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CULTURA

Diferentes gerações do grafite na Bahia cobram respeito por meio da arte

Euzeni Daltro

Por Euzeni Daltro

11/12/2019 - 11:05 h | Atualizada em 21/01/2021 - 0:00

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Em Cajazeiras, há diversos grafites de Nikol; a maioria traz o nome dele | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE
Em Cajazeiras, há diversos grafites de Nikol; a maioria traz o nome dele | Foto: Felipe Iruatã | Ag. A TARDE -

O “Ebó de tinta” de Lee, 40 anos, carrega a luta contra o ódio religioso. No colorido e na complexidade dos traços de Nikol, 31, a essência do grafite e a alegria de quem pinta brincando, mas também exige valorização. E nas diversas faces de Zorêa, a personagem de Quel, 26, a luta contra o racismo e pela representatividade negra. Três gerações do grafite da Bahia. Três estilos diferentes. Cada um a seu modo, eles fazem ecoar dos muros os gritos por respeito e igualdade.

Lee 27 é a assinatura artística de Josenildo Silva Mendes. Há 26 anos no meio, Lee conta que começou na pichação, aos 14 anos, e, no processo, aprendeu também a grafitar, tanto letras, quanto personagens. No início, as criações dele giravam em torno de personagens. Primeiro um cachorro, depois um leão. Católico fervoroso, Lee também retratava passagens de textos bíblicos, no seu começo.

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Em meados de 2004, ele pintou os orixás Oxóssi e Xangô nas paredes do terreiro de candomblé do qual passou a fazer parte naquela época, na cidade de São Félix, no Recôncavo Baiano. Daí em diante, não parou mais e fez da representação do axé e do combate ao ódio religioso sua arte.

“Quando eu vou para a rua pintar um Exu, escrever um Exu, eu estou combatendo o ódio religioso. As minhas pinturas são de combate ao ódio religioso. É tanto que minhas pinturas eu dou o nome de ‘Ebó de tinta’, que são os meus presentes. A palavra Ebó quer dizer presente. Os meus presentes para os orixás, os inquices, os voduns é justamente esse. É minha arte. É eu me doar como um religioso para eles, só pintar o que eles desejam que seja retratado”, ressalta o grafiteiro.

Nikol é conhecido no meio como o tradicional demais, aquele que não aceitou mudar, não aceitou sair da letra para o personagem ou até mesmo passar a fazer também personagem. Mas o que nem todo mundo sabe é que ele começou no grafite, em Cajazeiras, fazendo desenhos e migrou para a letra após descobrir que o grafite tem origem nas letras. Na época, ele tinha apenas 17 anos.

“Eu fui estudar o que eu estava fazendo, fui buscar o que é grafite. Nessa busca, eu vi que o grafite foi fundado por letra. Então, eu vi que era isso o que eu queria fazer. E até hoje eu permaneço na letra”, conta o artista, cujo nome de batismo é Clatizafan Santos de Carvalho.

Nikol explica que o seu trabalho faz parte do estilo Wildstyle. “É um estilo selvagem e a temática é justamente a letra ser trançada e confundir até para o próprio grafiteiro conseguir enxergar as letras”, explica ele, que começou na pichação aos 14 anos. “A minha fonte de escrita é a pichação de Salvador. Eu peguei a minha letra da pichação e transformei no meu estilo de grafite. Eu consegui colocar a minha escrita de Salvador do meu estilo de trabalho até hoje no grafite. Alguns chamam até de pichação colorida”, completa Nikol.

Quel segue o estilo de grafite de personagem. A personagem dela se chama Zorêa. E é com ela que Quel busca contribuir para conscientizar a sociedade sobre a importância de passar a enxergar com normalidade, com naturalidade, o fato de negros, sobretudo as mulheres negras, ocuparem lugares de destaque. “Acho que tem que chegar ao nível de ser normal a gente olhar e não estranhar mais uma Maju Coutinho no jornal, uma Taís Araújo fazendo papel de rica. A gente precisar tornar isso normal”, defende Quel, que tem por nome de batismo Quezia Silveira.

