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RAIZ BAIANA

Entrevista exclusiva: Loulu Gilberto lança músicas inéditas do pai

Aos 21 anos, cantora carioca resgata herança musical baiana de Juazeiro e faixas inéditas deixadas pelo pai em projeto sofisticado

Jair Mendonça Jr
Por
Luísa Carolina Gilberto, a Loulu
Luísa Carolina Gilberto, a Loulu - Foto: Divulgação

O silêncio que se instalou na vida de Luísa Carolina Gilberto, a Loulu, após a partida de seu pai, João Gilberto, em 2019, durou o tempo necessário para que a dor se transformasse em celebração. Aos 21 anos, a filha caçula do definidor da bossa nova com a jornalista Cláudia Faissol faz sua estreia no mercado fonográfico com o álbum "Loulu Gilberto" (Sony Music).

álbum "Loulu Gilberto"
álbum "Loulu Gilberto" - Foto: Divulgação

Muito além de um tributo formal, o projeto é uma imersão na intimidade de uma das casas mais musicais do Brasil. Sob a produção de Cézar Mendes e Mario Adnet, Loulu resgata de standards americanos a sambas-canção, incluindo cantigas de ninar e faixas folclóricas com o DNA baiano de Juazeiro.

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Em entrevista exclusiva ao Portal A TARDE, a cantora relembra o processo de cura através da arte, a precisão rítmica herdada do pai e os bastidores curiosos de uma infância embalada por acordes geniais, jogos do Vasco e lutas de MMA.

Confira a entrevista

Luísa Carolina Gilberto
Luísa Carolina Gilberto - Foto: Divulgação

A TARDE: Você mencionou que seu pai te ensinava sambas antigos jamais gravados como um 'presente'. Como foi o processo de decidir quais dessas joias íntimas deveriam ser reveladas agora e o que ficou guardado?

Loulu Gilberto: Eu sempre brinco que por mim esse disco teria 35 faixas e duas horas e meia. Foi uma tarefa difícil, mas tive ajuda de alguns consultores: os produtores do disco, Mario [Adnet] e Cezinha [Mendes], e o diretor artístico da parte visual, João Paulo Daniel. Ficamos um ano batendo bola, ponderando sobre o repertório. Eu tinha algumas canções muito bem cravadas na memória, como "Cuidado com o Andor" e as estrangeiras "Tea for Two" e "Mr. Sandman". Quanto a essas não houve dúvida. Algumas outras estavam escondidas sob o fino véu do esquecimento. Quando começamos a busca, elas se desvelaram lindamente. "Dorme Que Eu Velo por Ti" foi assim: quando ouvi, já sabia. Aquilo me era estranhamente familiar. Eu sabia, mas não sabia que sabia.

A TARDE: O disco traz 'Bicho Curutú', que tem versos originais de João sobre motivos folclóricos da Bahia. Como essa raíz baiana do seu pai, de Juazeiro, influenciou a sua percepção musical e o tom solar que o álbum apresenta?

Loulu: Essas são raízes que muitas vezes não posso ver, nem ao menos nomear, mas que sinto em mim. Foram elas que moldaram meu modo de cantar e, principalmente, de ouvir. O maior presente que recebi do meu pai foi o ouvido. Ele tinha muito zelo, muito cuidado nas canções que me cantava. Hoje vejo que era um projeto muito bem arquitetado de formação que ele passava ali no canto. O tom solar do disco veio naturalmente, pois é como guardo a memória dele. A gente tem essa coisa de falar com pesar da morte de um ente querido, mas isso é totalmente cultural. No México, quando parte alguém, é a maior festa; a morte é uma celebração da vida. Aprendi a encarar assim. Ao cultivar a memória dele em mim, mantenho-o vivo, sempre por perto.

A TARDE: Você parou de cantar após a partida dele em 2019. O que exatamente, no reencontro com o violão do Cézar Mendes, te deu a certeza de que era a hora de transformar o luto em música?

Loulu: Quando aconteceu, eu era nova, fui entristecendo sem saber muito porquê. Bem, eu no fundo sabia, mas custava a admitir que era verdade. Sentia falta de cantar e, sobretudo, sentia muita falta de papai. Fui atrás do Cezinha, que por procuração dele [de João] viria a ser meu professor. O Cezinha disse que não dava aulas de canto, e sim de violão. Eu não queria — ainda não, tinha medo. Queria cantar. Ele naturalmente cedeu e passou a me dar aulas de canto; no início era só isso. Não tardou a ficarmos amigos para além das aulas. Conversávamos sobre tudo. Eu contei a ele dos sambas antigos. Ele ficou fascinado, não conhecia. O tempo foi passando e minha vontade de cantar só aumentava. Um dia disse: basta. Cortei os cabelos, marchei lá dentro de mãos dadas com o JPD (meu cúmplice e parceiro de crime) e disse: quero ser cantora.

A TARDE: Ouvindo o disco, percebe-se a precisão das divisões rítmicas do seu pai, mas com uma personalidade muito sua. Como você trabalhou para honrar a técnica dele sem deixar que ela anulasse a sua própria identidade como artista?

Loulu: Isso de divisão rítmica é engraçado, porque eu aprendi a cantar assim. Só fui descobrir o que era isso tecnicamente quando, já mais velha, comecei a estudar música mais formalmente. Eu, na verdade, já sabia, mas não sabia que sabia. Ele me passou isso de brincar com a canção. É natural para mim, uma parte intrínseca da minha identidade como artista e intérprete.

A TARDE: A inclusão de standards como 'Tea for Two' e 'Mr. Sandman' mostra um lado muito lúdico. Era esse o ambiente doméstico de vocês? Uma mistura constante de samba-canção e jazz americano?"

Loulu: Era uma casa com muita música, muito amor. Tinha de tudo, samba, jazz, baião, forró, marchinha, se bobear até foxtrot. Tudo isso com o UFC ou o jogo do Vasco passando na TV sem som ao fundo.

Escute o albúm clicando aqui

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