ESPETÁCULO
Espetáculo traz reflexão sobre o direito à fragilidade da mulher
Força da mulher preta é posta em questionamento no espetáculo Memórias Povoada

Solidão e vulnerabilidade da mulher preta são dois temas que têm norteado as discussões sobre negritude na contemporaneidade, sobretudo em Salvador, tida como a cidade que concentra a maior comunidade negra fora da África no mundo.
Pois é justamente para falar dessas questões que está em cartaz no teatro Sesi Rio Vermelho a peça Memórias Povoadas. Hoje e amanhã, às 20h, o público pode assistir às duas últimas apresentações, sempre com o bem-vindo bônus de meia entrada para as mulheres pretas.
Com direção da atriz e museóloga Cássia Valle, a peça foi montada pela primeira vez em setembro do ano passado e a ideia é tratar do sagrado feminino e da visão da mulher preta – aquela a quem é negado o direito à fragilidade, à desistência – como uma eterna fortaleza.
“Através de uma colcha de retalhos de memórias, a peça põe em evidência o sagrado feminino negro. Em cena, atrizes trazem relatos de mulheres cansadas de terem que lidar com o peso do mundo nas costas e estarem prontas para lutar a qualquer momento. É cruel o que fizeram conosco. Deram um título de guerreira, mas por trás disso há um desejo de nos coisificar”, acredita Cássia.
Ainda para a diretora, o propósito do espetáculo é questionar a imagem estereotipada das mulheres pretas. Alertar que essa visão de domínio de sua força, física e intelectual, prejudica a saúde mental dessas mulheres e as mantém na base da pirâmide social, afinal, de acordo com o imaginário popular, elas podem suportar tudo.
Sagrado e ancestral
Memórias Povoadas também fala de ancestralidade, tratando do sagrado que há séculos é passado de geração em geração – de mãe para filha, de avó para neta.
Com a reformulação da história, tem se provado que mulheres pretas sempre transmitiram suas memórias, através da oralidade, e fazem parte das mitologias afrodiaspóricas que compõem a identidade do povo brasileiro desde tempos imemoriais.
Calcado nessas premissas, Cássia acredita que a peça tem um grande chamado para a reflexão. “Fazemos uma referência às nossas ancestrais, aos nossos passos que vêm de longe. Sabemos que para andar pra frente com a cultura africana, a gente não pode andar sem olhar pra trás”.
Criado coletivamente, o texto é resultado de uma oficina de escrita criativa promovida pelo grupo. E inspirado no conceito de teatro instalação, durante a encenação, o público será convidado a participar de uma experiência interativa com o intuito de construir a própria narrativa.
“A gente tem uma relação muito importante com o sensorial. Imagens e artes cênicas são bases complementares da composição artística. O público experimentará a diluição das fronteiras entre começo, meio e fim do espetáculo”, detalha a diretora.
E avisa que a plateia não precisa necessariamente participar em cena. “A gente quer convocar ela para participar nas próximas ações, a partir das reflexões que são provocadas”.
Resistência
Andréia Anjos, Anne Cardoso, Cilene Ribeiro, Daniel Vieira (Nine), Luane Souto, Thalia Anatália, além de Rejane Maya (participação especial), compõem o elenco da peça.
“Não diria que tenho uma personagem exatamente, porque essa é uma peça-instalação, onde o texto é construído meio que em um quebra-cabeça de histórias”, detalha Luane Souto, que interpreta várias mulheres.
E complementa, dizendo que “quando a gente pensa em um mundo melhor, a gente precisa pensar na base, nos fundamentos que fazem esse conjunto social no qual estamos inseridos. E não há como fazer isso sem refletir sobre a importância e o papel das mulheres pretas na construção e reconstrução da nossa sociedade”.
Já Andréia Anjos, responsável por dar vida a uma personagem que passeia entre a ancestralidade e a contemporaneidade, alerta: “é importante falar que, apesar dela ter um corpo resistente, essa mulher preta também quer ser cuidada e poupada. Quer ganhar flores, beber vinhos, comer bombons, ser respeitada e amada”.
E diz ainda que “é lamentável concordar que a condição de raça e gênero impacta de modo negativo nas nossas experiências de vida e que isso, em alguns momentos, nos paralisa. Mas o vento tem muitas direções, ele nos conecta, espalha nossas vozes e ecoa nossa importância na construção da sociedade. Continuaremos seguindo, lutando pelos nossos espaços, saudando nossas ancestrais e respeitando quem divide essa caminhada conosco. Resistir é a melhor forma de ser lembrada”, finaliza Anjos.
Além de Cássia na direção, Memórias Povoadas tem ainda co-direção e direção musical de Cell Dantas, criação artística e coreografia de Ednaldo Muniz, iluminação a cargo de Rivaldo Rio, cenografia de Rafael Bittencourt e é uma realização da Pé de Erê Produções.
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