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Paulistas conhecerão cartas de amor de Genaro e Nair

Andreia Santana
Por Andreia Santana
| Atualizada em
Nair de Carvalho
Nair de Carvalho -

A motivação para retirar do baú das recordações as cartas de amor que recebeu de Genaro de Carvalho ao longo de dois anos de um namoro digno de romance clássico, a artista plástica Nair de Carvalho tirou da internet e do desejo de mostrar às novas gerações do beijaço e das ficadas, a história de um sentimento verdadeiro. Lançado em Salvador em julho passado, Amor em Cartas, livro no qual a autora reúne 30 missivas do amado, além de fotos e pinturas dele, será apresentado aos leitores e admiradores de arte de São Paulo, nesta quarta-feira, dia 2, a partir das 17h, na Galeria Passado Composto Século XX, situada no bairro Jardins.

O evento tem ainda uma outra motivação: a solidariedade. A renda obtida com a venda dos exemplares de Amor em Cartas será integralmente revertida para a Organização Não Governamental (ONG) Pequeno Príncipe, fundada em Salvador, em 2001, e que oferece atendimento a crianças e adolescentes de baixa renda que sofreram queimaduras ou que apresentam problemas congênitos como lábio-leporino.

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Nair de Carvalho conta que no seu tempo de moça, ela conheceu Genaro aos 21 anos durante um desfile, pois era manequim, o primeiro beijo, quando acontecia, vinha acompanhado de um sincero "eu te amo" e do pedido de casamento. "Hoje, as pessoas vivem relações com máquinas, pois passam o dia no computador. Ninguém mais escreve cartas, manda SMS. Todos tem várias pessoas na vida ao mesmo tempo, ao invés de ter aquela pessoa para a vida toda", diz dona Nair, que durante 17 anos, além de amada, foi a grande musa inspiradora de Genaro de Carvalho, artista plástico considerado o pioneiro da tapeçaria moderna brasileira.

As cartas que compõem o livro foram enviadas entre 1955 e 1956. Nair e Genaro se casaram em 1957, em Montevideo (Uruguai). Os dois viveram seu idílio por 17 anos, dois de namoro por correspondência e ponte-aérea Salvador-São Paulo, e 15 de casamento. Em 1971, o artista, que tinha um aneurisma cerebral inoperável para os padrões da medicina da época, morreu precocemente, aos 45 anos.

Após se conhecerem em um evento da Rhodia, em 1955, uma das empresas para as quais Nair desfilava, ela e Genaro passaram a se corresponder e a se visitar. Nair, que nasceu no interior da Bahia mas foi morar em São Paulo aos seis anos, veio até Salvador conhecer a mãe e a tapeçaria de Genaro, que na época dava os primeiros passos na arte e se angustiava porque os "tapetes", como ele chamava, não ficavam perfeitos e nem reproduziam com precisão a sutileza de seus desenhos.

"Genaro tinha um desenho limpo, bem feito, mas ao transpor para os tapetes, o bordado cobria os traços e o acabamento ficava aquém do que ele idealizava", conta dona Nair. Ela ensinou para as bordadeiras que trabalhavam com o artista um ponto mais delicado, o alinhavinho, e também iniciou uma pesquisa de materiais como lã peruana para tecer, forro e cola especiais para dar mais firmeza à tapeçaria. Foi graças a essa participação, que os trabalhos de Genaro de Carvalho começaram a mudar a feição de um artesanato doméstico para as obras de arte que percorreram o Brasil e o mundo em mostras e exposições. A primeira ocorreu ainda nos anos 50, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Não à toa, a cidade foi escolhida para sediar o lançamento nacional de Amor em Cartas.

De musa a companheira de vida

Eleita a partir daí como "a musa", Nair lembra que no início do namoro ficou com receio das declarações de amor não passarem de empolgação de artista. Além disso, como o jovem era desquitado (na época ainda não existia divórcio no Brasil), Genaro era seis anos mais velho que Nair e estava com 27 quando se conheceram, ela temia que o amor dele não fosse durar a eternidade que lhe prometia na correspondência. "Mas suas cartas me fizeram apaixonar por ele também, porque pela arte eu já tinha me apaixonado".

Nair, aos 23 anos, se mudou para a capital baiana após o casamento no exterior e deixou a carreira promissora de manequim para se dedicar ao amado e à sua arte. "Quando casei, ainda tinha dois anos de contrato com a Rhodia, que eu cumpri fazendo viagens para desfilar". Depois, ela mesma foi estudar pintura em Paris, e segue produzindo até hoje. Sua última exposição ocorreu no Museu Costa Pinto (Corredor da Vitória), na época do lançamento do livro em Salvador.

Novos projetos

Nair de Carvalho, aos 80 anos, mantém a beleza que encantou Genaro e que, basta uma hora de conversa com a artista, fica nítido que transcende o aspecto físico e contempla aquele tipo mais pleno de beleza, quase espiritual. Preparando as malas para viajar para São Paulo, ela revela que uma editora de Paris se interessou em lançar uma edição traduzida de Amor em Cartas, na França.

"O contato da editora me pediu para selecionar um número maior de cartas, pois tenho muitas. Penso em trabalhar com 50 delas dessa vez". O projeto da tradução, porém, ficará para 2014, assim como uma nova exposição de pinturas de Nair de Carvalho.

"Esses trabalhos ficam para comemorar meus 81 anos". A motivação para manter-se em plena atividade? Ela dá a receita: "Não tem nada melhor do que gostar do que se faz".

Ficha Técnica:

Amor em cartas
Autora: Nair de Carvalho (org.) e colaboração de Alejandra Muñoz
Editora: Gruna
206 páginas

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