CULTURA
“As novas gerações cultuam Jacob em nome da genialidade inquestionável”, diz Gonçalo Junior

Presente há muitas décadas no imaginário do povo, o chorinho é hoje consagrado como o mais sofisticado entre os gêneros musicais tipicamente brasileiros. Se está longe de ser o mais ouvido, é certamente um dos mais respeitados e queridos. Quem nunca comeu uma feijoada com uma cachacinha ao som de um grupo de chorinho não sabe o que é o Brasil – o melhor do Brasil. Mas o chorinho não nasceu pronto. Seu processo de origem e estabelecimento remonta ao século 19. E quase não chega ao século 20. Meio esquecido nas primeiras décadas do século passado, o chorinho foi praticamente resgatado – e definitivamente popularizado no Brasil – pelo inesquecível Jacob do Bandolim (1918-1969). Uma das figuras mais importantes da MPB em todos os tempos, ele tem sua vida e obra narradas em detalhes no livro Jacob do Bandolim – Um coração que chora, do jornalista e pesquisador baiano Gonçalo Junior. Nesta biografia de quase 700 páginas, que deve ser a definitiva do músico, Gonçalo faz o que costuma fazer em seus melhores livros: simplesmente esgota o assunto ao vasculhar não apenas seu biografado, mas tudo e todos que estavam em seu redor, além de todas as implicações de suas ações ao longo de décadas. Ler esta biografia de Jacob vale por várias aulas de história sobre o próprio choro (e seus muitos músicos originais do século 19), as lendárias polacas (como a mãe de Jacob, eram jovens judias da Europa Central que eram trazidas para trabalhar como prostitutas no Rio), a evolução do rádio no Brasil, da TV, da indústria fonográfica, os muitos artistas com quem Jacob tocou e conviveu, o meio artístico, os jornalistas especializados e muito mais. Em outro país, Gonçalo Junior já seria ídolo nacional.
O que o levou a Jacob do Bandolim? Que caminhos de vida o levaram a se fascinar por este personagem, a ponto de escrever uma biografia tão exaustiva?
Minha relação com a obra de Jacob é algo que atravessou toda a minha vida. Desde que eu era criança, havia quase que um ritual em nossa casa de ouvir seus discos aos domingos pela manhã, depois do fim da missa matinal – meu pai era muito católico – e a espera pelo almoço. Cresci com meu pai contando histórias a seu respeito, sobre o quanto era perfeccionista e genial, seu temperamento, o suposto romance com Elizeth Cardoso etc. Só não podia imaginar que o bandolinista teve uma vida tão intensa e dramática. Nem fazia ideia de que sua mãe foi prostituta e cafetina. Acho que eu me preparei esse tempo todo para biografá-lo, precisei escrever todas as outras biografias para me sentir seguro. Por um tempo, achei que não teria capacidade para isso, pois sempre achei um desafio de imensa responsabilidade. A leitura da primeira biografia, de 1998, deu-me a certeza de que havia bem mais coisas a contar, pois era um livro dividido em tópicos, vamos dizer assim. E não era extenso. Quando comecei o meu, não demorei a descobrir que ele era um personagem ainda mais incrível. Talvez o maior de todos que me dispus a biografar e um dos mais interessantes e fascinantes da MPB.
No seu próprio livro, aprendemos que já havia umas duas outras bios de Jacob. Quais falhas e ausências você buscou corrigir em seu livro? Quais você diria que são as revelações de maior impacto que você conseguiu descobrir?
Não me lembro de nada que tenha corrigido, mas completado, ampliado, redimensionado, de modo a lembrar que, além de gênio, ele foi um ser humano como qualquer outro, passível de erros, falhas e acertos. Uma diferença básica foi que a autora do outro, Emerlinda Paz, ainda encontrou muita gente viva para entrevistar, inclusive a viúva e a filha. E eu não tive essa sorte. Por outro lado, tive acesso ilimitado a todo o acervo pessoal dele, um dos maiores de que se tem notícias, inclusive o diário. Contei muito com a ajuda do Instituto Jacob do Bandolim. Dois diretores, inclusive, fizeram uma revisão técnica para mim. Mergulhei muito na história de vida dele e na personalidade. Porque essas características contribuem muito para a construção de uma obra artística. O livro revela que a mãe dele foi prostituta e os dois tiveram uma relação terrível de atritos, que Jacob trocou o judaísmo pelo catolicismo por exigência da família da noiva, e traz informações preciosas sobre a difícil relação com o filho hemofílico, a hipocondria, os bastidores de seus discos, as brigas com o pessoal da Bossa Nova, da Jovem Guarda, do Tropicalismo etc.
É possível afirmar que, não fosse Jacob, o choro tivesse caído no completo esquecimento, já que até a obra de Ernesto Nazareth (1863-1934, pianista) ele foi responsável por recuperar?
Sim, exatamente. Durante sua existência, Jacob fez de tudo para recuperar suas histórias, seus personagens e protagonistas, quando montou um fantástico acervo sobre o tema e passou a vasculhar arquivos de músicos e colecionadores. Após sua morte, passou a ser cultuado, o que permanece até hoje. Assim, fez da sua obra um meio de revitalização e perpetuação desse gênero musical tão brasileiro. Nesse sentido, a internet se tornou uma ferramenta essencial porque, acredite se quiser, na era do CD, desde os anos de 1980, nenhum disco dele foi lançado nesse formato, a não ser uma edição alemã de sua obra-prima, o álbum Vibrações (1967), com tiragem bem reduzida.
