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Djavan faz dois dias de shows na Concha

Publicado terça-feira, 19 de julho de 2016 às 07:26 h | Atualizado em 18/07/2016, 19:27 | Autor: Daniel Oliveira
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Lá no início dos anos 1970, diziam que a música dele era estranha. Sob esse argumento, o jovem alagoano Djavan, recém-chegado ao Rio de Janeiro, encontrou as portas das gravadoras fechadas para o seu trabalho. "Não sabia o que isso representava. Fazia o que eu sabia fazer, do modo que gostava", conta. Após surpreender críticos e colegas artistas na defesa do samba Fato Consumado no Festival Abertura da Rede Globo, em 1975, ele teve a oportunidade de lançar o seu primeiro disco cheio, A Voz, o Violão, a Música de Djavan.

Passaram-se mais de quatro décadas. O cantor e compositor tem a mesma postura ao tratar da sua criação. "Continuei fazendo tudo como sempre quis fazer. Cheguei assim até aqui". O foco é na mistura, eflúvio da música brasileira. No imenso balaio sonoro  de Djavan cabem samba, blues, funk, baião, jazz, balada e mais. 

A cada novo álbum, essa característica é reiterada. Portanto, não seria diferente em Vidas pra Contar (o seu 23º), lançado em turnê no início de 2016. O show com base nesse trabalho finalmente será apresentado em Salvador,  depois de passar por dezenas de cidades. E, melhor, em dose dupla, sábado e domingo, às 19 horas, na Concha Acústica do Teatro Castro Alves. "Essa obra obedece à evolução natural da minha discografia, de mexer com vários gêneros e tendências. A busca pela novidade me encanta. É um desafio constante que me move. E no show tem uma forte interação", diz.

No roteiro estão sete das doze faixas do novo disco, entre elas a forte candidata a hit  Só Pra Ser o Sol, a cheia de nuances Se Não Vira Jazz e a balada Encontrar-te, além de clássicos, como Eu Te Devoro, Acelerou e Sina. A banda que acompanha o cantor é composta por Carlos Bala (bateria), Marcelo Mariano (baixo), Jessé Sadoc, Marcelo Martins (sopros), Paulo Calasans (teclado e piano) e João Castilho (guitarras e violões).

Logo após a reinauguração da Concha,  em maio, a diretoria do TCA e a produção do músico chegaram a negociar a gravação do DVD da turnê em Salvador. No entanto, os planos  mudaram: "A gente está questionando essa coisa do DVD, porque hoje gastamos uma fortuna para fazer e esse dinheiro não volta. Não se vende mais nada. Tudo é baixado de graça na internet. Mas iremos fazer algum registro", revela. 

Reservado e autobiográfico

Embora dono de sucessos radiofônicos e exímio vendedor de discos, Djavan é cada vez mais avesso ao show business e preza por uma vida extremamente reservada. "É assim desde o início. Nunca fui de aparecer. Até certo momento, de tudo que você faz na carreira 50% não precisava ser feito, porque não te ajuda muito, ajuda mais quem te chamou. E agora tenho feito muita coisa que adoro, levo filho na escola, vou à reunião de pais".

Porém, nas letras de Vidas pra Contar, Djavan se expõe como nunca. O título, aliás, não é despropositado.  "Sou bem mais biográfico nesse disco. Sempre priorizei inventar, criar situações nas quais as pessoas se identifiquem ou não, e nesse é diferente". A relação com a mãe, primordial na sua trajetória, é revelada na faixa Dona do Horizonte, que também faz parte do repertório do show. Ela o apresentou às cantoras brasileiras Angela Maria e Dalva de Oliveira, que, segundo o próprio músico, contribuíram na delineação do seu canto.

Revisitando a origem

No baião Vida Nordestina, composição recente e que também integra o espetáculo, Djavan exalta a região do país, a qual deixou na juventude em busca de um lugar ao sol nas gravadoras do Rio. Ele acredita que, com essa canção, aproxima-se mais de sua origem. "Resolvi falar da religiosidade, da fraternidade do povo nordestino, do sofrer, da beleza das pessoas e dos folguedos folclóricos. Exatamente para me recolocar nessa conjuntura que me formou", afirma o artista, que há seis anos consecutivos vai passar o Natal em Maceió.

Nesse período,  ele fica em média 20 dias na capital alagoana, mata a saudade da terra, encontra parte da família e acompanha de perto o seu time, o CSA, do qual foi jogador na adolescência. Também observa com atenção a realidade social da região e viaja pelo interior e litoral. Ao abordar o sertão nordestino, demonstra preocupação: "Ainda é a região do Brasil que evolui com mais dificuldade e onde a política é mais predatória, porque é preciso que haja sofrimento para que o povo viva a mercê dos coronéis".

Tímido e contemplativo, Djavan valoriza muito os raros momentos "extra trabalho". Cria ideias para projetos arquitetônicos pessoais e de amigos, ouve novos sons no carro, de acordo com ele,  "o único momento em que é possível escutar os lançamentos", e cuida do jardim da sua casa. Apesar da conexão essencial e prioritária com a música, ele não descarta, no futuro, incluir na sua já vasta produção a literatura.

"A escrita me seduz muito. Acho  pouco provável que não me debruce sobre ela para produzir um livro de  romance, de poesias ou de crônicas. Tenho facilidade de inventar. Vou ter que arranjar uma maneira de fazer tudo isso", completa.

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