Exposição Templo, do baiano Pedro Marighella,desloca corpos de dançarinos de pagode

Publicado sexta-feira, 18 de junho de 2021 às 06:00 h | Atualizado em 17/06/2021, 23:32 | Autor: Eduarda Uzêda

Baianos e visitantes têm até o próximo dia 18 de julho para conferir uma exposição que pode gerar muitos debates, a exemplo do conceito de sagrado em uma obra de arte, diálogos de linguagens artísticas e dança popular como expressão de cultura e expressão artística.

Trata-se da exposição Templo, do artista visual Pedro Marighella. A mostra pode ser vista presencialmente (olhar os dias e os horários no final da matéria) ou de forma online, pelo site da galeria (www.rvculturaearte.com). Traz textos, imagens de referência e vídeos sobre as obras e o artista.

Os trabalhos investigam, a partir de imagens de bailarinos urbanos ligados ao contexto do pagode baiano e do arrocha, um correspondente de beleza onde corpo e dança são meios de aproximação da espiritualidade.

Marighella informa que ao todo são sete trabalhos que estão expostos. Ele utiliza a técnica do marcador (uma espécie de canetão) sobre a lona. As obras enfatizam os movimentos dos dançarinos, o que, para o artista, traz algo de sublime “por conta do estado deles, que pode ser comparado a um transe enquanto dançam, unidos à forte concentração e à percepção interna aguçada”, diz.

“Destituo a imagem do fundo do contexto onde eles se apresentam e faço a composição na lona com o marcador”, complementa Marighella, que acrescenta que as imagens são produzidas a partir de fotografias. Desde o projeto Mata, ele conta que utiliza a fotografia digital e a edição computadorizada como fonte para as suas originais composições gráficas.

Arquitetura espiritual

“Em diversas culturas, a ideia de templo tem a ver com edificação erigida em reverência a uma ou mais divindades. No Viewing Room da Galeria RV dedicado a Pedro Marighella, esse significado se amplia: embora não levante paredes, o artista instaura a dramaturgia de um espaço em honra a deuses e deusas que estão vivos e, além disso, dançam”, afirma o curador Uriel Bezerra.

“No caso específico de Templo, a energia expressada em tela troca a intensidade das grandes aglomerações pela solitude quase monástica dos dançarinos, ressaltando gestos, olhares e movimentos no entorno vazio”, pontua.

“Assim, para longe de qualquer registro antropológico presente no campo das artes visuais, a dança associada ao pagode baiano é imaginada como atividade mística, onde os movimentos compõem aquilo que o artista chama de arquitetura espiritual”, complementa.

De acordo com o curador, na proposta de Pedro Marighella “as coreografias desorganizam e reorganizam no corpo as tramas da vida ordinária nas grandes metrópoles brasileiras”, realça. Bezerra fala sobre três obras que chamam a atenção pelo tamanho – 4 metros de altura por 1,70 metro de largura – que são o tríptico produzido no contexto da 7ª edição do Prêmio Marcantônio Vilaça, um dos mais prestigiados do país na área de artes visuais que aconteceu em Minas Gerais, em 2019. Marighella foi um dos finalistas.

“Penduradas desde o teto, três lonas tremulam solenes e abrigam figuras humanas em suas bases. As faixas laterais são ocupadas por dois homens e o centro por uma mulher, cuja desenvoltura sugere dança”, frisa, destacando que Marighella capturou frames de seus passos e, com o marcador, percorreu seus corpos projetados de forma digital sobre a superfície dos tecidos.

As obras

No caso do tríptico, Marighella afirma: “Eu apresento três situações de performances distintas, criadas a partir de algumas experiências com o Balé Puro Swing”. Na imagem, aparecem os dançarinos João Vitor, também conhecido como Samurai, Adriano Barbosa e Acácia Oliveira durante coreografia da música Senta Agora, da banda Parangolé.

Outro trabalho que chama a atenção é o que os dançarinos estão com as mãos no chão – como se fossem dar largada em uma corrida – enquanto as dançarinas mostram trejeitos sensuais. A obra foi feita a partir de registro de coreografia do grupo de dança Oz Sem Limites MCz.

Em outro trabalho, Marighella se vale de imagem do desenho feito a partir de coreografia do Ballet Puro Swing no vídeo de Caio de Jesus que apresenta a performance da dupla de dançarinos Luís Souza e Samurai. São alguns exemplos.

Nascido em Salvador, Bahia, Pedro formou-se em artes plásticas e desenvolve projetos na área de criação em design, ilustração, música e cenografia. Envolveu-se no cenário de arte contemporânea no início dos anos 2000. O seu trabalho é associado a desenhos em marcador azul, onde retrata o encontro denso das multidões em festas e outros eventos de rua.

Em 2020, Pedro Marighella passou a integrar o acervo permanente do Masp – Museu de Arte de São Paulo, com trabalho comissionado no contexto da exposição Histórias da Dança.

Exposição Templo, de Pedro Marighella / Até 18 de julho/ RV Cultura e Arte/ Av. Cardeal da Silva 158, Rio Vermelho/ Visita presencial: de seg a sex, das 10h às 18h, e sáb, das 10h às 12h/ Site para visita online: www.rvculturaearte.com / Mais informações: 71 33474929 | [email protected]

Publicações relacionadas