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Nobel de literatura promete seguir falando sobre migração

Publicado às | Atualizado em 08/10/2021, 17:49 | Autor: AFP
O romancista Abdulrazak Gurnah, de 72 anos, foi laureado na quinta,7, com o prêmio máximo da literatura por seu relato inabalável dos efeitos do colonialismo e da emigração na vida dos refugiados | Foto: Tolga Akmen | AFP
O romancista Abdulrazak Gurnah, de 72 anos, foi laureado na quinta,7, com o prêmio máximo da literatura por seu relato inabalável dos efeitos do colonialismo e da emigração na vida dos refugiados | Foto: Tolga Akmen | AFP -
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O autor britânico-tanzaniano Abdulrazak Gurnah, ganhador do Nobel de literatura de 2021, assegurou nesta sexta-feira, 8, que não deixará de falar sobre a migração e outros temas polêmicos, como as políticas dos governos europeus, que classificou de "desumanas".

O romancista de 72 anos foi laureado na quinta,7, com o prêmio máximo da literatura por seu relato inabalável dos efeitos do colonialismo e da emigração na vida dos refugiados.

"Escrevo sobre essas condições porque quero escrever sobre as interações humanas e [...] pelo que acontece com as pessoas quando estão reconstruindo suas vidas", explicou o escritor aos jornalistas em uma coletiva de imprensa em Londres, menos de 24 horas depois do anúncio da Academia Sueca.

"Você escreve o melhor que pode e espera que tenha sucesso e funcione", afirmou, ao assegurar que nunca imaginou que ganharia um Nobel.

O reconhecimento, no entanto, não diminuirá a sua vontade de seguir falando com franqueza dos temas que sempre fizeram parte de sua obra e visão de mundo, garantiu o aclamado autor de dez romances e vários contos.

"Não interpreto um papel, falo o que penso", destacou.

Sou de Zanzibar

Gurnah, o quinto escritor nascido na África a ganhar o Nobel de literatura, fugiu para a Inglaterra no fim de 1967, e obteve a cidadania britânica com o passar do tempo.

Ele cresceu falando suaíli, mas também aprendeu inglês em Zanzibar, onde o Reino Unido era a potência colonial na primeira metade do século XX, antes que a ilha fosse unificada com a Tanzânia.

Apesar de ter produzido a sua literatura em inglês, Gurnah conserva os vínculos com sua terra natal e uma identidade que influenciaram as suas obras.

"Sou de Zanzibar, não existe nenhuma confusão em minha mente sobre isso", frisou.

"Minha experiência, tanto de trabalho como de vida, transcorreu aqui na Grã-Bretanha. Mas isso não é, inteiramente, o que constitui a sua vida imaginária ou sua vida imaginativa", explicou.

"Assim que não considero que a pregunta 'de onde você vem?' responda à questão de 'o que você faz com o seu trabalho?'".

"A mesma feiura"

Após mais de cinco décadas no Reino Unido, Gurnah considera que agora existe menos racismo descarado e maior conscientização sobre o tema, mas que as instituições do país continuam sendo "tão mesquinhas e autoritárias como antes".

O escritor citou como exemplo o escândalo "Windrush", que viu como numerosos imigrantes caribenhos foram perseguidos pelo governo britânico nos últimos anos, apesar de terem chegado ao país legalmente nas décadas de 1950 e 1960, e o tratamento hostil oferecido aos solicitantes de asilo.

"Isso me parece ser apenas uma continuação da mesma feiura", denunciou.

Gurnah também disse que "desconfia da força" que estaria por trás da saída britânica da União Europeia, o Brexit, para a qual seus defensores fizeram uma campanha em 2016, em parte, sobre a base de limitar a imigração e recuperar as "liberdades perdidas".

"Talvez haja algo de nostalgia nisso, mas também pode haver algo de autoengano", considerou. "Sinceramente, creio que é um erro".

Falta de compaixão

O ganhador prêmio Nobel também se mostrou implacável em suas críticas à política de outros países europeus, como a Alemanha, que, segundo ele, não "enfrentou sua história colonial".

Seu último livro, "Afterlives", narra a história de um menino roubado de seus pais pelas tropas coloniais alemãs, que, ao retornar à sua aldeia, descobre que seus pais já se foram e sua irmã foi entregue.

Gurnah considerou que a linha dura dos governos europeus atuais ante o aumento da imigração procedente da África e do Oriente Médio é tão cruel quanto ilógica.

"Nessa resposta aterrorizada - 'quem são essas pessoas que estão vindo?' - [há] falta de humanidade, falta de compaixão", afirmou.

"Além disso, não há razões morais nem racionais para isso: essas pessoas não chegam sem nada, elas vêm com sua juventude, energia, potencial", argumentou.

E enfatizou: "Focar apenas na ideia de que 'aqui estão eles, vindo para arrebatar algo de nossa prosperidade' é desumano."

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