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CULTURA

Casa do Chame-Chame reflete arquitetura orgânica de Lina

Verena Paranhos

Por Verena Paranhos

04/12/2014 - 8:00 h

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Casa do Chame Chame
Casa do Chame Chame -

Quem passa hoje pela rua Plínio Moscoso, no Chame-Chame, dificilmente pode imaginar que o número 294 abrigava a única residência projetada por Lina Bo Bardi em Salvador. A casa foi demolida em 1984 para dar lugar a um prédio banal, pois seu muro baixo e a ausência de grades eram insuficientes diante das mudanças pelas quais a cidade passou.

Por 20 anos, a família do professor universitário, procurador-geral de Justiça na Bahia e deputado Rubem Nogueira viveu no endereço, apelidado de "casa de pedra".

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A aproximação de Nogueira com Lina se deu por meio do cunhado, Antônio Fellonio de Mattos, de quem a arquiteta era amiga em São Paulo. "Ele tinha comprado o terreno e em uma das vindas de meu tio e Lina à Bahia, em 1958, ela quis conhecer e se interessou em fazer o projeto", conta Gilka Maria Andrade, filha do jurista.

Na época, Rubem Nogueira morava em Brasília e coube a Lina acompanhar a obra, executada pelo engenheiro Fernando Pedreira. "Ela nem cobrou pelo projeto. Como forma de agradecimento, meu avô a presenteou com um conjunto de cristais Fratelli Vita", afirma a neta do advogado, Mariana Lisboa, que tinha 8 anos quando a casa foi vendida para em seguida ser demolida.

"A casa não tinha estrutura para os grandes centros urbanos. Mesmo tendo dois seguranças, foi alvo de muitos assaltos, o que tornou inviável a permanência da família", afirma a também advogada.

Do projeto, só restou a estante que ficava no gabinete de Nogueira e foi instalada no apartamento para o qual a família se mudou, na mesma rua. "Foi muito triste ter que demolir a casa onde vivemos por 20 anos. Lina ficou muito chateada", comenta Gilka Maria.

Árvore na casa

Enquanto ter uma casa na árvore é sonho de toda criança, foi uma jaqueira no meio da sala que estimulou a imaginação de Mariana na infância. "Aquela árvore dentro da casa era incrível e linda. Tudo era feito de pedra e vidro, muito fresco e claro. O convívio nas áreas comuns era muito favorecido".

Além da jaqueira, cujos galhos se debruçavam sobre os quartos, uma escada de cimento em caracol também dava os traços autorais e a personalidade de Lina Bo Bardi à residência, frequentemente visitada por grupos de professores e estudantes de arquitetura.

"É de uma época em que Lina experimentou uma arquitetura bastante orgânica, depois de ter conhecido e se apaixonado pela obra de Gaudi, em Barcelona", explica o arquiteto Marcelo Ferraz.

Nesta fase, o jogo de retas e curvas de Lina se completa com a mistura de vegetação, cacos de vidro, conchas do mar e pedaços de porcelanas nas paredes. Estes elementos também podem ser notados no jardim de sua residência na capital paulista, conhecida como "casa de vidro" (que hoje abriga o Instituto Lina Bo e P.M.Bardi), na casa da amiga Valéria P. Cirell, no Morumbi, e no mausoléu da família Odebrecht no Cemitério do Campo Santo, também de 1958.

Para a professora da Faculdade de Arquitetura da Ufba Ana Carolina Bierrenbach, é justamente a preocupação de Lina Bo Bardi com o tratamento das superfícies que se deve destacar no período.

"A materialidade da casa abandona a linguagem modernista mais pura, inserindo os elementos. É o único projeto dela que foi derrubado. Era um objeto arquitetônico bem peculiar, que poderia ser uma contribuição relevante da arquitetura da cidade", diz Ana Carolina.

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