CULTURA
O polêmico maestro John Neschling fala em entrevista exclusiva

Com fama de polêmico e autoritário, o maestro da Osesp, em turnê por Salvador, fala em entrevista exclusiva
Desde que assumiu a direção artística da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, em 1997, o maestro John Neschling passou como um trator sobre uma série de paradigmas que, até então, conduziam os trabalhos ali. “O grupo foi promovido de sem-teto a orquestra mundialmente reconhecida”, diz a revista Carta Capital, ao comentar os primeiros cinco anos de administração de Neschling.
Agora, em 2008, com grande prestígio internacional, depois de uma segunda turnê norte-americana e de apresentações em oito países europeus, a Osesp (uma equipe de aproximadamente 120 pessoas) excursiona por 12 cidades brasileiras e aporta em Salvador – dias 1º, 2 e 3 de novembro – para realizar, sob a batuta de Neschling, dois grandes concertos na cidade, além de um concerto de câmara na Catedral Basílica. O programa varia de acordo com o local: o concerto no Teatro Castro Alves, que terá como solista Sérgio Burgani (clarinete), contará com peças de Verdi, Camargo Guarnieri e Mahler. Já na Concha Acústica, com o solista Cláudio Cruz (violino), serão executadas peças de Glinka, Tchaikovski, Bernstein e Ravel, entre outros. Para a catedral, peças de Vivaldi e Piazzolla.
O maestro, que tem fama de polêmico e autoritário, fala sobre a formação de excelência que imprimiu à que é hoje considerada uma das melhores orquestras da América Latina e se mostra irritadiço ao comentar a decisão de não renovar com a Osesp o contrato que encerra em 2010. Depois de especulações, inclusive em torno do alto salário que recebe, e de uma série de desgastes políticos – cujo ápice foi um vídeo postado, ano passado, no site You Tube, em que Neschling chama o governador José Serra de “mimado” e “autoritário” –, o maestro decide, no auge, sair de campo.
A TARDE - Qual o desafio maior, tocar para uma platéia exigente e que freqüenta importantes salas de concerto do mundo, ou tocar ao ar livre para uma grande platéia que não está familiarizada com a música de concerto?
John Neschling | As duas coisas. Acho importante tocar para os dois públicos, tanto para o que vai eventualmente na praça e que ouve pela primeira vez, quanto para um público que gosta desse tipo de música, tanto é que o repertório é completamente diferente.
AT | É preciso adequar o repertório, a depender do espaço onde aconteça o concerto?
JN - Claro, você não pode fazer o mesmo repertório. Numa praça, você faz peças que geralmente fazem mais sucesso, peças mais fáceis de serem absorvidas. Peças de um repertório mais complicado, mais sofisticado, que exige mais pré-conhecimento, você faz numa sala. Não quer dizer que seja melhor, só que tem uma característica diferente. Não é uma questão de valoração, no sentido de que a música é melhor ou mais inteligente, é só por ser um público que tem mais costume de ouvir música e outro que tem menos costume.
AT | Numa época em que a apreensão da música é completamente diferente de 200 anos atrás, já que, hoje, ela é mediada pela tecnologia, pela velocidade, não haveria aí uma disponibilidade menor das pessoas para irem às salas de concerto? Como se dribla essa nova conjuntura?
JN - Isso é uma pergunta importantíssima. É justamente essa a dificuldade de se ouvir música clássica. Não é que ela seja mais difícil, ela exige mais interiorização, mais tempo, mais vontade pessoal de querer sair de casa, ir a um teatro. Não é como a novela que entra na sua casa. É a mesma coisa com o teatro. Para você ver Hamlet, tem que sair de casa, botar uma roupa, ir ao teatro para conhecer Shakespeare. Beethoven é a mesma coisa. Você, quando quer ouvir música fácil, liga o rádio e ela entra na sua casa de qualquer maneira, mas se você quiser realmente ouvir músi‘ca séria e que exija um pouco mais de introspecção, aí tem que sair de casa e ir pra uma sala que às vezes está cheia, tem que comprar ingresso com antecedência... Como se dribla isso? Acho que não se dribla. A música clássica jamais vai ser das massas e multidões. Repito que não estou falando de valoração, ou que a música clássica atinge um público melhor, no sentido da elite. A elite pode ser uma elite intelectual, não precisa ser uma elite econômica. Na Sala São Paulo, os concertos da Osesp são relativamente baratos, são mais baratos que os grandes shows que se fazem por aí. Mas não acho que a música clássica possa virar música popular.
AT | Já foi popular em algum tempo?
JN - Não, nunca foi. Sempre foi apanágio de uma elite. Sempre foi de uma elite cultural e houve momentos em que essa elite cultural coincidiu com uma elite social, mas nunca foi apanágio das multidões. Você não enche um estádio com um concerto. Até pode, de repente, mas você precisa de um outro marketing em torno.
AT | Li uma entrevista em que o senhor afirma que o governo desconhece a importância da música erudita para a cultura nacional. Fale sobre essa importância e sobre a necessidade, no Brasil, de um projeto que forme músicos eruditos de excelência.
