“Lamentavelmente, vamos ter que encarar mais um São João à distância”, diz Elba Ramalho

Publicado segunda-feira, 21 de junho de 2021 às 06:02 h | Atualizado em 20/06/2021, 17:54 | Autor: Osvaldo Lyra

Uma das artistas mais completas do país e uma das vozes mais importantes do Nordeste, Elba Ramalho conhece muito bem o São João e a importância da festa para a região. Alem de fazer uma avaliação sobre a não realização dado festejos juninos esse ano, a paraibana é enfática ao defender a ciência e a vacinação e diz que nessa pandemia “ainda há tempo de a gente tentar reverter tanto ódio, tanta rispidez”. Às vésperas de completar 70 anos, a cantora reforça sua fé e diz que “é preciso olhar o outro com mais amor”. Confira esse papo exclusivo:

Elba, você que conhece tão bem o São João e a importância da festa para a região Nordeste, como avalia o segundo ano sem os festejos juninos?

Olha, essa situação é difícil, não só para a festa de São João, que é uma festa icônica, expressiva, de muita tradição, muita emoção, e muita beleza também. E que nós, nordestinos, eu diria que até brasileiros, porque eu vejo também o São João de outra maneira se manifestar por aqui, pela região Sudeste do Brasil. A gente está sendo privado de vivenciar uma coisa que é alegria. É a festa da alegria, a festa da fé, a festa da fartura, da família. Também vejo com aquela perspectiva de quem está olhando o mundo e está vendo que de repente o nosso barco entrou numa tribulação no mar. E a gente está esperando essa tribulação passar, as coisas assentarem. Então não adianta eu dizer “sinto muito, gostaria que tivesse, a gente deveria fazer”. Não, absolutamente. Eu preciso agir e pensar com responsabilidade. É uma saudade infinita de dançar um forró, de sair para a rua, de acender uma fogueira, de assar milho, de fazer adivinhações em casa, uma saudade imensa de ver o poeirão levantando. Mas de certa maneira precisamos nos adaptar às novas circunstâncias, lamentavelmente, e vamos ter que encarar mais um São João à distância. Como diz Alceu (Valença) “eu daqui, você de lá”, a gente não se sente só, porque a gente está unido nessa emoção, eu na minha casa, as pessoas nas casas delas, e as lives vão acontecer e o São João se vestiu com outra roupa.

Ano passado a gente já pôde matar um pouco da saudade da festa e da sua companhia através das lives que você fez. O que está sendo preparado esse ano para o São João de Elba Ramalho?

Com o mesmo carinho, com a mesma responsabilidade, fazendo um figurino bonito, pegando a banda, dentro das possibilidades que a gente tem, já não são 11 músicos no palco, mas um quinteto maravilhoso. Ajeitando o repertório, puxando uma daqui, lembrando outra dacolá, porque acabam sendo as músicas clássicas que a gente quer cantar, porque são as músicas que tocam o coração, músicas que eu gravei, são 40 anos de carreira, quase 40 discos, muito forró na parada, muita coisa pra ser lembrada, resgatada. Então eu espero que as lives aconteçam de forma bonita, principalmente a do dia 19 em Caruaru, dia 23 em Campina Grande, que é uma data especialíssima, eu sempre estive no palco. E que as pessoas possam arrastar o sofá da casa, não deixar de preparar a mesa com comida para poder entrar no clima. E se tiver segurança, com responsabilidade, fazer sua fogueirinha só para que o fogo queime esse vírus que está no ar e ele possa ir embora mais rápido.

Dia 23 vai ser um dia especial e você vai ter a companhia de outra paraibana, a Juliette Freire. Como foi o ensaio e qual está sendo a sua expectativa?

