ANÁLISE E HISTÓRIA
Entre a independência e o poder: as histórias que se repetem no futebol
Tostão analisa a repetição dos roteiros no Brasileirão, nova lesão de Neymar e bastidores de 1970


De vez em quando, alguém me pergunta por que não estou presente em eventos ligados ao Cruzeiro, à CBF, à Fifa e a tantas outras instituições do futebol. Além de gostar do meu canto e de tentar preservar a separação entre o público e o privado, preciso manter certa distância para conservar total liberdade e independência para elogiar e criticar.
Palmeiras e Flamengo repetem a disputa pelo título
As histórias se repetem no Brasileirão. Palmeiras e Flamengo voltam a disputar o título nacional.
Na derrota do Flamengo para o Palmeiras por 3 a 0, o primeiro gol paulista saiu logo após a expulsão de Carrascal. Quando uma equipe perde em casa, empurrada pela torcida, mesmo com um jogador a menos, costuma avançar desesperadamente em busca do empate. Os espaços aparecem naturalmente, e os contra-ataques se tornam mais perigosos.
Mesmo assim, Leonardo Jardim foi duramente criticado. Basta muito pouco para um treinador deixar de ser tratado como herói e virar vilão nas redes sociais e nos debates estratégicos de ocasião.
O dilema do Bahia
O Bahia continua enfrentando uma questão recorrente: por que o time tem dificuldade para marcar muitos gols sem sofrer tantos?
Contra o Coritiba, fez dois e levou três. Muitos apontam problemas táticos, mas penso que a principal limitação está na qualidade e profundidade do elenco. É difícil manter equilíbrio ofensivo e defensivo sem jogadores capazes de sustentar intensidade durante toda a partida.
Talvez o Bahia devesse se inspirar mais no modelo equilibrado do Arsenal, campeão inglês, e menos no estilo extremamente ousado do Manchester City, clube que integra o mesmo grupo empresarial.
Neymar e a repetição das dúvidas
Na Seleção Brasileira, os roteiros também parecem se repetir.
Neymar voltou a sentir problemas físicos, desta vez na panturrilha, reforçando a opinião de quem acreditava que ele não deveria ter sido convocado. Mesmo se estiver apto para treinar nos próximos dias, os dez dias afastado dos gramados podem comprometer sua recuperação técnica e física.
Existe ainda a possibilidade de o atacante permanecer fora das atividades ou até ser cortado da Copa.
As lembranças da Copa de 1970
Quando me apresentei para a seleção antes da Copa de 1970, havia passado seis meses sem qualquer atividade física por causa da cirurgia de descolamento de retina.
Dias antes da preparação, viajei aos Estados Unidos para nova avaliação médica e fui liberado para treinar, inicialmente separado do grupo. Carlos Alberto Parreira, então auxiliar da preparação física, acompanhava meu trabalho diariamente.
Naquele período, o famoso teste de Cooper, que media a distância percorrida em 12 minutos, era a grande referência física do futebol mundial.
Quando finalmente participei do teste com o elenco, terminei na última colocação. A imprensa imediatamente procurou João Saldanha para questionar minhas condições físicas.
Saldanha respondeu:
“Tostão foi o último no teste, mas já está escalado.”
Parecia até que eu era um craque indispensável. Talvez Saldanha gostasse tanto das minhas características técnicas quanto das nossas longas conversas sobre futebol, política e vida.
Futebol, política e ditadura
Até hoje não compreendo totalmente por que João Saldanha foi escolhido técnico da seleção brasileira naquele momento histórico, já que era um ativo participante do Partido Comunista em plena ditadura militar.
Conta-se que, antes de sua demissão, houve uma reunião em Brasília entre dirigentes da CBD e o presidente Médici. Entre os jogadores, circulava o rumor de que Saldanha deixaria o comando da equipe.
Ficamos tristes e chateados, mas, como o próprio Saldanha costumava dizer:
“Vida que segue.”
Entrou Zagallo. E o Brasil foi campeão do mundo.