CULTURA
Perfil: Conheça a trajetória do cineasta baiano Edgard Navarro

Trinta anos. Este foi o tempo que levou para que o cineasta Edgard Navarro, que estreou com o vídeo Alice no país das Mil Novilhas (1976), lançasse seu primeiro longa Eu Me Lembro nas salas de cinema brasileiras. Mas está equivocado quem pensa que este hiato de três décadas significa, de alguma forma, inatividade, palavra que não combina com a carreira deste soteropolitano.
Navarro nasceu em 1950. Descobriu o seu fascínio por cinema logo na infância, ao assistir filmes hollywoodianos da época como Bem Hur e Os Dez Mandamentos, além das chanchadas da Atlântida de figuras como Oscarito, Grande Otelo, Zé Trindade e Zezé Macedo. Desde então cinéfilo compulsivo, Navarro só teve o baque que seria cineasta quando assistiu O Fantasma da Liberdade, filme de Luis Buñuel de 1974. A partir daí comprou sua primeira câmera super-8, objeto extremamente ligado à sua futura carreira, e começou a filmar.
Em 76 veio seu debut oficial com o vídeo Alice no país das Mil Novilhas. No ano seguinte, fez O Rei do Cagaço, conseguindo maior visibilidade, expondo o vídeo em universidades, circuitos alternativos e festivais, ganhando inclusive prêmios como no festival de cinema de Recife de 1977. Junto a Exposed, (1978), as três obras compõem o que Navarro descreve como sua trilogia freudiana (Alice no País das Mil Novilhas, o filme oral; O Rei do Cagaço, o filme anal; e Exposed, o filme fálico). Termina a década de 70 com a média de uma produção por ano, com Lin & Katazan, obra baseada no texto de Chico Buarque sobre a relação entre um operário da construção civil e o capataz da obra.
Logo no início da década de 80, filma junto com os cineastas Pola Ribeiro e José Araripe Jr. o documentário Na Bahia Ninguém Fica de Pé (1980) sobre o cinema baiano. Lança em 84 o curta Porta de Fogo, sobre a morte de Carlos Lamarca no sertão da Bahia. Filmado ainda durante a época da ditadura (1982), foi proibido pela ditadura, sob o argumento que era contra o regime democrático. Só conseguiu exibí-lo em 1985, vencendo nas
categorias Melhor Filme e Melhor Roteiro no Festival de Brasília.
Mas foi no final da década, em 89, que Navarro produziu sua obra mais famosa até então: Superoutro, média metragem sobre um louco de rua que tenta se libertar da miséria através de sua imaginação alucinada. Com Superoutro, ganhou os prêmios de Melhor Filme, Melhor Direção e Melhor Ator no festival de Gramado, além da exibição em festivais fora do país como os de Havana, Nova Iorque e Helsinque.
Era o melhor momento de sua carreira. Navarro acreditava que agora as coisas iriam caminhar depois da ótima repercussão de Superoutro. Mas para seu azar, em 90, o recém empossado presidente Fernando Collor extinguiu a Embrafilme e a Fundação do Cinema Brasileiro, órgãos do governo ligados a área de cinema, resultando em um dos momentos mais escassos de produções da cinematografia nacional, o que atingiu em cheio a promissora carreira do baiano.
Essa parada forçada teve fim em 1995 com o documentário Talento Demais, que conta de forma irônica a história do cinema baiano que, nas palavras de Navarro, tem talento demais, mas tá lento demais. Outra tentativa de manter-se produzindo cinema foi em 1999 com o vídeo O Papel das Flores, sobre um fotografo que deseja achar sua foto perfeita e acaba perdendo todo seu material em um incêndio.
Nesse período de poucas produções dos anos 90, Navarro continuou escrevendo roteiros, inclusive para um longa que não chegou a ser rodado, O Homem Que Não Dormia. Mas mesmo com material já pronto, decidiu começar do zero aquele que seria primeiro longa, Eu Me lembro, que Navarro diz ser o de abordagem mais pessoal e, ao mesmo tempo, o que teria melhor receptividade e proximidade do público. O título veio da tradução literal de Amacord, filme de Fellini, um dos cineastas mais influentes na formação de Navarro ao lado de Bergman, Pasolini e Buñuel.
Eu Me Lembro teve a missão de trazer Navarro pela primeira ao grande público. O longa faz um mergulho na vida do cineasta e de toda uma geração que nasceu nos anos 50, e teve sua formação nos anos 60 e 70, através do personagem Guiga. Eu Me Lembro foi o grande vencedor do Festival de Brasília de 2005, conquistando sete prêmios: Melhor Filme, Direção, Roteiro, Atriz (Arly Arnaud), Ator Coadjuvante (Fernando Neves), Atriz Coadjuvante (Valderez Freitas Teixeira) e Prêmio da Crítica.