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DIA INTERNACIONAL

Saúde da mulher com foco em atenção integral é conquista recente

Celebrar datas como 8 de março abre debate sobre importância das pautas desenvolvidas pelos diversos segmentos

Cleidiana Ramos* | especial@grupoatarde.com.br
Por Andreia Santana
O dia 8 de março é de celebração de conquistas, como a visibilidade para os direitos reprodutivos e outros avanços
O dia 8 de março é de celebração de conquistas, como a visibilidade para os direitos reprodutivos e outros avanços - Foto: Cedoc A TARDE | 9.3.1984

O Dia Internacional da Mulher, que será celebrado no próximo dia 8, tem o objetivo de recordar conquistas importantes e apresentar as novas demandas na luta pela equidade de gênero. A saúde é um campo em que essas batalhas levaram à superação do entendimento de que o corpo estava destinado apenas à reprodução e, consequentemente, o útero deveria ser o centro de atenções, pois era responsável por alterações até no comportamento. Surpreende, portanto, um anúncio publicado na edição de A TARDE de 7 de março de 1921 com a oferta de um método para evitar a gravidez, pois a maioria das peças publicitárias recomendavam tratamentos direcionados à purificação do útero.

“Gravidez - Evita- se usando as vellas antisepticas. São inoffensivas, commodas e de efeito seguro”. (A TARDE, 7/3/1921, p.5).

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Não há mais informações sobre o método. Poderia ser um artefato para usar fora do corpo, por meio, talvez, da crença de que o benefício viria pela aspiração de substâncias, afinal os métodos contra a gravidez, em diferentes culturas, remontam a milênios independentemente da comprovação ou não da sua eficácia. O anúncio do método apontado como contraceptivo é uma exceção, pois o mais comum era a promoção dos chamados reguladores da menstruação em forma líquida.

A TARDE publicou em 1930 a coluna “Página Feminina”, além de alguns anúncios voltados à saúde da mulher
A TARDE publicou em 1930 a coluna “Página Feminina”, além de alguns anúncios voltados à saúde da mulher - Foto: A TARDE | 2.3.1930

“Tonico Utero Ovariano do dr. Rodrigues dos Santos é um therapeutico de uma acção enérgica e segura nas molestias próprias das senhoras, nas irregularidades de menstruação, dificuldades e cólicas uterinas, hemorrhagias durante a menstruação, suspensão tardia, dores nos ovários, catharros uterinos. O Elixir das Damas modifica e corrige o estado nervoso das senhoras, actuando também sobre os intestinos, regularizando suas funções”. (A TARDE, 7/3/1921, p.8).

Apalavra “flores brancas” era usada para se referir às secreções vaginais que podem indicar, dependendo da consistência e cheiro, desde o natural processo de ovulação até uma infecção. A candidíase, por exemplo, pode trazer implicâncias mais graves se não tratada da forma correta.

“Remédio de uso interno, de fácil emprego (pois é liquído e se toma às colheres) e que dispensa o apparato de apparelhos, irrigadores, algodões de tão complicado manejo quão duvidosa eficácia. Não só as flores brancas como todos os incommodos de senhoras cedem à aplicação da A Saúde da Mulher”. (A TARDE, 4/3/1915, p6).

Anúncios como esses apontam a centralidade do útero na abordagem sobre a saúde feminina. “Mas havia uma tendência de busca do controle sobre as mulheres. A palavra “histeria” vem de útero e era sempre um diagnóstico usado para as mulheres que estavam, de certa forma, saindo do padrão esperado e controlado. A retirada do útero foi apontada muitas vezes como a cura para o que era considerado histeria mesmo em situações em que era apenas um incômodo de fundo emocional e que muitas vezes era resultado até de violência doméstica”, aponta Emanuelle Goés, doutora em Saúde Pública e pesquisadora pós-doc do CiDACS- FioCruz Bahia.

Um anúncio publicado na edição de 20 de março de 1930 aponta como era central o papel do útero no que era considerado doença de mulher. Em formato que lembra um artigo e intitulado “Como as mulheres soffrem” , o texto afirma que estas são muito mais sensíveis dos que os homens e que a simples leitura de um romance poderia desencadear doenças. Isso aconteceria, de acordo com o texto, mesmo com aquelas que aparentemente apresentavam controle diante de sofrimentos.

“As Senhoras que parecem mais tranquillas e pacientes, contendo e guardando mágoas, dissabores e prazeres são, no íntimo, tão impressionáveis e sensíveis quanto as outras”. (A TARDE, 20/3/1930, p.6).

Imagem ilustrativa da imagem Saúde da mulher com foco em atenção integral é conquista recente
Foto: A TARDE | 20.3.1930

O texto publicitário aponta males que têm origem no que era considerado mau funcionamento do útero: asma nervosa, palpitações do coração, sensação de aperto na garganta, arrotos frequentes, escurecimento da vista, quentura na cabeça, excitação nervosa, desmaios, zumbidos nos ouvidos dentre outros. A solução apontada pelo anúncio é o uso do “Regulador Gesteira”.

