CULTURA
‘Mukunã: do fio à raiz’ tem sessões gratuitas em Alagados
Mukunã volta a cartaz nesta semana e na próxima, no Espaço Cultural Alagados
Por Chico Castro Jr.

Em tempos idos, um slogan dizia que “sem tesão não há solução”. Nos dias de hoje, vale acrescentar: “e sem autoestima, não há tesão”. Em Mukunã: do fio à raiz, espetáculo solo da atriz, arte-educadora, pesquisadora, diretora e gestora cultural Vika Mennezes, a autoestima está em tudo.
Apresentado em meados do ano passado em alguns espaços, Mukunã volta a cartaz nesta semana e na próxima, no Espaço Cultural Alagados, com entrada gratuita. No palco, Vika traz à cena sua vivência pessoal no enfrentamento ao racismo, em especial, a partir de seu cabelo crespo – e todos sabemos o quanto jovens meninas (e meninos também) já foram alvo de preconceito em forma de chacota e piadas, só porque não envergam cabelos lisos, como prega a estética eurocêntrica imposta.
E com Vika, infelizmente, não foi diferente. “Quando eu era muito pequena, sofri racismo capilar na escola, onde por ter ido com os cabelos soltos e sem pentear, fui exposta perante toda a turma e ao fim, colocaram um espelho para que eu, ao ver a minha própria imagem, cabelos crespos e volumosos, sentisse vergonha – e como a cena da criança (no espetáculo) bem retrata, ‘tivesse a certeza que era uma menininha feia’”, relata.
Mais do que educar crianças brancas, o desejo de Vika é elevar a autoestima de crianças negras, como a que ela foi. “Meu desejo com Mukunã é a partir da minha e de tantas outras vivências, tocar os corações das pessoas e trazer perspectivas sobre a nossa identidade negra, celebrar a nossa realeza, valorizar nossos traços e fomentar o auto empoderamento e a liberdade de escolha quando se trata dos nossos próprios corpos, seja no que tange a escolhas estéticas, seja no que tange aos sonhos em nossos corações”, afirma.
O propósito da obra
A origem do termo ‘mukunã’ é bem interessante e faz parte do entendimento do espetáculo: “’Mukunã’ vem do tupi-guarani, é um substantivo feminino que inicialmente se referia a plantas trepadeiras nativas do Brasil, como vagens cobertas de pelos. Só que, com o tempo, a palavra ganhou um novo significado nas comunidades afro-brasileiras, isso porque no século 16, os primeiros escravizados africanos trazidos ao Brasil vieram de grupos étnicos Bantu, de origem Congo-Angola. Eles tiveram um intenso contato cultural com os indígenas brasileiros e com o tempo, ‘mukunã’ assumiu um significado simbólico nessas comunidades para se referir aos cabelos”, detalha Vika.
“E é justamente essa simbologia do cabelo, tão presente na cultura afro-brasileira, que inspira nosso espetáculo Mukunã - Do fio à raiz, uma jornada que leva minha personagem a refletir sobre sua ancestralidade e identidade a partir do seu cabelo”, conta.
Com música ao vivo, o espetáculo traz Vika em um verdadeiro tour de force: além de idealizar, dirigir e atuar, ela também canta no palco: “Concebemos um espetáculo original, com música ao vivo e canções autorais, que pulsa, arrebata, tensiona e educa”.
“Em uma sessão, uma avó disse que foi assistir porque queria ajudar sua neta a reconhecer e amar o seu próprio cabelo black, rejeitado pela pequena. Vanessa tem nove anos e ao pegar o microfone e ser perguntada sobre o que tinha achado da peça, respondeu: ‘Gostei muito da cena da criança e a partir de agora, eu gosto do meu black’! Aquelas palavras causaram comoção geral, presenciamos genuinamente o propósito da obra de arte”, conclui Vika.
"Mukunã: do fio à raiz” / Hoje, 19h e dias 13 (quinta-feira, 19h) e 14 (sexta-feira), 15h e 19h / Espaço Cultural Alagados / Entrada gratuita
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