A minha expectativa é a melhor possível, eu estou muito feliz. Fiquei muito emocionada e honrada porque ao longo do programa ela pontuou algumas vezes a admiração que ela tinha na noite de São João, “olha pro céu meu amor”, ela até cantarolou, e ela entra, e aí os fogos tocam como se fosse o Réveillon. Parecia um sonho, e de repente era aquilo mesmo. Eu entro meia noite do dia 23 no palco de Campina Grande todos os anos e canto “olha pro céu, meu amor”, os fogos soltam, e a partir dali está decretado o viva São João, que é no dia 24. Eu recebi com muito carinho, fiquei até muito emocionada na hora, ela já havia me ligado para falar comigo, pra dizer que me admirava, ficou muito emocionada quando falou, choramingou um pouquinho, e eu vi que realmente o Nordeste é a alma da Juliette, como é a minha. Eu já estou no Rio há 40 anos, então a gente já tem aquele, não é desapego, é afastamento, porque vive numa outra cidade, mantém a tradição, mantém os costumes, mas temos uma rotina diferente. Ela não, ainda está muito forte essa coisa nela, o sotaque paraibano, o respeito pela música do Nordeste, o respeito pelos compositores, pelos artistas do Brasil. E isso foi muito bonito de ver na Juliette. Então nós ensaiamos aqui, ela chegou, já estava mais solta, já tinha cantado com o mestre Gil, então já estava mais segura. Temos que entender, ela não é cantora, ela tem uma voz linda, é afinadíssima, talentosíssima, vai ser uma grande cantora sim. Está começando muito bem, muito bem acompanhada, e com um bom gosto de repertório incrível. Então preparamos algumas coisinhas, eu até pressionei um pouco mais para ela cantar mais, mas dentro também do tempo dela, porque ela está muito solicitada, muito ocupada. Eu acho que vai ser lindo, a gente se abraçou muito e tem uma coisa ali já de mãe para filha.

Elba, quero saber também a sua avaliação sobre esse momento de pandemia. Como tem sido sua rotina nos últimos meses?

É, a coisa do estar em casa... A gente sempre sai e volta para casa, dessa vez a gente ficou em casa. Eu me senti muito confortável por poder curtir minha família, minha neta nasceu no início da pandemia, que foi abril de 2019, eu pude acompanhar todo o crescimento dela, porque meu filho mora aqui do lado, então a gente manteve a relação da família. Me protegendo de tudo, verdadeiramente, eu não tive muitos eventos. Eu ia ali na missa, que era online, ou eu ia pessoalmente, assistia à missa e recebia a eucaristia, enfim. São coisas que eu faço rotineiramente todos os dias. Tive que entender. Eu sou muito serena. Eu acho que é isso, é para viver isso, vamos superar essa dificuldade. Fui ninar a minha netinha, fui conviver com ela, e ofereci para ela o que eu não pude oferecer em tempo integral para os meus filhos. Então esse foi um bem na minha vida na pandemia. Por outra via, acompanhei de forma, assim, desolada, tantas mortes, muitas perdas, muita politicagem, muita sujeira, muita omissão, muita perseguição, muita verdade, muita mentira. Ou seja, o mundo virou meio de cabeça para baixo porque é uma coisa nova, é um vírus letal, agressivo. E a gente reza, eu sou uma pessoa que reza, para que a ciência, efetivamente, possa ter um desfecho feliz com relação à COVID-19.

Como você vê esse movimento pela vacina e se acha importante defender a ciência e tudo que ela defende?

Eu acho importante. A gente tem que defender a ciência. Eu peço a Deus que ilumine a ciência, pra que ela possa chegar acertadamente nas nossas vidas. Não só no caso da vacina, mas no caso de todas as outras enfermidades, no tratamento, seja ele precoce, seja pós, seja o que for, o tratamento tem que vir aí de uma forma certeira, justa, honesta. Eu acredito nos médicos, acredito na ciência e torço para que dê certo. Eu acho que é uma coisa de liberdade. Cada pessoa deve escolher se quer ou não quer, muitas pessoas têm comorbidades, muitas pessoas têm alergias, muitas pessoas têm justificativas e eu não sou aquela artista que fica na internet cobrando isso e aquilo das pessoas. Eu não acho justo, particularmente, não estou criticando ninguém. Cada pessoa tem o direito de se comportar do jeito que ela quiser. Eu acho que cada pessoa tem seu ponto de vista e deve seguir, porque se é para a gente retomar nossa vida, nossa rotina, nosso cotidiano, tomando a vacina, vamos tomar a vacina e seguir adiante, rezar para que volte o mais rápido possível. Acredito que a gente já está perto de chegar nessa vacinação em um número amplo que justifique o retorno às atividades.

