro de 1922, foi publicado um artigo assinado por Manuel Querino. Nele está marcada uma das características de sua trajetória como pesquisador: dar ênfase à contribuição negra em variados campos. Nesse artigo, Querino listou 39 homens que define como “de cor” e que forneceram contribuições nas artes, nas letras e na atividade militar.
“Notícia de alguns bahianos, de côr preta, que se recommendaram ao apreço da posteridade, por serviços prestados ao paiz, nas letras, nas artes e nas armas”. (A TARDE 8/9/1922, p.3).
Dentre os biografados por Manuel Querino neste texto estão Padre Eutichio Pereira da Rocha, Joaquim Manuel de Santana, Emilio de Santana Pinto e Caetano Lopes de Moura cujo perfil dá início à lista:

"Contava dezoito annos de idade, quando se achou envolvido no movimento sedicioso de 1798. Era, então professor de latim e conhecedor de outras disciplinas. Por fugir à devassa que fora logo aberta, emigrou para o estrangeiro e conseguiu diplomar-se em medicina na Universidade de Coimbra. Entrando para o Corpo de Saúde, militou na guerra da Penísula, como cirurgião-mor da Legião Portugueza. Depois dirigiu-se à França, que lhe oferecia mais vasto campo às suas cogitações literárias e scientíficas, e finalmente doutorou-se em medicina. Assim aparelhado para maiores empreendimentos consagrou-se à clinica, e dedicou os momentos de descanso ao estudo e aos trabalhos de gabinete. Nesse afan, compoz e traduziu do francez, do inglez e do allemao, obras de valor, sobre historia, sciencia e literatura. Serviu na Armada francesa e fora médico de Napoleão Bonaparte, de quem escreveu importante biografia. Gosou de grande reputação como homem de letras. O ilustre helenista Odorico Mendes, disse a seu respeito: “O nosso ilustre compatriota é riquíssimo na linguagem”. Velho, alquebrado e sem recursos fora amparado pela munificência de D. Pedro II, que lhe concedeu modesta pensão que lhe proporcionou existência menos atribulada. Foi um bahiano que honrou a terra natal, principalmente no estrangeiro, onde se impoz à admiração dos espíritos mais eminentes do Velho Mundo pelos seus conhecimentos literários e profunda illustração. Essa circunstância ainda mais realçava o seu valor intelectual quanto se tratava de um homem de côr, originário de um paiz, ainda hoje mal julgado por povos que se dizem propugnadores do progresso, da sciencia, da arte e da literatura”. (A TARDE, 8/9/1922, p.3).
Com a participação possivelmente da revolta de Búzios, afinal Querino fala em levante de 1798; diplomado em medicina por uma das mais celebradas universidades europeias, além de atender Napoleão Bonaparte e escrever em línguas diversas, Caetano Lopes Moura já teria feitos impressionantes para um brasileiro do século XVIII. Imagine essa trajetória percorrida por um homem negro. É interessante como a pouca visibilidade e celebração para Caetano Moura é semelhante ao que ocorreu com Manuel Querino.
Resistência
No livro Travessias do Atlântico Negro: Reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino, Sabrina Gledhill analisou minuciosamente a vida e a obra de Querino. Natural de Santo Amaro, Manuel Raimundo Querino nasceu em 28 de julho de 1851. Segundo o registro de batismo era filho do carpinteiro José Joaquim dos Santos Querino e Luzia da Rocha Pita, que morreram durante uma epidemia de cólera. Órfão, Querino ficou sob a responsabilidade de um tutor, Manuel Correia Garcia. Mas na certidão de óbito consta que era filho ilegítimo de Maria Adalgisa, o que levanta algumas questões sobre a identidade do seu pai biológico.
“Seguindo uma linha de pensamento sobre o parentesco com Teodoro Sampaio, e baseado em semelhanças físicas observadas nos seus retratos, poderíamos conjeturar a possibilidade que seu progenitor tenha sido justamente seu tutor, o bel. Manuel Correia Garcia (1815-1890), casado em segundas núpcias com d. Maria Izabel Brandão Garcia em 1847 e pai de sete filhos, dos quais cinco sobreviventes (Querino, 20021, p.34)”. ( Travessias no Atlântico Negro: Reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino”, de Sabrina Gledhill, páginas 107-108).
O livro de Sabrina Gledhill é o resultado da sua tese defendida no Programa de Pós- Graduação em Estudos Étnicos e Africanos da Universidade Federal da Bahia (Pós Afro Ufba) sob a orientação do professor Jeferson Bacelar. Inglesa e mestra em Estudos Latino-Americanos pela Universidade da Califórnia ela apresenta, de forma simultânea, as trajetórias de Querino e do norte-americano Booker T. Washington. Ambos ascenderam em meios intelectuais enfrentando o racismo, mas ao mesmo tempo enfrentando embates de contestação à sua produção intelectual.
