MÚSICA
Com 127 álbuns gravados em 10 anos, Luiz Caldas lança disco de funk
Funk You traz músicas inéditas e participação de Adelmo Casé

No ano do tricampeonato mundial da seleção, 1970, Luiz Caldas era um garoto de sete anos encantado com a voz da mãe, que enquanto fazia os afazeres domésticos, em Feira de Santana, cantarolava Doris Monteiro e os chorinhos de Ademilde Fonseca. Naquele mesmo ano, Michael Jackson e os Jackson Five lançavam o hit I'll be there, que graças à TV e ao rádio alcançaram o mundo.
Um dia, o pequeno Luiz cantava esse sucesso americano no quintal de casa, quando Jorge Matos, um músico amigo da família chegou para uma visita. O mesmo Jorge que anos depois seria parceiro de Luiz na música Amazônia.
Surpreendido com o talento do garoto, Jorge o convidou para se apresentar com ele no dia seguinte em um show na cidade. "Eu subi no palco tremendo, segurando a mão de minha mãe, mas quando abri a boca e cantei o primeiro verso senti que o palco era o meu lugar", conta o artista.
A estreia profissional aconteceu no mesmo ano, em Vitória da Conquista, com o grupo Aquarius Sete. Dali até subir em um trio, em 1986, Luiz viveu de fazer bailes em todo o território baiano, inclusive no Esporte Clube Periperi.
Nomes como Tina Charles, James Brown, Lady Zu e os próprios Jackson Five integravam o repertório que Luiz levava para os bailes, para chacoalhar a juventude. Essa experiência setentista é a base do disco Funk you, que o artista lançou este mês, em inglês, dentro do projeto iniciado em 2013, com o parceiro César Rasec.
Com uma música inédita escrita por Luiz aos 14 anos, Life goes on, e a participação de Adelmo Cazé, Funk you é um instrumento de reafirmação do estilo que conquistou o mundo e que no Brasil teve expoentes como o baiano Hyldon, Cassiano e o mestre Tim Maia, morto em 1998, que comemoraria 80 anos de vida no último dia 28 de setembro, às vésperas do lançamento do disco.
Batidão não é funk
Luiz sublinha que o funk passou pelo mesmo processo do forró, em que a nomenclatura é usada para rotular sons de outra natureza. "Para uma nova geração, o funk não é James Brown, e sim o que rola nos grandes bailes da periferia do Rio de Janeiro. Só que não. Aquilo ali é o batidão", diferencia o músico, que conviveu com o grupo carioca Os Famks, banda de bailes que agitou o Rio de Janeiro fazendo covers entre 1967 e 1980, quando passou tocar músicas autorais já como o Roupa Nova.
De baile, Luiz entende. Na adolescência, aprendeu o que colocava a moçada para dançar e teve que aprender a tocar diferentes instrumentos, a depender da necessidade da banda, em suas andanças pela Bahia. Aprendeu a tocar baixo, guitarra, bateria e teclado. E numa geração anterior ao videoclipe e telões, tinha que tentar evocar os grandes ídolos internacionais da juventude pela excelência do som.
"O desafio era que não tínhamos equipamentos adequados. Era como se tivéssemos que fazer uma foto em alta resolução e nos dessem um celular de 1990", brinca.
Parceiro de Luiz como letrista ao longo dos 127 álbuns gravados em 10 anos, o jornalista Cesar Rasec considera que o músico está em um patamar superior a artistas que chegaram ao estrelato.
"Na minha avaliação, Luiz Caldas é o maior artista da música brasileira, indiscutivelmente. Ele produz e toca tudo, transpira música 24 horas por dia", afirma.
Os dois se conheceram na década de 2000, quando Rasec escrevia uma matéria sobre Jorge Mautner e foi entrevistar Luiz. O repórter se encantou com o trabalho da fonte e acabou escolhendo a sua trajetória artística como tema da sua dissertação de mestrado em comunicação.
Às vésperas de completar 60 anos, no próximo dia 19 de janeiro, indicado para o Grammy latino no ano passado e com um estúdio dentro de casa, onde passa a maior parte do dia, Luiz Caldas trata seu ritmo alucinante de composição como um vício, a que se entrega docemente.
Um disco por mês
Ao explicar a decisão tomada há dez anos, de lançar um álbum por mês, praticamente, o homem que se tornou famoso nacionalmente cantando Fricote, descalço, com cabelos longos e roupas coloridas, diz que queria fazer em sua carreira algo que ninguém tivesse feito.
"A ideia inicial era lançar um álbum triplo. Mas eu pesquisei e vi que George Harrison já tinha feito. Pensei então em cinco álbuns, mas aí Rasec apontou que ficaram muitos ritmos de fora. Aí fizemos 10 álbuns com 13 músicas cada", explica Luiz.
Os álbuns estão todos disponíveis gratuitamente no site www.luizcaldas.com.br e, apesar de haver alguma monetização nas plataformas digitais, o músico afirma que a questão financeira não é um ponto relevante nesse projeto.
No site, há uma variedade de temas, incluindo um álbum cantado em tupi, no qual Luiz toca heavy metal. "A escolha do tema é sempre o mais difícil ", aponta o cantor, destacando que as músicas de um mesmo trabalho precisam ter alguma unidade para que o disco não vire um mosaico.
Ao longo de uma década, o projeto já teve a participação de Seu Jorge, Zeca Baleiro, Sandra de Sá, Walter Franco, André Abujamra e Moraes Moreira, com quem escreveu Oração aos Músicos.
A relação com Moraes, o recém-falecido Galvão e toda a turma dos Novos Baianos é um capítulo à parte na vida do músico. "Baby cantava canções que minha mãe cantava em casa. A explosão musical dos Novos Baianos, com a junção da música brasileira de raiz com o rock, é a mesma explosão que acontece comigo", afirma Luiz.
Nesse momento, o músico está preparando o disco 10 pontos, sobre os pontos do candomblé. "O disco abre com Exu, como tem que ser, depois tem uma homenagem a Oxalá e depois a Oxóssi, meu pai", diz o artista, abrindo caminhos para ser um sexagenário. Seis décadas do homem que emulava James Brown e sua sex machine (ou máquina do sexo, em inglês), e se tornou uma máquina de criar música.
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