LUTO
Ator acordou com pedidos de socorro de Zé Celso
Victor Rosa morava no apartamento do dramaturgo e entrou no quarto em chamas para resgatá-lo


Os gritos de socorro de Zé Celso Martinez são uma das últimas lembranças que o ator Victor Rosa tem do dramaturgo, morto na última quinta-feira, 6, aos 86 anos, após um incêndio que destruiu o quarto do apartamento onde morava, em São Paulo.
Victor, de 23 anos, morava no apartamento e foi o primeiro a acordar com os pedidos de ajuda em meio às chamas que causaram as queimaduras. Ele conta que passou o dia do incêndio no teatro, onde foi acompanhar uma equipe de filmagens no prédio.
Só retornou para o apartamento no Paraíso, Zona Sul de São Paulo, na madrugada. Zé Celso já havia se recolhido e nos outros cômodos descansavam o viúvo do dramaturgo, Marcelo Drummond, e o ator Ricardo Bittencourt. Victor morava na mesma unidade de Zé, a 63. Marcelo e Ricardo estavam no 62, apartamento vizinho.
"Quando eu cheguei o Zé já estava no quarto com a porta entreaberta, mas já se preparando para dormir. Acho que nem dei boa noite, porque ele já estava quase deitado e fui dormir. Tava muito cansado. Acordei já com o Zé gritando por socorro."
Zé sentia frio naquela noite, e tinha o hábito de colocar o aquecedor perto da cama, segundo o ator. A suspeita é que o aparelho tenha causado as chamas. Na noite do incêndio, terça-feira, 4, a cidade de São Paulo registrou 9,8°C na madrugada, uma das mais frias de 2023.
Segundo a conclusão do perito Fábio André Massa, do Instituto de Criminalística, não foi possível identificar a causa, mas análises "levaram o relator a admitir como viável a possibilidade" de o incêndio ter sido iniciado pelo aquecedor em contato com tecido, espuma ou madeira.
Nas primeiras horas da manhã, Victor correu para o quarto de Zé Celso. Já havia grande quantidade de fumaça e o dramaturgo machucado tentava deixar o cômodo.
"Eu não enxergava nada, só a silhueta na fumaça, tentando sair [do cômodo] com andador. Chamei os meninos que dormiam nos outros quartos e tentei com cuidado puxar o Zé para sala. Não sei como eu queimei as minhas mãos, se foi nele ou se toquei em algo", afirmou.
"Comecei arrastar Zé pelo chão. Estava pesado e estava difícil, porque eu estava com as mãos queimadas, doendo. Queria levar para longe do fogo".
Um vizinho conseguiu ajudar a retirar Zé e todos ficaram no hall. Victor voltou ao apartamento ao menos outras duas vezes para tentar salvar Nagô, o cachorro de estimação de Zé Celso. "Deve ter ficado com muito medo e se escondido no quarto do Marcelo, talvez embaixo da mesa. Não consegui chamar ele e saí do apartamento. Entrei de novo uma vez para tentar apagar um pouco do fogo."
Com a chegada dos bombeiros, Zé foi levado ao hospital em estado grave e os outros três moradores não tinham informações sobre Nagô. Depois se serem ouvidos pela polícia e receberem cuidados, chegou a informação de que Nagô estava em um corredor do prédio, e sem ferimentos.