JN - Acho que um país como o nosso, que está se inserindo num contexto mais valorizado, que está a caminho do Primeiro Mundo, precisa ter manifestações em todos os setores da cultura, não pode ser um país que só valorize a música folclórica, que também é cultura e tem seu valor igualzinho, mas é preciso falar outras linguagens. Assim como, na ciência, um país precisa de hospitais de primeira linha porque não pode ser um país só de ambulatórios. Hoje em dia, você precisa de grandes hospitais, grandes projetos de pesquisa, grandes universidades, isso tudo faz parte de um país mais adiantado como o nosso e, evidentemente, a linguagem sinfônica de qualidade faz parte dessa plêiade de linguagens que têm que existir no País. Portanto, é preciso investir nela como é preciso investir no Hospital do Coração e não só no pronto-socorro, assim como é preciso investir nas universidades e não só nas escolas primárias ou nas escolas técnicas. À medida que os gostos da população vão se sofisticando, você tem que oferecer a ela essas alternativas, e a música sinfônica faz parte dessas alternativas. Você vê que todos os países que se dizem adiantados culturalmente têm orquestras sinfônicas importantes.
AT | O senhor acha que o projeto Neojibá, implantado em Salvador pelo maestro Ricardo Castro, é uma boa alternativa?
JN - Claro, é formidável. Acho o trabalho do Ricardo Castro um dos mais importantes do País.
AT | O senhor declarou numa entrevista, ao se referir ao seu trabalho na Osesp, que teve a oportunidade de construir uma orquestra do zero. Não aproveitou nada do que encontrou?
JN - Encontrei uma orquestra muito mal organizada, encontrei uma idéia de orquestra, mas efetivamente muito pouca coisa utilizável. Tive que implantar todo um sistema e uma mentalidade diferente. O que encontrei foi uma lei que determinava que existisse uma orquestra.
AT | E quais foram essas medidas drásticas para resolver isso?
JN - Ah, isso aí você consegue em umas 250 entrevistas que dei de lá pra cá.
AT | É que há muita controvérsia em torno dessas mudanças...
JN[Impaciente] - Qual a controvérsia que há? Não sei qual a controvérsia que pode existir numa orquestra de primeira categoria. Contra fatos não há argumentos. Hoje em dia você tem uma orquestra de grande categoria no Brasil que é a Osesp. Você tem uma orquestra que paga bem a seus músicos que é a Osesp. Você tem uma orquestra que dá direitos trabalhistas aos músicos que é a Osesp. Você tem uma orquestra que tem uma sala de primeira categoria que é a Osesp. Você tem uma orquestra que tem 12 mil assinantes que é a Osesp. O que é controverso aí?
AT | Pois é, isso tudo foi conquistado a custa de muita briga...
JN Mas não se consegue nada disso sem briga.
AT | A não-renovação do seu contrato com a orquestra tem a ver com esses embates que o senhor enfrentou?
JN - Os embates são do passado, o embate atual é completamente outro.
AT | E qual o motivo da não-renovação do seu contrato?
JN - A não-renovação do meu contrato é uma vontade do conselho da Osesp.
AT | Mas isso não foi por conta dessa crise desencadeada com o governo de São Paulo?
JN [Já irritado] - Mas não tem crise nenhuma com o governo.
AT | E como vai acontecer essa sucessão?
JN - Não faço a menor idéia de como vai acontecer essa sucessão. Isso me preocupa, eu não vejo nenhum projeto de sucessão. Só vejo o seguinte, eu disse que não gostaria de continuar, que dessa forma eu não continuaria, com interferências do Estado, e eles aceitaram a minha demissão, mas ainda não vi nenhum gesto do lado de lá que esteja organizando isso.
AT | E o senhor teria algum nome a indicar?
JN - Não tenho nada a indicar porque a sucessão não está se processando da forma como eu gostaria que se processasse, então eles têm que dar um jeito de organizar essa sucessão.
AT | O senhor tem fama de conduzir a Osesp com mão-de-ferro, de exigir perfeição técnica dos músicos. Isso não suprime um pouco a emoção?
JN - Absolutamente. O que a emoção tem a ver com falta de qualidade? Aliás, emoção com falta de qualidade é uma coisa horrorosa. Só é possível ter emoção de verdade se você tem perfeição técnica. Sem isso, a emoção vira desculpa para a mediocridade.
AT | E como fazer para aflorar essa emoção?
JN - A emoção vem com a técnica. É como o ator. Como ele consegue aflorar a emoção? Com técnica.
AT | Ou seja, não é algo interno, é algo que se adquire.
JN - Evidentemente. O músico estuda para isso, se não todo mundo podia ser músico. Todo mundo tem emoção, qualquer pessoa tem, desde o porteiro até o vendedor de jornal, todos têm emoção, o que não têm é técnica.
SERVIÇO:
* Osesp – Concerto de Câmara | Sab, 18h | Catedral Basílica de Salvador (3321-4573) | Terreiro de Jesus, s/n, Centro Histórico | Entrada franca
* Osesp – Concerto ao ar livre | Domingo, 2, 17h | Concha Acústica (3339-8018) | Ladeira da Fonte, s/n, Campo Grande | Distribuição gratuita de ingressos a partir de hoje, na bilheteria do TCA
* Osesp – Série TCA | Segunda, 3, 21h | Sala principal do Teatro Castro Alves (3117-4899) | Pç. Dois de Julho, s/n, Campo Grande | R$ 80 e R$ 40 (filas A a P), R$ 60 e R$ 30 (filas Q a Z) e R$ 40 e R$ 20 (filas Z1 a Z11)