O setor cultural e o entretenimento foram os primeiros a serem impactados e vão ser os últimos a retornar. Como avalia o impacto da pandemia sobre o setor?

É. A cadeia do entretenimento é uma das maiores empresas do mundo. Eu acho que é desastroso, é doloroso. Quem tem realmente uma condição financeira boa, um artista que pôde ter fundos para pagar suas contas. Precisamos nos proteger e esperar que as coisas se afirmem para que a gente possa retornar. Eu desejo imensamente que a gente retorne, porque eu tenho visto muitas pessoas sofrendo bastante por conta disso. Primeiro, pela ausência dos seus ídolos, dos seus artistas, da música, que é uma alegria, que é pacificadora, e também, vemos as dificuldades que os músicos têm enfrentado para sobreviver quase dois anos sem um salário, sem um dinheiro para pagar suas contas. Eu acho que a gente tem que pensar como fazer para amenizar impostos, alguma coisa assim, mas aí não é responsabilidade minha, eu estou só falando demais aqui.

Existe algum movimento de artistas para apoiar outros artistas?

Sim, eu mesma fiz várias lives, fiz vários depoimentos e tudo que me foi solicitado eu fiz. E acionamos o que era de conhecimento do empresário para poder conseguir amparo financeiro para os produtores e alguns músicos. Eu acho que aconteceu alguma coisa parecida. Eu acho que a classe se mobilizou, eu não só fiz como vi muitos artistas fazendo lives para financiar ajuda. Isso no começo foi empolgante, muita gente participava, o QR Code na tela, ia lá, fazia sua doação. Depois parece que virou uma rotina e isso tem funcionado pouco. Mas eu gostaria que as pessoas não esquecessem que essas pessoas ainda têm necessidade de se manter, de sobreviver, de pagar suas contas, e que se você solicitar através de um QR Code numa live uma ajuda para músicos, participe. Se cada pessoa der R$1, já está participando. Já ajuda.

No começo da pandemia, havia uma expectativa muito grande de que as pessoas iam se tornar melhores. As pessoas estão se tornando melhores na sua avaliação, Elba?

Por uma via, por um lado, sim. Eu gosto sempre de mediar. Porque eu não posso chegar aqui e dizer “não”. Eu acho assim, eu noto uma certa impaciência. Eu não gosto de algumas atitudes, que as pessoas utilizam suas redes sociais de forma acirrada, parece que virou uma guerra. Nós temos que nos amar, nós temos que nessa hora nos amparar, nos proteger, nos respeitar, compreender a opinião do outro, dizer “você pensa assim, mas eu penso assim, e nós não vamos fazer uma guerra, nem jogar uma farpa um no outro porque nós pensamos diferente”. Eu não sei se é o isolamento, não sei se é a dor, muitas pessoas estão tendo perdas e as perdas machucam. E o que eu acho é que o meu jeito de ver e de viver é de amar e perdoar. Eu jamais, por pior que a pessoa faça comigo, eu não vou revidar com a mesma moeda. Dai a César o que é de César, dai a Cristo o que é de Cristo. Então eu preferiria que o mundo entendesse que isso pode ser um ensinamento profundo, maravilhoso, inclusive, porque é na dor que a gente cresce. Pode olhar. Quando o mar está manso, timoneiro não precisa fazer esforço. O seu navio está indo porque o mar está manso. Quando o mar fica bravo, vai exigir muito mais competência, muito mais entrega, muito mais paciência. Então nessa pandemia ainda há tempo de a gente tentar reverter tanto ódio, tanta rispidez. Eu não sei. Eu sonho... A nova era, pra mim, ela deveria ter chegado com muita beleza, com muito amor, todo mundo se amando... Porque se nós cobramos igualdade em um setor, e somos desiguais no outro, a nossa política não está correta. Então eu sou do bem, eu sou da paz, eu acho que a gente tem que equilibrar. Por ser artista, eu particularmente jamais vou para a mídia para colocar um colega meu na arena.

