TEATRO
50 anos do golpe: Dança dribla a repressão
Durante a ditadura militar (1964-1985), que cerceou as liberdades individuais e implantou a tortura, além de assassinar opositores do regime, a dança soteropolitana viveu um período de efervescência, com multiplicidade de estéticas, o que incentivou a profissionalização de vários trabalhadores da área.
A constatação é da coreógrafa Lia Robatto, professora aposentada da Ufba, que dedica-se à dança há mais de 50 anos.
"Na época da ditadura militar, o Grupo de Dança Contemporânea - GDC, por exemplo, conseguiu viabilizar uma produção expressiva, graças à ignorância dos censores, que não entendiam a linguagem simbólica, os códigos, as metáforas em favor da liberdade", frisou.
Lia conta que o Grupo Experimental de Dança (GED), criado por ela em 1965, um anos depois do golpe militar, conseguiu burlar a censura, tornando-se o primeiro grupo de dança profissional independente de Salvador.
Boca amordaçada
"Lembro que fizemos um espetáculo emblemático chamado Mobilização, em 1978. Nós ocupávamos todas as dependências do Teatro Castro Alves, com mais de 80 intérpretes", afirma.
"Basta contar que havia uma instalação, com um ovo dentro da gaiola, por exemplo, que simbolizava a ideia presa antes do nascedouro. Mas eles, os censores, não compreenderam esta mensagem, bem como outras", disse.
Segundo Lia, alguns intérpretes apresentavam-se com a boca amordaçada e seguravam, nas mãos, placas em branco, sinalizando a censura. É apenas um exemplo, entre outras estratégicas utilizadas, revelou.
Robatto, que nasceu em São Paulo e chegou a Salvador em 1957 para integrar o primeiro espetáculo de dança da Escola de Dança da Ufba, a convite da sua professora Yanka Rudzka, diz, entretanto, que isso não quer dizer que foi um período confortável : "A grande censura foi a desqualificação da cultura. Não existiam programas de apoios específicos para a área da dança".
Subsídios do governo
A pesquisadora e doutora da Ufba, Lauana Vilaronga Cunha de Araújo, que defendeu a tese de mestrado Estratégias Poéticas em Tempos da Ditadura: A experiência do Grupo Experimental de Dança de Salvador, faz um rico estudo representativo sobre este grupo baiano.
"Os espetáculos do GED, pela complexidade e ousadia de sua atuação em termos artísticos, estéticos e políticos, somados à aglutinação de artistas de teatro, música e artes visuais, conseguiram respeito e credibilidade dos setores governamentais, recebendo, muitas vezes, subsídios do governo estadual para suas montagens", afirma.
No artigo O Grupo Experimental de Dança e a ditadura militar em Salvador , que foi apresentado no VI Congresso de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas, em 2000, a pesquisadora destaca o panorama da dança na época.
Diferencial
"No campo artístico, linguagens como o teatro e as artes visuais foram duramente prejudicadas com os constantes cortes aos textos teatrais e fechamento de exposições, com a destruição ou recolhimento das obras", destaca o texto.
"(...) A realidade da dança se distingue desse contexto, uma vez que sua caracterização genuinamente corporal evitou, em muitos casos, a possibilidade de uma atuação severa do órgão de censura", revela.
A coreógrafa Conceição Castro, que criou o grupo Odundê na Escola de Dança da Ufba, no início da década de 80, confirma as informações de Lia Robatto quanto à postura da censura com relação à dança.
"Quando eu trabalhava com a expressão corporal para o teatro pude ver a atuação da censura, que muitas vezes coibia textos inteiros. Naquela época, a dança não sofreu realmente grande repressão", destaca Castro, professora aposentada da Universidade Federal da Bahia.
Matriz negra
A criação do Odundê, em 1981, teve muita importância, pois deu grande visibilidade à dança negra contemporânea, que já era muito forte nas ruas, nas festas populares e no Carnaval, mas era praticamente ignorada pela academia.
Nos palcos, por outro lado, grupos folclóricos, que serviam a interesses políticos governamentais, proliferavam.
A diretora da Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, Leda Muhana, uma das criadoras do Grupo Tran Chan, fundado em 1980, conta que os coreógrafos e dançarinos lançavam mão de estratégias para esquivar-se dos censores.
"Se no espetáculo havia cenas que faziam alusão à ditadura, na hora de apresentar aos censores suprimíamos. O mesmo acontecia nas cenas de nudismo".