ANÁLISE E HISTÓRIA
Neymar, a Copa e o peso da sociedade do espetáculo
Tostão analisa a possível convocação de Neymar, dilemas táticos de Ancelotti e relembra bastidores na Copa de 1970


Além dos ingressos caríssimos e da longa duração, a Copa do Mundo, maior espetáculo do futebol, provoca enormes preocupações. Há o rigor nas fronteiras, a criminalidade crescente no México, os riscos de atentados terroristas em tempos de guerras e ainda as ameaças climáticas, com intenso calor e tempestades capazes de provocar paralisações e suspensões de partidas.
No Brasil, porém, o grande assunto continua sendo Neymar: ele estará ou não na lista final dos convocados?
Neymar divide o país
Existe uma polarização quase absoluta sobre a presença de Neymar na Copa, um verdadeiro empate técnico entre os que desejam vê-lo no mundial e os que preferem sua ausência.
Os que são contra argumentam que Neymar e boa parte do público não aceitariam um papel secundário. Temem ainda que os demais jogadores transfiram excessivamente a responsabilidade para o camisa 10, algo que poderia enfraquecer o conjunto da seleção.
Já os defensores de Neymar acreditam que, mesmo atuando poucos minutos, ele possui talento suficiente para decidir partidas importantes. Carlo Ancelotti, porém, já deixou claro que não trabalha com ilusões românticas. Para ele, todos precisam ter condições físicas e táticas para suportar o ritmo de uma Copa inteira.
O dilema tático de Ancelotti
Outro ponto decisivo é que a seleção brasileira já possui duas formações bem treinadas e consolidadas. Neymar teria de se adaptar ao sistema, e não o contrário.
Na primeira estrutura, utilizada contra a Croácia, Vinicius Júnior atua pela esquerda, com um centroavante centralizado, Raphinha pela direita e Matheus Cunha mais recuado, formando um trio de meio-campo pelo lado esquerdo para proteger o lateral. Assim, Vinicius fica livre de maiores responsabilidades defensivas.
Na segunda formação, usada contra a França e em amistosos anteriores, Vinicius atua mais centralizado, com dois pontas abertos e Matheus Cunha avançado pelo centro, formando praticamente um quarteto ofensivo. Nesse sistema, os pontas precisam retornar constantemente para recompor a marcação.
Onde Neymar se encaixaria?
É justamente aí que surge a grande dúvida.
Neymar já não possui condições físicas para atuar intensamente pela esquerda, marcando e atacando, nem para desempenhar a função híbrida de Matheus Cunha, cobrindo espaços de uma intermediária à outra.
Sua melhor utilização seria mais à frente, centralizado, próximo ao centroavante, formando uma dupla ofensiva. Isso obrigaria Ancelotti a modificar mecanismos já trabalhados pela equipe.
Independentemente da convocação, Neymar continuará sendo um dos assuntos centrais da Copa — pela presença ou pela ausência. Outros fatores coletivos fundamentais para vitórias e derrotas acabarão ficando em segundo plano. É a sociedade do espetáculo em busca permanente de heróis e vilões.
As lembranças da seleção de 1970
Perto da Copa de 1970, vários jogadores costumavam se reunir diariamente para conversar sobre futebol e sobre a vida. Não havia obrigação de participação, nem presença de dirigentes ou membros da comissão técnica.
Na véspera da final contra a Itália, convidamos o doutor Roberto Abdala Moura, médico que havia me operado do olho, para conduzir a conversa.
Ele viajava constantemente de Houston, nos Estados Unidos, ao México para acompanhar a seleção, assistia às partidas e retornava logo depois.
Jamais esqueci suas palavras naquela noite:
“Parafraseando o padre e filósofo Antônio Vieira, o contrário da luz não é a escuridão, mas sim uma luz mais forte. Na escuridão, qualquer luz brilha. Ao lado de uma luz intensa, as menores desaparecem. E a nossa luz será mais brilhante.”
A memória guarda eternamente aquilo que ama. Como escreveu Adélia Prado:
“O que a memória ama, fica eterno.”