Combater a pobreza ou promover a riqueza?

Publicado sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022 às 06:03 h | Atualizado em 18/02/2022, 00:06 | Autor: Rodrigo Oliveira* | [email protected]
A pobreza hoje gera um círculo vicioso de pobreza 
no futuro
A pobreza hoje gera um círculo vicioso de pobreza no futuro -

Este foi o título de um artigo de opinião que li na semana passada. Artigo que encerra com a seguinte afirmação: “Sem dúvida, o meio mais eficaz de extinguir a pobreza é construindo riquezas”. Esta é uma conclusão superficial e imprecisa. Por exemplo, uma sociedade que gera riqueza, mas mantém (ou aumenta) o nível de desigualdade, não reduz necessariamente a pobreza. Tecnicamente, nesta situação se diz que o crescimento econômico não é pró-pobre.

O autor também comete um erro ao citar o clássico “Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, de Max Weber, para tratar de crescimento econômico. Mais especificamente, a visão de que o protestantismo explicaria a diferença de crescimento econômico entre os países. Esta é uma teoria interessante, e Weber um filósofo brilhante, mas a evidência empírica caminhou em outro sentido. Existem outras teorias com mais respaldo empírico, como a do biólogo Jared Diamond, que associa o crescimento econômico dos países à geografia, sobretudo às condições que permitiram sociedades a desenvolver agricultura. Mas também a obter minerais e se proteger de doenças, como a malária. Suas ideias são sintetizadas no excelente livro Armas, Germes e Aço.

A tese mais aceita no momento é a das Instituições, do famoso economista Daron Acemoglu, professor do MIT, e de seu co-autor James Robinson. Suas ideias, publicadas em diversos artigos, estão sintetizadas em dois livros: “Porque as Nações Fracassam” e “Corredor Estreito”. Existem vários exemplos para explicar esta teoria. Por exemplo, Coreia do Norte e Coreia do Sul, que embora tivessem o mesmo PIB per capita em 1970, hoje a Coreia do Sul possui um PIB per capita quase 10 vezes maior. O que aconteceu? Cada uma desenvolveu um conjunto de instituições diferentes após a separação. A Coreia do Sul desenvolveu instituições econômicas (proteção à propriedade privada, por exemplo) e políticas (democracia) inclusivas. Não irei me alongar neste tema que foi assunto da minha coluna neste espaço em 03/09/2021.

Voltemos ao tema da pobreza, que é um conceito muito complexo e também difícil de ser solucionado. O autor cita que em 1800 apenas 90% da população mundial estava abaixo da linha de pobreza, enquanto hoje apenas 10% estão, e associa esta melhoria à revolução industrial ocorrida entre 1760 e 1840. Porém, não é isso que dizem os dados. Em 1850, 87% da população vivia abaixo da linha de pobreza, em 1920, 73%, em 1950, 63%. Depois de 1950 a pobreza passa a cair de forma mais rápida, chegando a 47% em 1970, 36% em 1990 e ao valor que temos hoje. Resumindo, de 1820 a 1950 a pobreza global reduziu 27.6%. De 1950 a 2015, 84%. 

Existem algumas hipóteses que explicam a queda recente. Uma delas é a redução da pobreza na China a partir de 1970. Depois de uma grande série de reformas, 850 milhões de pessoas foram retiradas da pobreza. Mas não existe uma forma mágica para fazer isso acontecer em outras localidades. A pobreza atualmente é concentrada regionalmente. Segundo dados do Banco Mundial, das cerca de 746 milhões de pessoas, 383 milhões (51%) vivem em países da África e 218 milhões (39%) na Índia.  A pobreza também é multifacetada, e diversas instituições tentam entender porque mesmo depois de tanto recurso internacional (Aid é o termo em inglês) destinado a estes países, a pobreza ainda persiste. 

Outro conceito bem conhecido é o da armadilha da pobreza, situação na qual diversas pessoas que estão em situação de pobreza por longo período não conseguem sair dela. A ideia é simples: a pobreza hoje gera um círculo vicioso de pobreza no futuro. Considerando as características multifacetadas e a armadilha da pobreza, pesquisadores, organismos internacionais e governos têm implementado diversas políticas de educação, saúde, saneamento, transferência de renda, dentre outras, para tentar entender como superar este problema. Iniciativas como estas são implementadas, por exemplo, pelo Laboratório de Ação de Combate à Pobreza (JPAL), de onde participam os três vencedores do prêmio Nobel de Economia em 2019.

Combater a pobreza não é simples. Não há conflito entre combater a pobreza e a geração de riqueza. Mas gerar riqueza não necessariamente leva à redução da pobreza. Isso depende de como a riqueza é distribuída na sociedade.

*Rodrigo Oliveira é Doutor em Economia, professor, pesquisador na UNU-WIDER - United Nations University World Institute for Development Economics

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