“O entendimento sobre as mulheres passava pelo seu papel de reprodutoras. Por isso o foco era a saúde materno-infantil. Os contraceptivos hormonais, por exemplo, só começaram a chegar ao Brasil na década de 1970. Mas mesmo a contracepção não chegou para todas as mulheres como forma de autonomia, mas sim como política de controle de natalidade vinda de instâncias do Estado especialmente quando envolvia mulheres negras, nordestinas e indígenas. Ao mesmo tempo usava-se a esterilização em massa. O que se pensava era em controle populacional e de uma forma eugenista”, aponta Emanuelle Goés.

Organização

Devido a essas nuances, os movimentos feministas, com destaque para os formados por mulheres negras, foram fundamentais nas provocações que levaram a mudanças significativas no campo de saúde da mulher, como destaca Joice Aragão, médica pediatra e sanitarista. O contexto mudou de forma mais contundente com o Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM) criado em 1984. Essa ação trouxe descentralização e regionalização de serviços inclusive ações de prevenção.

Com a chegada do SUS em 1990 essas ações ganharam uma forma mais nítida de política de saúde e a possibilidade de uma abordagem multidisciplinar considerando a diversidade das mulheres no Brasil - indígenas, negras e aquelas que desenvolvem doenças crônicas, como a anemia falciforme.

“Com o SUS nós tivemos um forte avanço. É um sistema universal, gratuito e fundamental para 80% da população. O que falta é o gerenciamento do acesso para que ele ocorra de forma mais eficiente, mas há muitos interesses para desmontá-lo. Por isso uma vigilância constante é fundamental o que mostra a importância da organização dos movimentos de mulheres que pressionam e demandam novas abordagens”, diz Joice Aragão que foi gestora do Programa Nacional de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme mantido pelo SUS de 2004 a 2015.

Neste grupo, inclusive, é necessário dar atenção reforçada à gestação para evitar complicações para a mulher e o bebê. Esta sensibilidade para problemas muito específicos ainda falta por questões da própria formação cultural brasileira, como o racismo que coloca obstáculos ao atendimento de muitas mulheres. Um caso bem conhecido é a afirmação, entre profissionais de saúde, de que as mulheres negras são mais resistentes à dor. Estas situações produzem impactos mesmo que sejam pouco debatidas por fatias maiores da população.

“Apenas 18% dos médicos brasileiros são negros. Isso inclui tanto as mulheres como os homens. Há quem não veja problema nesse quadro, mas isso traz impactos em um país com tanta diversidade e questões muito específicas dependendo da camada em que se encontra uma mulher”, destaca Joice Aragão.

Mas, de acordo com ela há avanços significativos, como a ampliação do atendimento pré-natal, com o direito a pelo menos seis consultas, dentre outras conquistas. Isso em um país que só começou a discutir a saúde feminina, de forma mais elaborada, a partir da industrialização na década de 1930. “A partir da industrialização e da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) a saúde feminina ganhou outras nuances por conta de se considerar a mulher como força de trabalho”, completa a médica.

Esse processo foi gradativo, mas a imprensa, mesmo sem dar sinais específicos, apresenta pistas sobre essa movimentação. Em maio de 1930, A TARDE passou a publicar colunas direcionadas às mulheres. A publicação não foi constante com interrupções durante longos períodos.

Denominada “Página Feminina”, em 1930 a coluna teve início em maio e maior constância no mês de agosto sendo interrompida a partir de setembro. Os textos têm foco em comportamento, onde o casamento é sempre apontado como o que merece a atenção das mulheres, e moda. Já as informações sobre a área de saúde limitam-se ao campo da estética com dicas para cuidado com os cabelos e a pele. Neste espaço foram publicadas apenas as respostas para perguntas em que as autoras são identificadas por prenomes ou pseudônimos como a “Bahianinha”, da seção “Consultório de Belleza”, assinada por Marina dei Lorena.

Imagem ilustrativa da imagem Saúde da mulher com foco em atenção integral é conquista recente
Foto: A TARDE | 1.5.1930

“Bahianinha (S.Salvador)- A menina precisa fazer gymnástica todos os dias, pular na corda e viver muito ao ar livre. Deve todas as manhãs, após a gymnastica, fazer uma caminhada a pé e tomar um banho geral. Massagens manuaes na barriga da perna, somente na parte de traz. Para a voz, use o seguinte: Gargarejo dia sim, dia não, durante 15 dias com o Gargol em água morna. Não aconselho à menina o uso de rouge porque acho-a muito nova e terá a belleza natural da sua edade. O rouge foi feito para aquellas que já não podem mostrar no rosto as cores naturaes.”. (A TARDE, 1/5/1930, p4).

Como esses textos indicam, nunca foi fácil para as mulheres. Ainda bem que em todas as épocas destacaram-se aquelas dispostas a questionar e batalhar para quebrar padrões que tentaram ofuscar a diversidade por meio da generalização. E, como não é fácil manter conquistas, o 8 de março continua sendo de luta.

A reprodução de trechos das edições de A TARDE mantém a grafia ortográfica do período. Fontes: Edições de A TARDE, Cedoc A TARDE. Confira mais conteúdo de A TARDE Memória, no portal A TARDE, e em A TARDE FM.

*Cleidiana Ramos é jornalista e doutora em antropologia

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coluna, A Tarde Memória, Dia internacional da mulher, cleidiana ramos

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