LITERATURA
2001: Uma Odisseia no Espaço faz 45 anos

Em 1968, um filme e um livro jogaram mais lenha na fogueira de revoluções por minuto que marcou aquele ano. 45 anos depois, pouco sobrou de tantos ideais. Mas aquele filme e aquele livro sobreviveram.
Para comemorar o quase meio século de espanto contínuo, a Editora Aleph lançou uma edição especial do livro em questão. 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Arthur C. Clarke (1917-2008), ganhou uma belíssima edição acondicionada em uma caixa adornada com o "rosto" do supercomputador HAL 9000 - um círculo vermelho com uma lâmpada no centro.
Quando se retira o livro da caixa, a surpresa: ele é uma réplica perfeita do misterioso Monolito Negro que dá início à trama, com capa, contracapa e laterais em imaculado preto fosco - e mais nada impresso.
Para completar, a edição traduzida por Fábio Fernandes tem o cuidado de incluir os dois contos do próprio Clarke nos quais livro e filme se inspiraram: A Sentinela (de 1951) e Encontro no Alvorecer (1953).
O lançamento traz ainda uma nota de Clarke escrita em 1999, in memoriam para Stanley Kubrick (1928-1999, diretor do filme 2001) e dois prefácios do próprio autor. Um escrito no próprio ano de 2001 e outro da edição original. Uma verdadeira celebração.
Grandeza mítica
Epíteto da chamada ficção científica hard - subgênero que leva a sério os detalhes técnicos e científicos, até por que o autor era formado em matemática e física - 2001 não foi um livro que gerou um filme.
Ambos foram criados quase que simultaneamente, ao longo de parte da década de 1960, por Clarke e Kubrick.
Tudo começou em 1964, quando Kubrick, ainda quente do sucesso de Dr. Fantástico (1964), "iniciou sua jornada em busca do proverbial 'bom filme de ficção científica'", nas palavras de Clarke.
Com a corrida espacial acelerada pela Guerra Fria, Kubrick não queria um filme que se tornasse obsoleto pelos fatos dos anos seguintes. "O que eu quero é um tema de grandeza mítica", disse ele, citado por Clarke.
Depois de entrar em contato com o escritor, o cineasta recebeu do primeiro uma pilha de seus contos. Kubrick gostou daqueles dois já citados.
E aí sugeriu a Clarke que, a partir daquelas ideias básicas, criasse um romance - o qual, por sua vez, seria a base para o roteiro do seu filme.
Digam o que quiserem de Kubrick, o homem não tinha pressa para criar suas obras-primas.
O resultado está no livro e no filme: duas obras abertas que dificilmente encontrarão a obsolescência e seguem firmemente encravadas no imaginário popular com seus ícones.
Livro versus filme
Um dos poucos escritores baianos que dedicam parte de sua produção à ficção científica, Mayrant Gallo leu 2001 e é categórico ao afirmar que o livro é "perene e intenso".
Uma tentação é tentar comparar, no livro, o que no filme fica apenas sugerido - e quem já viu o filme sabe que sugestão é o que não lhe falta.
"O fato de o filme ocultar muito do que o romance expõe está, a um só tempo, na natureza do cinema e no estilo de Kubrick, que era, parodoxalmente, muito literário", vê Mayrant.
"A FC tem, às vezes, o defeito de explicar demais. Todos os autores, em geral, padecem dessa falta de contenção. Kubrick, com seu olhar arguto, optou por uma trama mais metafórica", diz.
Nada que tire mérito do livro. "Isso, no entanto, não nos faz prescindir do livro, que, em sua essência verbal, com descrições e análises de um mundo que 'ainda' nos é desconhecido, nos oferece horas e horas de prazer, diversão, conhecimento e imaginação", conclui Mayrant.
Confira o trailer do filme de Kubrick
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