Que as pessoas se tornem mais generosas e deixem de ser egoístas…

Sim. Que colaborem, também. Porque é o momento, é a hora de dar as mãos. Eu faço todos os dias pelo meu instagram um terço, que é o terço da misericórdia, pedindo a misericórdia. Muita gente vem, muita gente que nem tinha fé, muita gente que estava doente, muita gente tem participado disso de forma tão efetiva que me emociona. Através do terço, eu vou também soltando o desejo de que as pessoas saiam, levem alimentos, levem cestas básicas. Tem em várias cidades do Brasil alguns fãs que seguem, que rezam, criaram esse movimento. Milhares de cestas foram distribuídas, para pessoas carentes. Quando eu passei meu verão na Bahia eu também fiz um evento fechado, uma live fechada e ganhei tudo em alimento, distribuí na comunidade carente, distribuí máscara... Enfim, cada um deve se mexer, ser solidário com seu próximo. Todo dia aqui no Rio, não estou querendo puxar sardinha para mim não, porque quem dá uma mão esconde a outra, mas eu sempre saio e levo um monte de sanduíche no saquinho. Quando eu vou para a missa, que eu saio, sempre tem aqueles mesmos meninos que já me conhecem do sinal. Aí você vai amenizando. Naquela hora você alimentou alguém. Então é preciso olhar o outro com mais amor. O mundo está difícil. São muitas dores, você sabe disso. Estamos doídos, estamos com medo. E o medo é o maior inimigo da alma humana. Porque ele diminui a consciência do ser humano. Então eu sempre digo: tenha fé, não tenha medo. Vamos encarar, nos proteger. É preciso usar máscara? Vamos usar máscara. É preciso fazer a assepsia das mãos? Vamos fazer. É preciso respeitar o tempo e a história de não estar no coletivo? Vamos respeitar. Fazer tudo como manda o figurino direitinho, para depois a gente poder ter a possibilidade da liberdade plena.

E a sua relação com a Bahia, a sua relação com os baianos?

É uma relação maravilhosa, amorosíssima. Cara, por uma via eu tenho meu pezinho na Bahia, embora seja no sul da Bahia, que não é em Salvador, mas é a Bahia. Estou há 30 anos em Trancoso, tenho minha casa, meus amigos, minha comunidade lá que eu amo, e o jeito baiano de ser. Tenho meus amigos, Salvador é uma cidade que eu sempre visitei, fui casada com dois baianos. Quer dizer, isso me levou muito mais para Salvador. Tem várias cantoras poderosas daí que eu já estive perto delas em várias circunstâncias, vamos citar, Daniela, Margareth Menezes, Ivete, Tatau do Araketu. Eu teria que dizer um monte de gente aqui, Márcia Short, minha parceira, Saulo, super generoso, super amigo. Então assim, a Bahia é aquilo que a gente quer, não é. Tem o calor, tem a textura do dendê, tem o sol, tem a alegria, tem o sotaque, o jeito de ser baiano, as comidas, as delícias, tem o forró da Bahia maravilhoso, compositores incríveis, Cicinho, Del Feliz, Adelmário Coelho, Brown. Enfim. A Bahia é a Bahia, é um pedaço sagrado do Brasil. Gente maravilhosa. Gente da alegria. Gente que eu gosto.

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