CULTURA
Montagem carioca de Decameron leva o universo picante de Boccaccio para o TCA
Fulano morre de desejo por beltrana. Esta não se faz de rogada, mas também não resiste ao poder de sedução de sicrano, que vive arrastando asa para umas e outras. Desse tipo de equação se tem notícia desde que o mundo é mundo. Mas, entre os anos de 1348 e 1353, a fraqueza da carne humana ganhou um molho a mais com a publicação de Decamerão, do italiano Giovanni Boccaccio.
Verdadeira ode à fornicação, a obra se tornou um clássico e vem se atualizando século a século, graças a inspiradas versões feitas para o cinema, a televisão e as artes cênicas. Um representante desta última seara estará no palco do Teatro Castro Alves hoje e amanhã, às 21 horas. Batizada de Decameron, a montagem carioca traz para Salvador um elenco encabeçado por George Sauma (o Tatalo do humorístico Toma Lá Dá Cá), Marcos Oliveira (o Beiçola de A Grande Família) e Maria Paula (Casseta & Planeta).
Sauma interpreta Maroto, um sem-vergonha que bate em retirada depois de “fazer mal” à filha virgem de um fazendeiro. Ele leva a tiracolo o fiel escudeiro Pepeto, papel de Oliveira, que sempre acaba pagando o pato mesmo sem ter (muita) culpa no cartório. “Na verdade, ele também apronta um pouquinho”, releva o dono do personagem. Em meio à fuga, os forasteiros encontram a fogosa Sofrônia de Maria Paula, figura fundamental para complicar um pouquinho mais mais a vida deles.
Peguete - “Ninguém segura ela, nem o marido”, diverte-se Maria Paula. Para dar uma vaga noção do furdunço que Sofrônia é capaz de aprontar na história, ela avisa que a dita cuja “é apaixonada pelo empregado, mas também é peguete da galera toda”.
Seria Sofrônia a vilã da história? “De jeito nenhum!”, protesta a atriz. “Isso é um preconceito absurdo. Quando é o homem que trai, ele é o pegador, gostosão. Quando é a mulher, ela é a vilã?”, alfineta. Em torno desse trio giram os personagens de Zéu Brito, Camila Rodrigues e Jô Santana, que idealizou o espetáculo e também responde pela produção.
“É contagiante! As pessoas ficam enlouquecidas, saem todas com vontade de fornicar”, brinca o ator-produtor, que convidou Otávio Müller para fazer a direção no lugar do baiano Fernando Guerreiro, impedido de assumir a função por falta de espaço na agenda.
“Houve pouco tempo de ensaio, mas não tive dificuldade. Eu desenhei o espetáculo, estive lá, me preparei muito”, empolga-se Müller, que aproveita para jogar um pouco mais de pimenta na expectativa da plateia. “Quero balançar as pessoas. O público pode até subir no palco, se quiser”, convida.
A reportagem quer saber se é somente força de expressão e ele se apressa em não deixar mal-entendido: “Não, é sério! Eu coloco contrarregra, camareira, todo mundo no palco. Me enche um pouco essa coisa de ficar sentadinho. O espetáculo está aberto mesmo, é uma festa”, reforça o diretor.
A linha que costura, a trama foi fornecida pelo baiano Elísio Lopes, que recebeu a missão de adaptar as histórias contidas nas cem novelas que compõem o Decamerão original. Quem conhece o clássico já deve ter percebido, por exemplo, que Maroto, Pepeto e Sofrônia não existem nos escritos de Boccaccio. “Para não fazer um espetáculo fragmentado, eu resolvi criar uma outra história e transformar as novelas em situações”, explica o dramaturgo, que usou como matéria-prima 14 novelas. “Fui buscando as que mais se encaixavam na história de uma dupla em fuga de uma cidade para outra”, pontua.
Se interpõem nesse ziguezague recheado de pequenas fraudes, sedução, traição e aventuras sexuais o marido de Sofrônia (Biondelo, de Zéu Brito), os criados do casal e até mesmo uma certa madre superiora e suas irmãs religiosas.
Sotaque - Elísio Lopes fez questão de dar a esse balaio de gatos da peça um toque de brasilidade e acabou por puxar a brasa um pouco para a nossa sardinha, salpicando o texto com um sotaque nordestino. “A história é ambientada numa feira; então, fui buscar referências do nosso cotidiano como a de São Joaquim”, exemplifica.
Já o palavrão, presumível quase sempre que entra em cena uma dose de erotismo, o espectador pode morrer de procurar que não vai encontrar. “Os personagens vão se embolando numa grande trama de sexo, mas é tudo sugerido. O espetáculo é leve, alegórico”, adianta Lopes. “Uma das coisas que me fizeram entrar no trabalho foi justamente a adaptação de Elísio”, elogia Otávio Müller. É inteligente, elegante e muito, muito engraçada”, garante. Daqui, Decameron segue para Aracaju, Brasília, Manaus e Belém. Em São Paulo, a agenda já está fechada de outubro a abril de 2010.
| Serviço |
Espetáculo: Decameron
Quando: Quinta, 17, e sexta, 18, 21h
Onde: Teatro Castro Alves (3117-4899), Praça 2 de Julho, Campo Grande
Quanto: R$ 60 (filas X a Z11) e R$ 100 (filas A a W), inteira
Assista ao vídeo sobre Boccaccio:
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