CULTURA
Diferentes gerações do grafite na Bahia cobram respeito por meio da arte

O “Ebó de tinta” de Lee, 40 anos, carrega a luta contra o ódio religioso. No colorido e na complexidade dos traços de Nikol, 31, a essência do grafite e a alegria de quem pinta brincando, mas também exige valorização. E nas diversas faces de Zorêa, a personagem de Quel, 26, a luta contra o racismo e pela representatividade negra. Três gerações do grafite da Bahia. Três estilos diferentes. Cada um a seu modo, eles fazem ecoar dos muros os gritos por respeito e igualdade.
Lee 27 é a assinatura artística de Josenildo Silva Mendes. Há 26 anos no meio, Lee conta que começou na pichação, aos 14 anos, e, no processo, aprendeu também a grafitar, tanto letras, quanto personagens. No início, as criações dele giravam em torno de personagens. Primeiro um cachorro, depois um leão. Católico fervoroso, Lee também retratava passagens de textos bíblicos, no seu começo.
Em meados de 2004, ele pintou os orixás Oxóssi e Xangô nas paredes do terreiro de candomblé do qual passou a fazer parte naquela época, na cidade de São Félix, no Recôncavo Baiano. Daí em diante, não parou mais e fez da representação do axé e do combate ao ódio religioso sua arte.
“Quando eu vou para a rua pintar um Exu, escrever um Exu, eu estou combatendo o ódio religioso. As minhas pinturas são de combate ao ódio religioso. É tanto que minhas pinturas eu dou o nome de ‘Ebó de tinta’, que são os meus presentes. A palavra Ebó quer dizer presente. Os meus presentes para os orixás, os inquices, os voduns é justamente esse. É minha arte. É eu me doar como um religioso para eles, só pintar o que eles desejam que seja retratado”, ressalta o grafiteiro.
Nikol é conhecido no meio como o tradicional demais, aquele que não aceitou mudar, não aceitou sair da letra para o personagem ou até mesmo passar a fazer também personagem. Mas o que nem todo mundo sabe é que ele começou no grafite, em Cajazeiras, fazendo desenhos e migrou para a letra após descobrir que o grafite tem origem nas letras. Na época, ele tinha apenas 17 anos.
“Eu fui estudar o que eu estava fazendo, fui buscar o que é grafite. Nessa busca, eu vi que o grafite foi fundado por letra. Então, eu vi que era isso o que eu queria fazer. E até hoje eu permaneço na letra”, conta o artista, cujo nome de batismo é Clatizafan Santos de Carvalho.
Nikol explica que o seu trabalho faz parte do estilo Wildstyle. “É um estilo selvagem e a temática é justamente a letra ser trançada e confundir até para o próprio grafiteiro conseguir enxergar as letras”, explica ele, que começou na pichação aos 14 anos. “A minha fonte de escrita é a pichação de Salvador. Eu peguei a minha letra da pichação e transformei no meu estilo de grafite. Eu consegui colocar a minha escrita de Salvador do meu estilo de trabalho até hoje no grafite. Alguns chamam até de pichação colorida”, completa Nikol.
Quel segue o estilo de grafite de personagem. A personagem dela se chama Zorêa. E é com ela que Quel busca contribuir para conscientizar a sociedade sobre a importância de passar a enxergar com normalidade, com naturalidade, o fato de negros, sobretudo as mulheres negras, ocuparem lugares de destaque. “Acho que tem que chegar ao nível de ser normal a gente olhar e não estranhar mais uma Maju Coutinho no jornal, uma Taís Araújo fazendo papel de rica. A gente precisar tornar isso normal”, defende Quel, que tem por nome de batismo Quezia Silveira.

Quel conta que desde quando começou a pintar, em 2015, sua personagem passou por diversas mudanças – algo comum no grafite – mas o que nunca mudou foi a sua vontade de colocar na parede uma personagem na qual ela e outras pessoas com os traços em comum se enxergassem. “Eu só quero que a gente esteja. Porque a gente está em tudo, mas nem em tudo a gente está representado, por mais que a gente esteja ali construindo”, completa.
Homenagem para Irmã Dulce

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