A postura até certo ponto conservadora de Jacob em relação ao choro e seu trabalho na polícia, além de seu gênio esquentado, renderam algumas antipatias ao músico, especialmente em seus últimos anos. Acredita que esse “climão” persiste ainda hoje em certos círculos da MPB ou isso é coisa do passado?
Jacob foi escrivão na 11ª Vara Criminal, pegava depoimentos de pessoas presas. Não tinha relação direta com a polícia, embora muitos digam o contrário, como Gilberto Gil, que, em entrevista à revista Status, em 1979, insinuou que o músico torturava pessoas como delegado de polícia. Uma leviandade total e que levou a viúva a fazer uma longa carta, que ele jamais respondeu (é reproduzida no livro). Alguns defensores da Bossa Nova ainda antipatizam com ele, mas isso se diluiu muito. Hoje, predomina principalmente sua obra, suas gravações impecáveis. Esse é o seu legado. As novas gerações cultuam Jacob e amenizam qualquer crítica em nome de uma genialidade que, sem dúvida, é inquestionável.

No seu livro aprendemos não apenas sobre a vida e a obra de Jacob do Bandolim, mas praticamente tudo o que estava em seu entorno, como sua origem judaica, a zona onde ele cresceu, os malandros de rua que viviam na sua vizinhança, os primeiros tempos do rádio, a origem do choro, o início da indústria fonográfica no Brasil, a vida de outros músicos e artistas contemporâneos, a vida de seus filhos etc. É um trabalho titânico, mais do que completo. Ao terminar um livro como este, você se sente absolutamente satisfeito ou ainda acha que ficou faltando algum detalhe, que poderia melhorar um negócio aqui, outro ali?
Fico muito feliz com sua opinião, pois alivia a insegurança que a gente sempre tem de errar, pois Jacob é quase um deus, temos centenas, milhares de especialistas em sua obra que atuam como cães de guarda de sua vida e obra. Tudo isso pesa muito, você sabe que vai se expor a críticas, que vão procurar pelo em ovo. Até o momento, todos amaram o livro e o único erro apontado foi que coloquei Sivuca como pernambucano – na verdade, era paraibano. Enfim, sobre Jacob, fiz meu dever de casa, preparei-me para um vestibular altamente concorrido, digamos assim. Tipo dez mil candidatos para uma vaga. Consultei mais de 400 horas de áudio e perto de sete mil documentos, entrevistei todos que o conheceram e estavam vivos e fui a recortes de jornais e revistas. Ou seja, fiz o possível, tentei fazer o melhor. A gente sempre deixa coisas de fora, mas dou-me por satisfeito com o que saiu publicado.
Em 2019 saiu uma notícia que seu livro sobre o Bandido da Luz Vermelha (Famigerado! — A História de Luz Vermelha, o bandido que aterrorizou São Paulo, Editora Noir, 2019) seria adaptado em uma minissérie de TV ou streaming pela badalada RT Features. Como está essa história?
O contrato está assinado desde fevereiro de 2020. Isso aconteceu uma semana antes da Organização Mundial da Saúde declarar a pandemia. Depois disso, o caos se instalou no país, mais do que no mundo do todo, e o processo está andando mais lento do que esperávamos. Mas deve sair até o ano que vem. Existem duas possibilidades: filme ou série. Gosto mais da segunda opção.
Que novos lançamentos seus (ou de sua editora) podemos esperar ainda para 2021?
Lançamos este ano um livro polêmico, chamado Cangaço – A milícia do coronelismo, que faz um paralelo entre os cangaceiros e o os milicianos cariocas. É uma obra ricamente fundamentada, que contraria o banditismo romântico que muitos veem no tema. Outra novidade foi Sombras do Juquery, que traz as memórias de um enfermeiro que trabalhou no maior hospital psiquiátrico do Brasil de 1969 a 1994; e acabamos de receber da gráfica Jane Birkin, a musa irreverente da música e do cinema franceses. Em maio, sai A bastarda de Deus, de Júlio Chiavenato, autor de Genocídio americano: A Guerra do Paraguai. Nessa obra inédita e polêmica, que levou doze anos para ser escrita, ele mostra como a Bíblia propaga há milhares de anos o ódio e a violência contra as mulheres. Um livro que toda mulher deveria ler. Como vê, estou dando uma guinada na linha editorial, com livros mais instigantes politicamente. Essa decisão eu já queria tomar desde que a editora surgiu, há quatro anos. Como meu sócio saiu, agora tenho toda liberdade para isso. No segundo semestre, teremos um volume com as grandes entrevistas do cartunista Henfil, as memórias do bandido-travesti Madame Satã e a biografia da roqueira Celly Campello, minha primeira obra a quatro mãos, com o cineasta Dimas Oliveira Junior (informação em primeira mão para você). Tem sido uma experiência bem interessante mergulhar numa história quase desconhecida dos primórdios do rock no Brasil.
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