JORNADA NO UNDERGROUND
Rock baiano é cenário do livro ‘Queda Livre’
Livro de Anderson Gomes também conta com versão em áudio narrada por Jajá Cardoso
Por Tiago Freire*

Remontando à cena underground soteropolitana de décadas passadas, o romance Queda Livre, do escritor e guitarrista soteropolitano Anderson Gomes foi lançado recentemente. Misturando ficção e realidade em sua narrativa, o livro está disponível nos formatos físico, digital e audiolivro, e promete transportar os leitores para uma jornada intensa no universo do rock baiano dos anos 2000.
A obra tem como pano de fundo a trajetória de três amigos em busca do sonho de formar uma banda. Queda Livre mergulha nos bastidores do rock local, relembrando a explosão da cena underground que deu origem a grandes nomes como Pitty, Vivendo do Ócio, Canto dos Malditos na Terra do Nunca e Cascadura. A narrativa também resgata o contexto histórico dos anos 1990, abordando a influência das transformações tecnológicas e a luta da arte para se manter relevante diante de mudanças significativas, desde o desaparecimento do mIRC e do MSN até a ascensão do WhatsApp e Spotify.
Com 360 páginas, o livro é descrito como uma viagem ao submundo do rock, uma imersão no sonho de ser um astro, com uma trama coesa entre a comédia e a tragédia, esta última representada por um acidente aéreo que altera irreversivelmente o curso da história dos personagens.
O romance pode ser adquirido pelo site de Gomes, andersongomes.shop. O destaque fica para o audiolivro, que é organizado por episódios e é narrado por Jajá Cardoso, vocalista da banda Vivendo do Ócio, acessível de forma gratuita no Spotify.
De volta aos anos 90
O que começou como uma ideia de romance sobre as dificuldades da carreira musical passou por mudanças até chegar em Queda Livre, essa grande história sobre um período singular da musica – não apenas baiana, mas nacional.
“A ideia inicial era escrever uma história sobre a dificuldade de se manter na arte com a música. Como eu criei muitos laços com Salvador, ter vivido aqui, feito shows e criado muitos laços com artistas que eu era fã, acabei entrevistando essas figuras e percebi que havia uma outra história interessante a ser contada: como essas bandas e pessoas se cruzaram no tempo e se relacionam nesse período. [Queda Livre] se transformou em algo diferente, pelos sonhos de ter uma banda e como essas pessoas dialogam com o público e com a cena de salvador”, revela Anderson.
Gomes também enfatiza a escolha do recorte temporal. O fim dos anos 90 e começo dos anos 2000 como um período extremamente fértil para a música nacional. Apesar de ser após um período que está na mente de muito brasileiro, os anos 1970 e 80, que teve a ascensão de Raul Seixas, ainda representou um momento de surgimento de diversos nomes grandes da música atual.
"Historicamente, se for falar de música, vamos falar muito do passado, não que atualmente não temos nomes bons. Meu recorte é um pouco mais pra frente, pois é um cenário que gerou nomes que temos ainda hoje, como Pitty. Essa cena que a gerou não tinha somente ela, e não teve só ela que saiu do underground e cativou o público”, afirma.
“Temos muitas bandas com pais e mães em comum. Empiricamente falando, eu acredito que muita gente não sabe das bandas do punk que eram frequentes na cena, que fizeram muitos shows, e essas bandas viveram a mesma época e foram referência para outros grupos nos anos 2000 e que temos hoje em dia. A questão de Salvador é que tínhamos essas casas de show, no contexto do rock, que fomentaram muito essa cena, que teve seu auge nos anos 2000, e hoje tem quase nenhuma”, complementa.
Das páginas pro áudio
Gomes conta que desde o começo da produção de Queda Livre, a ideia era transpor o livro para a mídia em áudio, citando a explosão de popularidade dos podcasts. “Já tive outras experiências de publicação e eu entendo como o mundo literário tem funcionado e para onde ele está apontando. Quando os podcasts começaram a ficar mais pulsantes, eu já vi uma forma da minha linguagem ter um local de maior alcance, mas ainda não sabia o que fazer”, relata.
“Depois pensei ‘e se eu escrevesse um livro pensando nele já em outros formatos de mídia?'. Um livro pode ser roteirizado para filme, série etc, mas eu o escrevi pensando na mídia em áudio, o que eu acredito que é um caminho natural para a mídia escrita”, diz.
Para Anderson, quem escreve hoje pensando só no papel, vai perder o bonde da história. “Vai ficar para trás, vai perder esse tempero que a escrita pode ganhar. [Na versão em áudio] Esse tempero está na sonoplastia, que é um diferencial grande. Algumas pessoas que já estão lendo o livro tiveram uma grande surpresa ouvindo o primeiro episódio, com a forma de contar que não é mecânica, soa natural”, afirma.
Assumindo a narração está Jajá Cardoso, da banda baiana Vivendo do Ócio. Antes do vocalista aceitar o trabalho, Cristiano Botafogo, do famoso podcast Medo e Delírio em Brasília, estava cotado para fazer a narração, porém foi feita a opção por Cardoso, algo que Gomes acredita ter dado uma maior naturalidade para o audiolivro.
"Eu conhecia a Vivendo do Ócio como fã, ia em shows e tudo mais. Quando estive em uma banda eu tive a oportunidade de tocar com eles, e foi lá que tivemos a chance de conversar, de me aproximar de Jajá e dos meninos da banda. Eu já estava com o livro pronto e eu falei desse projeto com ele algumas vezes e nisso ele fez um teste”, relembra.
“Eu na época tinha um problema pois no começo, quem ia fazer a narração era o Cristiano Botafogo. Apesar de ser muito fã dele, ele é carioca e com sotaque de lá, e meu personagem principal é um baiano, nascido e criado no estado, que tem sotaque e usa as gírias daqui. E então foi feita essa troca e com Jajá encaixou perfeitamente. Gravar com ele é perfeito, pois convergimos muito nas opiniões sobre piadas, sobre os compromissos e tem sido alguém muito bom de trabalhar”, celebra.
Em breve, os últimos episódios do audiolivro chegarão ao Spotify: “Estamos aqui juntos gravando os últimos episódios, que logo logo chegarão ao feed dos ouvintes”.
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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