POLÍTICA & MEMÓRIA
Queda de avião mudou os rumos da eleição na Bahia; relembre
Candidato ao governo morreu em tragédia aérea, em 1982


O dia 1º de outubro mudou os rumos da eleição baiana de 1982. Nesta data, a queda de um helicóptero vitimou o ex-prefeito de Salvador, Clériston Andrade, então candidato ao governo do estado.
O cenário, até então polarizado entre as candidaturas de Clériston e do ex-governador Roberto Santos (PMDB), passou por uma reviravolta faltando pouco mais de 30 dias para a população ir às urnas.
A coluna Política & Memória resgata um dos episódios mais emblemáticos e trágicos da história da Bahia.
A escolha
O então governador da Bahia, Antônio Carlos Magalhães (PDS), escolheu o presidente do Estado da Bahia (Baneb), Clériston Andrade (PDS), para a sucessão estadual. O martelo foi batido no dia 4 de fevereiro de 1982, em uma rápida convenção que sacramentou o nome do político.
"Essa indicação é fruto de iniciativa da maioria do PDS e a Executiva deliberou acolher para mais tarde levá-la à convenção de 23 de maio, para ser ratificado Clériston como candidato oficial do PDS baiano", afirmou Menandro Minahim, presidente do PDS baiano, de acordo com matéria publicada pelo jornal A TARDE na época.
O nome de Clériston foi oficializado em maio, sem qualquer contestação dentro da base governista. A chapa contava com o deputado Rogério Rego como vice, além de Luís Viana Filho como candidato à reeleição no Senado. A convenção final foi realizada em agosto, na antiga Fonte Nova.
Movimento da oposição
Desde o final de 1981, o PMDB baiano já havia externado o desejo de lançar o ex-governador Roberto Santos candidato ao Palácio de Ondina. Em agosto de 1982, político teve seu nome homologado em convenção partidária de maneira unânime.
"O baiano é um povo alegre que não gosta de opressão [...] Por isso, a pressão, vai acabar, vai ser enterrada nas urnas de 15 de novembro. Aquela opressão que já motivou os movimentos de rua de Salvador, como o quebra-quebra dos ônibus. Essa mesma opressão vai ser acabada pelo voto que dará a vitória ao PMDB em todo o estado”, discursou Roberto Santos durante a convenção que sacramentou sua candidatura.
O vice escolhido por Roberto Santos foi Rômulo Almeida, enquanto o candidato ao Senado foi Waldir Pires (PMDB), que se tornaria, quatro anos depois, governador do estado.
Estratégias de campanha
O governador Antônio Carlos Magalhães montou uma estratégia de divisão da campanha no interior do estado, dividindo os grupos. Uma matéria do jornal A TARDE, de agosto de 1982, explica a ideia do líder do grupo político.
“O governador Antônio Carlos Magalhães' confirmava, ontem, esta incrementação, inclusive informando que, a partir de setembro, ele e o candidato do PDS, Clériston Andrade, se dividirão em equipes distintas, para cobrir o máximo do território estadual, embora a maioria das viagens continue a ser com a presença dos dois”, explica uma matéria do jornal.
Já o grupo de oposição, liderado por Roberto Santos (PMDB), traçou como estratégia a visita e permanência no interior do estado entre três e quatro dias por semana. Logo nos primeiros dias de campanha, o candidato do PMDB subiu o tom contra os governistas.
"A comparação deve ser feita pelo povo, do que foi realizado, de fato, num período e no outro. Porque o povo não irá concordar com uma comparação entre o que foi feito num período e no que a propaganda falsa diz estar sendo feito agora" , afirmou Roberto Santos ao falar sobre o então adversário.
A tragédia
Considerado favorito no pleito, como mostravam algumas pesquisas de opinião, Clériston Andrade continuou sua campanha no interior do estado. O dia 1º de outubro de 1982, entretanto, reservava um fato trágico que mudaria os rumos da campanha eleitoral na Bahia.
Clériston Andrade saiu do município de Itapetinga por volta das 13h, tendo Caatiba como cidade destino, acompanhado da sua equipe de campanha, aliados e candidatos a outros cargos eletivos.

