COVID-19
Mortes de grávida poderiam ser evitadas com mais vacinas
De acordo com estudo feito pela Fiocruz, somente uma dose da Coronavac não é eficaz para proteger

Se a proteção vacinal para as grávidas fosse a mesma em relação ao resto da população, muitos óbitos maternos poderiam ter sido evitados. A afirmação é demonstrada em estudo que parte do projeto Vivgivac, conduzido pela Fiocruz Bahia. No estado, entre 2020 e 2021, o número de óbitos de gestantes por Covid-19 aumentou em mais de 100%, em 2022 ainda não ocorreu nenhuma morte entre mulheres grávidas causada pelo vírus.
O estudo buscou avaliar a eficácia contra sintomas e efeitos graves da vacina Coronavac em mulheres grávidas no Brasil durante o ano de 2021. A conclusão da pesquisa indica que somente uma dose da vacina não é eficaz para proteger mulheres contra os sintomas graves da covid-19, alertando para a necessidade de gestantes colocarem a vacinação em dia. Na Bahia, 23 gestantes faleceram em 2020 por conta do coronavírus, em um ano o número saltou para 51 mortes, já durante 2022 nenhum óbito foi registrado ainda.
A não ocorrência de óbitos entre grávidas durante o início deste ano pode ter sido causada pelo avanço da vacinação no estado, opina Enny Paixão, pesquisadora que liderou o estudo junto a uma equipe de pesquisadores do Instituto Gonçalo Moniz (Fiocruz Bahia). Porém, a especialista admite que ainda não se pode saber ao certo o que causou a diminuição drástica das mortes. Outra suposição viável é que a Ômicron, variante dominante em 2022, seja menos letal e mais branda do que as anteriores. Mesmo assim, alerta para a necessidade de gestantes colocarem a vacinação em dia.
Para mulheres grávidas, cuja fisiologia desfavorece a imunidade, o estudo constatou que somente uma dose da vacina Coronavac não ofereceu proteção contra a Covid sintomática, enquanto duas doses ofertaram uma taxa de 41% de efetividade, com 85% de chance de evitar sintomas graves. Sobre os resultados encontrados, Paixão, reitera a importância do quadro vacinal contra a covid-19 passar a também fazer parte dos exames nas consultas de pré-natal.
A falta de investimento na testagem de públicos vulneráveis explica o porquê das baixas taxas de vacinação entre grávidas no Brasil. O estudo clarifica que ainda que as mulheres grávidas estejam suscetíveis a efeitos mais graves da covid-19, devido ao fato que a própria gravidez em si já aumenta o risco para algumas doenças cardiopulmonares, elas foram excluídas da maioria dos testes de vacinas para a doença. “Foi observado que 17% das grávidas estudadas estavam em atraso da segunda dose da vacina. Esse resultado evidencia a importância da busca ativa e promoção de oportunidades para vacinar essas mulheres durante as consultas regulares de pré-natal”, diz.
“É muito comum nos ensaios clínicos que a população vulnerável não seja incluída nos testes, então é comum grávidas não serem incluídas. Porém, a gente sabe que, com muitas doenças, essa população sofre riscos mais elevados caso se contamine”, explica. Dessa forma, como as vacinas contra a doença ainda estavam em fase de ensaio clínico em 2021, criou-se um medo relacionado tanto à efetividade das vacinas quanto ao fato de serem ou não seguras para serem aplicadas durante a gestação.
Paixão aponta que, durante o período pandêmico, a mortalidade materna aumentou muito devido aos casos graves da doença. “Devemos ressaltar que esse número não só aumentou por causa da infecção pelo coronavírus, mas também porque muitas mulheres deixaram de se consultar regularmente, checar a saúde e fazer o pré-natal com toda a restrição que o serviço de saúde teve de adotar”. De forma inversa, a especialista cita trabalhos que mostram que quando as mulheres grávidas se vacinam durante a gestação, principalmente durante o terceiro trimestre do período, os bebês já nascem com anticorpos contra a doença e estão protegidos por algum tempo.
A pesquisadora, associada ao Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs/Fiocruz Bahia), complementa que é necessário ter em mente que a gravidez em si já promove uma resistência em gerar alguns anticorpos, em comparação a mulheres que não estão grávidas, o que pode sugerir que as gestantes não possuem uma resposta vacinal tão efetiva quanto o resto da população. “Tendo em vista que a fatalidade da covid em gestantes é maior do que na população em geral, o mesmo nível de proteção vacinal de não-gestantes poderia ter diminuído a gravidade e a fatalidade da doença nas mulheres grávidas”.
Os dados também apontam que a estimativa de eficácia de 41% contra os sintomas da covid-19, através da vacina Coronavac, é bem menor em gestantes, se comparada a efetividade de 78% e 96% relatado por mulheres de Israel, que receberam outras vacinas que utilizam o RNA mensageiro. A proteção da Coronavac em gestantes variou em pesquisas científicas realizadas em diferentes países, entretanto, as diferenças entre os achados desta pesquisa, em comparação a outras, podem ser relacionadas a diversos fatores como o intervalo entre as doses, o risco de infecção na comunidade, a variante predominante no local e época, entre outros.
Metodologia
Para realizar o estudo, foram utilizados os testes negativos em todas as gestantes no Brasil que tiveram teste de RT-PCR para a covid. Foi estimada a efetividade da vacina contra os sintomas da covid comparando o estado vacinal em mulheres com teste positivo, em relação àquelas com teste negativo, e avaliando a eficácia contra covid-19 naquelas com a forma grave da doença, ou seja, com hospitalização, necessidade de ventilação pulmonar, etc, em relação ao status vacinal das mulheres que testaram negativo.
Para isso, foram utilizadas as bases de dados da plataforma de vigilância nacional dos testes de RT-PCR, o e-SUS Notifica, além do sistema que notifica as formas severas de doenças respiratórias, o Sistema de Informação da Vigilância Epidemiológica da Gripe (SIVEP-Gripe), e o sistema nacional de imunização, o Sistema de Informações do Programa Nacional de Imunizações (SI-PNI). A população do estudo se baseou em gestantes brasileiras, com idade entre 18 e 49 anos, que realizaram os testes PCR, entre março e outubro de 2021, notificados através do e-SUS.
*Sob a supervisão do editor Rafael Tiago Nunes
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