Imagem ilustrativa da imagem Diferentes gerações do grafite na Bahia cobram respeito por meio da arte
| Foto: Raphael Müller | Ag. A TARDE
Algumas faces da personagem de Quel podem ser vistas na Boca da Mata | Foto: Raphael Müller | Ag. A TARDE

Quel conta que desde quando começou a pintar, em 2015, sua personagem passou por diversas mudanças – algo comum no grafite – mas o que nunca mudou foi a sua vontade de colocar na parede uma personagem na qual ela e outras pessoas com os traços em comum se enxergassem. “Eu só quero que a gente esteja. Porque a gente está em tudo, mas nem em tudo a gente está representado, por mais que a gente esteja ali construindo”, completa.

Homenagem para Irmã Dulce

A luta contra o ódio religioso de Lee não se restringe às religiões de matriz africana. No mês passado, por exemplo, ele fez um grafite de Santa Dulce em um dos muros da Rua E, em Castelo Branco. “É uma homenagem para Irmã Dulce. Eu falei para minha mãe que, se um dia eu fosse escolher venerar uma santa católica, seria Irmã Dulce. Escolhi pintar Irmã Dulce por ser uma santa baiana e uma mulher retada, que abdicou de muita coisa para fazer o que fez”, afirma o grafiteiro. “Pintar Irmã Dulce é você bater de frente com os neopentecostais que falam que ela não presta, que é coisa do diabo. Até os católicos sofrem também com a questão do ódio religioso”, diz ele.
Imagem ilustrativa da imagem Diferentes gerações do grafite na Bahia cobram respeito por meio da arte
| Foto: Filipe Augusto | Divulgação
Lee grafita a santa baiana, na Rua E, em Castelo Branco | Foto: Filipe Augusto | Divulgação
Ver-se para existir
A personagem criada por Quel sempre trouxe traços inspirados na bela negra. “Eu gosto que ela tenha traços negroides, nariz largo, boca larga. Eu sempre soube que iria pintar isso porque eu sempre desenhei isso, mas eu comecei a entender a necessidade dessa representação porque eu moro em uma cidade onde a maioria das mulheres são assim, têm traços assim. E, quando a gente vai procurar essas representações nos lugares, só encontra em situações específicas”, afirma a artista.
“Eu penso mesmo na questão de representar no sentido de a pessoa entender que precisa existir, que ela precisa se ver. Porque se a gente não se ver é como se a gente não existisse”, completa. Apesar de ter sido criada há mais tempo, a personagem de Quel passou a ter um nome há apenas dois anos. Ela tinha dificuldade em ‘batizar’, pois idealizava algo conceitual, que traduzisse um pouco a sua arte. Mas, há dois anos, quando participava de um evento sobre grafite no interior do estado, uma criança olhou para a personagem e disse: “Olha as ‘zorêa’ daquela ali”, referindo-se às orelhas grandes da figura. Assim, nasceu a “Zorêa”.
Mais valorização
Nikol é um grande crítico da forma como parte da sociedade e os próprios artistas enxergam o grafite. “Tem muita coisa que precisa ser mudada. Os artistas precisam se valorizar mais, a sociedade precisa abraçar mais. Nossos governantes precisam entender mais sobre o grafite. Os contratantes precisam saber mais o que é grafite para valorizar mais”, defende Nikol. Ele afirma que é comum usarem o argumento de que o grafiteiro pinta na rua de graça para questionarem o orçamento de um trabalho.
Além disso, outra cultura ainda muito comum é a oferta de “doação” do muro para divulgação do trabalho como pagamento. “Até hoje batem nessa mesma tese, ‘eu vou dar a parede e vocês divulgam o trabalho de vocês’. Então, se for assim, eu vou dar meu pai doente para o médio operar e vou falar pra todo mundo quem foi o médico que operou”, revolta-se. “E, infelizmente, os próprios grafiteiros vão e aceitam isso. Às vezes, não cobram cachê. A pessoa chega e fala ‘Eu boto um feijão e lhe dou as tintas’. Um cobrou R$ 5 mil e o outro vai lá e pinta por R$ 300 de spray e um churrasco com duas caixas de cerveja. Então, se a gente não se valoriza, quem vai valorizar? É meio complicado”, finaliza.

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