Segundo informações do jornal A TARDE, na edição do dia 2 de outubro, que trouxe detalhes da tragédia aérea, o helicóptero, que enfrentava o mau tempo, manteve contato com a torre de comando até às 13h30.
Horas após a partida da aeronave, o clima no Palácio de Ondina não era mais de esperança, mas sim de tristeza. Clériston e dos demais ocupantes do voo morreram no acidente.
Entre os tripulantes ilustres, estavam Rogério Rego, seu vice na chapa, e os deputados Henrique Brito (federal) e Naomar Alcântara (estadual), além de Luiz Calmon, presidente do Baneb.

De acordo com o médico-legista, Lamartine Lima, o acidente ocorreu após um choque da pá da hélice com uma árvore, na região da Serra do Mimoso.
O então presidente João Figueiredo (PDS) se manifestou diante do cenário trágico, enviando condolências ao governador ACM. O chefe do Planalto também prestou solidariedade à viúva de Clériston, Dra. Cecy Andrade.
A melhor homenagem que poderemos prestar à memória de Clériston Andrade e dos demais correligionários falecidos será prosseguir sem esmorecimento em nossa caminhada para aperfeiçoar e consolidar a democracia no Brasil, para o que contamos com o ânimo forte de Vossa Excelência e de todo o povo baiano
Presidente João Figueiredo
Clériston foi sepultado no Campo Santo, em Salvador, no dia 4 de outubro, sob grande comoção nas ruas da capital.
A escolha do novo candidato
A morte de Clériston abriu um novo episódio na corrida eleitoral, com a escolha de um novo postulante para o pleito marcado para o dia 15 de novembro.
O primeiro nome cotado foi o de Dra. Cecy, viúva de Clériston, que rejeitou a indicação, encerrando as especulações. Nos dias seguintes, outros componentes do grupo político passaram a ser vistos como opções.
Ex-prefeito de Feira de Santana e ex-secretário estadual de Recursos Hídricos da Bahia, João Durval foi ‘ungido’ por ACM como o substituto de Clériston para a disputa da sucessão estadual.
Dias depois, João Durval teve seu nome oficializado pela cúpula do PDS, sigla de ACM.
“Depois de alguns dias de reflexão e de sondagens, intervalo durante o qual proliferaram as especulações, o governador Antônio Carlos fez a escolha, que recaiu na pessoa do deputado João Durval Carneiro, ex-secretário de Saneamento da atual administração”, diz trecho do jornal publicado no dia 8 de outubro.
João Durval e Roberto Santos deram continuidade ao processo. A data da votação foi o dia 15 de novembro, como previa o calendário eleitoral da época.
Com os votos em cédula, o resultado só foi oficializado semanas após o pleito. A confirmação da vitória de João Durval aconteceu por volta de 25 de novembro, quando governo e oposição admitiram, com ressalvas, a conclusão da eleição.
Posse do novo governador
A posse de João Durval e do seu vice, Edvaldo Flores, ocorreu no dia 15 de março de 1983, na Assembleia Legislativa da Bahia. O jornal A TARDE, na edição do dia seguinte, trouxe o registro do momento.

“No plenário lotado da Assembleia Legislativa, ontem, o governador João Durval Carneiro tomou posse. Momentos após, dirigiu-se ao Palácio da Aclamação onde foi recebido pelo governador Antônio Carlos Magalhães, que lhe transmitiu o cargo”, diz trecho da matéria publicada pelo A TARDE.
Trajetória de Clériston Andrade
Nascido em 1925, Clériston Andrade teve uma respeitada trajetória da política baiana, iniciada ao assumir a prefeitura de Salvador, em 1970, após Antônio Carlos Magalhães deixar o cargo para se tornar governador da Bahia.
Em 1974, Clériston chegou a ser cotado para concorrer ao governo, de forma indireta, como funcionava na ditadura militar, mas foi preterido por Roberto Santos, indicação direta do então presidente Ernesto Geisel.
Entre 1979 e 1982, Clériston foi presidente do Banco do Estado da Bahia (Baneb), função que deixou para disputar a sucessão estadual.