CULTURA
Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira luta para se manter aberto

O único espaço completamente dedicado à reunião e à valorização dos artefatos e registros da cultura afro-diaspórica no Brasil, o Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), localizado no Centro Histórico de Salvador, está prestes a fechar as portas definitivamente devido a crise político-financeira e cultural causada pela pandemia da Covid-19.
A notícia veio a público no dia 26 de junho, quando o músico, poeta, presidente da Sociedade Amigos da Cultura Afro-brasileira (Amafro) e coordenador do museu, José Carlos Capinan postou um informe emergencial nas redes sociais da instituição. O anunciado apelava: “Ninguém imagina o trabalho que dá manter um museu aberto e funcionando. Dezoito anos de dedicação lutando pela continuidade e agora precisamos definir coletivamente uma dramática resolução de paralisar ou fechar definitivamente o museu”.
Em entrevista ao A TARDE, Capinan conta que a falta de recursos financeiros para despesas básicas é uma das maiores preocupações do corpo institucional. “Temos água, luz e internet para pagar”, afirma. Além disso, ele acrescenta sobre a falta de dinheiro para pagar os vigilantes que, mesmo com museu de portas fechadas por conta da pandemia, continuam a zelar pelos bens patrimoniais do local.
“O fundamental para que o museu esteja em funcionamento é a vigilância, o cuidado com a preservação do acervo. Nós não podemos retirar os vigilantes do museu porque é um risco muito grande. A área na qual o museu está instalada ainda é onde acontecem muitos assaltos”, demonstra Capinam, preocupado com o acervo idealizado por ele e pelo artista plástico Emanoel Araújo, composto por itens comprados e doações de colecionadores.
“Não existem 10 milhões”
A visão do público diante da atual situação financeira do museu incomodou Carlos Capinan que desabafou em um trecho do informativo divulgado: “Grande parte do público pensa que temos dinheiro, que temos os 10 milhões liberados pelo ex-ministro Juca Ferreira. Esse pensamento é carente de informação, e, eventualmente, de má fé”.
Ele se refere ao convênio de R$ 9,9 milhões ofertado pelo ex-Ministro da Cultura Juca Ferreira, por meio do Fundo Nacional da Cultura, durante seu período em vigor (2015-2016) no governo Dilma Rousseff (PT).
O dinheiro foi dividido em quatro parcelas e o corpo institucional do Muncab ainda está por receber a terceira. “Estamos lutando nesta tempestade pandêmica e com os obstáculos que a cultura enfrenta no atual governo. Pagamos as últimas despesas prioritárias (água, luz, vigilantes, internet, etc) com doações e outras vezes com recursos pessoais”, declara Capinan ao público.
Além de parte do recurso ser utilizado para a restauração do antigo casarão localizado na Rua do Tesouro, que hoje abriga a sede do Muncab, o dinheiro também serviu como investimento para parte do acervo adquirido do museu. “Não existem R$ 10 milhões liberados. Existe um valor dividido em parcelas”, afirma Capinam.
“Com as parcelas que foram liberadas nós adquirimos o acervo do museu. Temos aproximadamente 300 peças, entre obras de arte, esculturas, quadros, xilogravuras, fotografias, dentre outras manifestações que também foram doadas”, acrescenta o coordenador, esclarecendo.
Mas esta não é a primeira vez que o Muncab entra em crise por conta da demora na liberação do recurso oferecido. Em 2017, enquanto aguardavam o depósito da segunda parcela, passaram por um período de dificuldades para pagar os funcionários e cobrir os custos de manutenção do telhado do casarão que, na época, sofria com infiltrações, colocando em risco as peças que estavam guardadas no local.
Resistindo à crise
Com o objetivo de criar um plano estratégico para amenizar esta situação, foi realizada, no dia 29 de junho, uma reunião à distância com cerca de quinze membros entre a diretoria e os apoiadores. “Vamos trabalhar na expectativa da liberação dos recursos, mas eu estou fazendo alguns esforços de articular com a bancada baiana em Brasília para que eles possam nos dar esse apoio”, destaca Capinan.
“Também tenho usado a nota emergencial para alertar as pessoas. Vamos abrir para doações, para que o público possa oferecer sua contribuição. Nós estamos com muitos problemas financeiros neste período de Covid-19 e vamos tentar arrecadar desde R$ 50 a qualquer outra contribuição maior”, complementa.
Outras medidas debatidas na reunião é o aumento da visibilidade da instituição. Capinam explica que projetos já iriam ser implementados, mas tiveram que ser mudados por conta da pandemia: “O museu tem um acervo muito importante e um papel muito significativo na valorização da contribuição cultural africana para a civilização brasileira, e isso não pode ser deixado sem o conhecimento do público”.
As redes sociais do Muncab serão movimentadas com projetos em conjunto com a Fundação Gregório de Matos, como, por exemplo, o Capinan Convida uma série de lives. Ainda não há data de lançamento, mas o projeto trará nomes expressivos das atividades culturais locais, como Roberto Mendes, Alexandre Leão, Lázaro Ramos e Xangai. “E que nossa visibilidade seja ampliada”, exorta o coordenador.
Capinam também afirma que está contando com o apoio da Secretaria de Fomento e Incentivo à Cultura (Sefic, vinculada ao Ministério do Turismo). “A Secretaria está nos ajudando muito neste processo. E, em breve, estará produzindo uma nota técnica com o que nós informamos sobre a prestação de contas. Estamos na expectativa de que, ainda em julho, a decisão nos seja informada. Com a liberação, vamos ter uma superação do problema por cerca de pelo menos um ano. Caso seja negativa, vamos ter que estudar qual será a próxima medida a ser tomada”, diz.
Com as doações que serão abertas, o principal objetivo é arrecadar pelo menos R$ 5 mil, até que seja declarada a reabertura pós-pandemia. A luta será por outra forma de gestão por parte do governo, com uma estadualização ou municipalização da instituição.
José Carlos Capinan reforça: “Nós ainda não assimilamos a ideia de que civilização brasileira tem uma contribuição da matriz africana muito grande, em todas as áreas do conhecimento. É muito importante que a gente saiba quem nós somos. O museu é também uma forma de contribuir na luta antirracista, pois, ao contrário do que se julga, a contribuição do negro foi imensa para que nós tenhamos a grandeza que a gente tem”, conclui.
*Sob a supervisão do editor Chico Castro Jr.
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