CULTURA
Exposição no MAM apresenta Agnaldo dos Santos às novas gerações
Produzidas em madeira, as obras sempre foram voltadas para a brasilidade

Morto há 61 anos, o escultor baiano Agnaldo dos Santos é homenageado no Museu de Arte Moderna Bahia com a exposição Agnaldo Manuel dos Santos – A conquista da modernidade. Hoje muito valorizadas, suas peças representam orixás, santos, ex-votos, carrancas e figuras humanas, sob curadoria da historiadora da arte Juliana Ribeiro Bevilacqua, que selecionou cerca de 50 peças para a esta mostra.
“Ao contrário de muitos artistas, Agnaldo não foi esquecido, mesmo morrendo em sua ascensão artística, ainda em vida, Agnaldo pôde fazer parte de exposições importantíssimas em São Paulo e no Rio de Janeiro, como a quarta Bienal em 1957, sendo que uma de suas obras foi premiada neste evento”, conta Juliana.
“Ele fez a primeira exposição individual dele em Salvador, na Galeria Oxumaré em 1958. Antes disso ele já tinha participado em exposições coletivas. No entanto houve poucas exposições individuais dele. A nossa exposição agora começou em São Paulo em 2021, daí ela viajou para o MAR - Museu de Arte do Rio em 2022 e agora ela ocorre aqui, 35 anos depois da última exposição individual, de Agnaldo em Salvador”, diz Juliana.
Nascido na ilha de Itaparica no dia 10 de Dezembro de 1926, Agnaldo tem suas obras consideradas como uma continuidade das esculturas africanas no Brasil. O artista é decendente de índigenas e negros, trabalhou como lenhador, fabricante de cal, vigia e ajudante do artista Mário Cravo Jr. As primeiras aspirações artísticas de Agnaldo começaram em 1947, quando se mudou para Salvador, logo após ser empregado como vigia do estúdio de Mário Cravo Jr. no Porto da Barra, onde além de trabalhar, era o local onde dormia, e depois de um tempo, Agnaldo se tornou assistente e aprendiz de Mário Cravo.
Foi só em 1953 que Agnaldo começou a produzir suas próprias esculturas. Ele explorou a bacia do rio São Francisco como mediador na aquisição e venda de carrancas. Foi por meio dessa relação que ele conheceu e se tornou amigo de Francisco Biquiba dy Lafuente Guarany, o mestre mais importante desta arte.
O crescente interesse de Agnaldo pelas carrancas e pelas lições que aprendeu com Guarany se refletiu em sua produção, que passou a incorporar cada vez mais elementos da estética peculiar das figuras de proa das embarcações do São Francisco em algumas de suas obras, que receberam os nomes de Cabeça de animal e Cabeça de tatu, entre outros.
“Agnaldo explorou muitas referências para fazer suas esculturas, eu acho que é por isso que elas são tão únicas. Naquele momento, desse modernismo na Bahia, ele e outros artistas estavam explorando essa ideia do nacional, da cultura nacional, do popular”, observa Juliana.
“Uma referência fundamental para Agnaldo foram os ex-votos. Ele, Mário Cravo, Lênio Braga e Caribé coletavam santos e ex-votos pela Bahia, ele estudou com santeiros na Universidade Federal da Bahia. Outra referência é a arte africana. Ele observou e estudou bastante catálogos de arte africana e esses elementos aparecem nas obras dele. Apesar disso, em nenhum momento ele tenta imitar ou simplesmente reproduzir as esculturas africanas, seu trabalho jamais seria confundido com uma escultura africana ou até mesmo com as carrancas de Biquiba Guarany, outra referência muito importante com quem Agnaldo teve contato”, afirma.
Produzidas em madeira, as obras de Agnaldo sempre foram voltadas para o tema da brasilidade, desde a religiosidade afro-brasileira do candomblé, até as referências de temas católicos, como os ex-votos em madeira que foram coletados por ele e outros artistas da época em suas viagens nos anos 1950.
Demanda da sociedade
Atualmente, as obras encontram-se espalhadas por diversos acervos de museus no Brasil e no exterior, como o Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, o Museu Afro Brasil em São Paulo, e o Museum of Fine Arts em Boston, Estados Unidos, além de coleções privadas também.
“Não são muitas as instituições brasileiras que possuem obras de Agnaldo. 80 ou 90% das suas obras estão em mãos de colecionadores privados e mesmo morrendo bem jovem, aos 36 anos, ele produziu bastante durante seus nove anos de produção. Parte da minha pesquisa era catalogar essa produção, e durante o período de seleção das obras, meu foco era explorar as referências dele, e explorar seus estudos, né”, conta Juliana.
“Não é porque ele não teve uma educação formal que ele não estudou, ou que ele não teve um olhar cuidadoso e atento para as suas referências. Desta forma, quero tira-lo do lugar de ‘artista primitivo’, em que ele foi colocado por curadores, críticos e outros artistas da sua época, sendo que ele era um artista negro convivendo com a elite artística, economica e intelectual contemporânea”, afirma.
E engana-se quem pensa que só depois de morto a produção de Agnaldo passou a ser valorizada – para a curadora, sua valorização se deve ao seu caráter artístico, antes de tudo. “As obras de Agnaldo não se tornaram valiosas só agora, e eu acredito que isso vem primeiramente, do fato dele ser um artista que morreu jovem, então a sua produção é limitada, mas em segundo lugar, porque Agnaldo é absolutamente único. Se você olha para os escultores brasileiros, não há ninguém parecido com ele, e isso não querendo criar uma hierarquia de quem é melhor ou pior, mas a singularidade dele é absurda, a forma que ele explora a madeira. Além disso, na época em que estamos vivendo, o mercado, os críticos, estudiosos, estão olhando para o trabalho artístico negro, sejam modernos, contemporâneos, com mais cuidado”, diz Juliana.
“Esse não é um movimento que está ocorrendo somente com Agnaldo. Felizmente, outros artistas negros que antes também tinham pouco lugar em exposições estão ocupando novos espaços. Eu acho que a gente vive hoje um momento fundamental de reconhecimento e valorização da produção de artistas negros, e isso não foi dado, foi a partir de uma reivindicacão muito importante de diferentes grupos espalhados pelo Brasil, principalmente de artistas negros e curadores, que perceberam a importancia de olhar de forma mais atenta a estes artistas. Então essas três exposições vem em um momento muito feliz, a partir da demanda da sociedade de rever o espaço ocupado por artistas negros na história da arte, conclui.
*Sob supervisão do editor Chico Castro Jr.
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