“Houve tentativa de apagamento da memória dele. Chegaram a insinuar e até dizer abertamente que ele havia sido analfabeto. Não sei como ele poderia ter sido analfabeto tendo produzido tantos livros. Eu mesma tenho uma prateleira cheia deles”, aponta Sabrina Gledhill.
Querino é autor de obras como Desenho linear das classes elementares, Elementos de desenho geométrico, As artes na Bahia, Artistas Bahianos, Bailes Pastoris, A raça africana e os seus costumes na Bahia, Modelos das casas escolares adaptadas ao clima do Brasil, O colono preto como fator da civilização brasileira, A Bahia de outr´ora, além de artigos para jornais e revistas, como a do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).
Após a sua morte foi lançado A arte culinária na Bahia, que é considerado um marco sobre a cozinha baiana. Essa obra ganhou uma análise especializada no livro Manuel Querino, criador da culinária popular baiana feita pelos pesquisadores Carlos Alberto Dória e Jeferson Bacelar.
“O que se lerá nas páginas seguintes corresponde ao esforço de se recuperar a figura emblemática de Manuel Querino para a cultura brasileira, em vários aspectos. É o primeiro intelectual a valorizar a participação dos africanos e negros na constituição da sociedade brasileira. Isso será mostrado, afinal, tem correlação com a sua concepção de cozinha baiana”. (Manuel Querino, criador da culinária popular baiana, Carlos Alberto Dória e Jeferson Bacelar, p.14).
Batalhas
Querino foi incentivado pelo tutor para se dedicar ao estudo, mas nas chamadas artes manuais especialmente a pintura e decoração. Aos 17 anos foi para Pernambuco e depois para o Piauí onde foi recrutado para o serviço militar com treinamento no Rio de Janeiro por conta da Guerra do Paraguai.
Como sabia ler e escrever serviu em um batalhão no Rio de Janeiro em uma área burocrática. Quando a guerra terminou aproximou-se de um dos seus padrinhos políticos, Manuel Pinto de Sousa Dantas. De volta à Bahia em 1871, Querino passou a se dedicar aos trabalhos e estudos. Cursou francês e foi aluno fundador do Liceu de Artes e Ofícios. Teve Miguel Navarro y Cañizares como mestre na formação artística.
Tornou-se desenhista em 1882 pela Escola de Belas Artes e se preparava para obter diploma como arquiteto, mas mesmo tendo obtido a aprovação com distinção no segundo ano para a próxima fase faltou professor para a disciplina de resistência dos materiais e estabilidade das construções. Isso inviabilizou a formação acadêmica em arquitetura, mas ele se tornou professor licenciado de desenho. Querino ensinou no Colégio dos Órfãos de São Joaquim e no Liceu. A carreira de artista como pintor, decorador e desenhista lhe rendeu prêmios e foi tema de algumas de suas obras. Foi também funcionário público e exerceu o cargo hoje equivalente a vereador. Na política foi um ativista ferrenho em defesa da abolição e da classe operária.
Jornalista, criou e comandou dois jornais: A Província (1887-1888) e O Trabalho (1892). No primeiro, segundo o livro de Sabrina Gledhill, defendia as causas da abolição e do operário e o segundo a mão de obra livre após a abolição. Os embates em relação ao que era o trabalho manual e a vida política foram motivos de decepções e frustrações para Manuel Querino. Esse campo acabou por ser abandonado por ele para se dedicar à produção intelectual.
“Depois de deixar a vida política, desiludido, Manuel Querino dedicou-se ao trabalho pelo qual é mais lembrado: uma série de pesquisas que são de fundamental importância para a história das artes plásticas no Brasil, a historiografia brasileira em geral e a formação da identidade negra neste país. Foi um dos únicos intelectuais da sua época, e, provavelmente o primeiro intelectual afro-brasileiro, a reconhecer e divulgar a contribuição africana à civilização brasileira”(Travessias no Atlântico Negro: Reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino, Sabrina Gledhill, p.122).
Tornar mais conhecido esse importante intelectual tem sido uma batalha de muitos admiradores e analistas da importância de sua obra. No último dia 14, uma missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, onde estão seus restos mortais, foi organizada pela Associação Protetora dos Desvalidos (SPD), Escola de Belas Artes da Ufba, IGHB, Sociedade Montepio dos Artistas e Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. A lista de instituições é uma amostra de como Manuel Querino esteve em múltiplos lugares para além da academia, como organizações de luta pela cidadania negra, mas também associações carnavalescas e os candomblés, o que o torna ainda mais fascinante.
Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em Antropologia
*A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período.
Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE
Para saber mais: Travessias no Atlântico Negro: Reflexões sobre Booker T. Washington e Manuel R. Querino” ( Sabrina Gledhill), Edufba, 2020; (Re)apresentando Manuel Querino 1851/1923: um pioneiro afro-brasileiro nos tempos do racismo científico (Coletânea de artigos organizada por Sabrina Gledhill, Editora Saga, 2021; Manuel Querino- criador da culinária popular baiana (Carlos Alberto Dória e Jeferson Bacelar, Editora P55, 2020).
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