Busca interna do iBahia
HOME > CULTURA

ARTE

Exposição em Salvador revela mitos amazônicos em bordados; conheça

Pesquisa de campo na Amazônia inspira mostra de Gleciara Ramos sobre ancestralidade, cosmogonias indígenas e resistência feminina

Chico Castro Jr.
Por Chico Castro Jr.
Gleciara Ramos revela mitos amazônicos em bordados
Gleciara Ramos revela mitos amazônicos em bordados - Foto: Filipe Macedo | Divulgação

Entre 2018 e o início deste ano, a artista visual carioca Gleciara Ramos empreendeu uma pesquisa de campo percorrendo diversas localidades pela Amazônia, Bahia e Andes Peruanos, passando especialmente pelos seus rios e lagos, em busca de um “encontro entre as culturas originárias, maternas” e suas relações com as terras onde habitam.

O resultado está em Iramaia e o Encontro das Águas, uma exposição que abre nesta quinta-feira, 21, às 19h, no Museu de Arte da Bahia (MAB), um livro e uma videoinstalação.

Tudo sobre Cultura em primeira mão! Compartilhar no Whatsapp Entre no canal do WhatsApp.

A exposição reúne instalação de bordados e tecituras, que será lançada junto com o livro de mesmo nome e um documentário, que aborda as cosmogonias (narrativas míticas, religiosas ou filosóficas que explicam a origem e a organização do universo), os lugares e as etnias da pesquisa pelos rios e lagos da Amazônia e Andes Peruanos.

A pesquisa de Gleciara se iniciou na remota Nhamundá, no Amazonas, onde fica o lago Espelho da Lua, local cheio de mistérios, onde, segundo a tradição oral, as mulheres confeccionavam, a partir da argila que lá se encontra, o muiraquitã, um amuleto indígena.

“Lá eu comecei a bordar essas histórias. Então, são bordados que contam um mito sobre a luz e a sombra, desde as icamiabas (míticas guerreiras amazonas, que ali viviam em uma sociedade matriarcal). É uma história muito importante, era um aldeamento de mulheres que se aquilombaram e resistiram para não serem diminuídas nas suas funções pelos diversas povoamentos e etnias que existiam por ali”, relata Gleciara.

Bordado de Gleciara Ramos
Bordado de Gleciara Ramos - Foto: Divulgação

Segundo Gleciara, elas se defendiam do Império Inca, presente nos Andes e na Amazônia Peruana, que queria domina-las a qualquer custo. “Era o embate entre uma cultura paleolítica e uma cultura neolítica, entre um matriarcado e uma cultura que acumula riqueza, que era o Império Inca”, conta.

Com o tempo, a influência dos Incas nos povos próximos às icamiabas acabou por enfraquecer as guerreiras. “Então tudo isso fez com que algumas mulheres fossem sendo retiradas do seu poder ancestral, do comando da própria tribo. Os meus bordados falam sobre isso. São 12 instalações de bordados que contam essas histórias sobre a lua, essas histórias das mulheres amazônicas”, descreve.

Além do racional

O livro e o documentário são desdobramentos dessa mesma pesquisa empreendida pela artista. “A tecitura dos bordados me fez pensar no texto, me conduziu por pensamentos mais profundos do que a mera racionalidade. E esses pensamentos mais profundos, ao navegar pelos rios da Amazônia, me trouxeram a escrita. Então, o livro tem essas histórias e reflexões em crônicas e ensaios”, conta.

“Já o documentário, intitulado Pachamama, a mãe do Tempo e Espaço, que nos ensina a tecer nossas Roupas da Terra, traz as imagens desses lugares e dessas cosmogonias que o Sérgio Zumby, o cinegrafista que me acompanhou, fez esses registros todos. Depois nós fomos aos Andes peruanos e concluímos isso lá, onde tem as tecelãs peruanas que tecem as escritas Inca, confirmando que essa relação entre bordados e livro tem tudo a ver”, acredita Gleciara.

Todos os domingos, até 19 de julho, às 15h, a artista irá promover uma visita guiada aberta ao público pelas obras da exposição, explicando seu processo criativo e tirando dúvidas das pessoas presentes. Seu livro (R$ 125) também estará à venda, podendo ser autografado na ocasião.

Minibio

Nascida no Rio de Janeiro (RJ), a artista visual, cineclubista e sindicalista Gleciara de Aguiar Ramos morou durante a infância em Tabatinga (AM) e em Vitória (ES). Em 1989, escolheu morar em Salvador. Recentemente, retornou ao Amazonas, onde fez a pesquisa ‘Espelhos da Lua’, sobre os Mitos Originários da Lua.

Formada pela Escola de Belas Artes na Universidade Federal da Bahia (UFBA), foi professora substituta de Percepção Visual e Técnicas de Representação Gráficas da Universidade Federal da Bahia (Ufba), de 2002 a 2004.

Autora do livro Nós Os Índios (Edição Independente – 2000), Especialização em Arteterapia pelo Instituto Fênix de Humanidades, em Vitória, e cursando especialização em Arte Educação pela Escola de Belas Artes da Ufba.

Apresentou o trabalho deste livro na 1ª Conferência Internacional de Tecnologias Sociais da Memória, no Museu da Pessoa, em São Paulo. Aposentou-se como Analista Tributária da Receita Federal.

‘Iramaia e o Encontro das Águas’ - Instalação, lançamento de livro e exibição de documentário / Amanhã, 19h / Museu de Arte da Bahia (MAB) - Galeria Jardins (Corredor da Vitória) / Visitação: De 21 de maio a 19 de julho, de terça-feira a domingo, das 10h às 18h / Entrada gratuita

Siga o A TARDE no Google Notícias e receba os principais destaques do dia. Compartilhar no Whatsapp Clique aqui

Compartilhe essa notícia com seus amigos

Compartilhar no Whatsapp Compartilhar no Facebook Compartilhar no X Compartilhar no Email

Tags

arte Cultura Salvador

Relacionadas

Mais lidas