CULTURA
Personagens de José Araripe Jr. ganham vida na internet


Há mais de 30 anos, onde quer que o cineasta José Araripe Jr. esteja, a mão inquieta rabisca em cadernos pautados, que também são uma espécie de agenda e diário. Entre um telefone anotado e um compromisso marcado, os grafismos seriados foram ganhando formas mais detalhadas e deram origem a personagens.
Nos últimos cinco anos, eles caem diariamente na rede, no projeto Sítio do Arara, acompanhados por minicontos que apresentam suas histórias, características físicas e psíquicas. "Esses elementos começaram a ganhar anatomia, o que tem a ver com cinema, porque é uma coisa de sequência, de animação, e passaram a fazer parte de um desafio meu, como artista, de criar tipos diferentes", conta o diretor do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (Irdeb).
A interação proporcionada pela publicação dos personagens no Facebook e no blog deu um grande estímulo à produção diária e até originou convites para ilustrar dois livros e uma revista.
"Isso me motivou muito, porque, pra quem faz roteiro de cinema e pra quem almeja escrever livro, a disciplina de escrever é fundamental. O desenhar eu já desenhava todo dia desde menino, mas para escrever é preciso muito mais coragem", diz, aos 55 anos.
E completa: "No Sítio do Arara eu já tenho pra mais de mil histórias. Isso também vai exercitando a questão do diretor roteirista. Meus filmes são muito centrados nos personagens. Muitas dessas histórias dariam pequenos curtas ou até longas, se aprofundadas".
Artes plásticas
Formado em artes plásticas na Escola de Belas Artes, Araripe foi contemporâneo de nomes como Bel Borba, Murilo Ribeiro, Guache Marques e Maso. O baiano de Ilhéus enveredou pelos caminhos da sétima arte, mas nunca deixou de exercitar a formação, seja usando lápis, nanquim, pastel, aquarela e xilogravura nas horas vagas, seja aproveitando o conhecimento para direção de arte e storyboard.
"Nunca fui um artista plástico. Eu fiz muito bico de pena, que ainda faço hoje, xilogravura. Nunca tive muita ambição do circuito da galeria, porque eu era um certo crítico dessa arte enclausurada. Fiz um quadro que as pessoas jogavam dardo, por exemplo, instalações e misturas de coisas, com Super8, que hoje se chama de videoarte".
Em seus trabalhos, ele dialoga com as cores, mas se encontra mesmo na dualidade entre o preto e o branco. Este aspecto fica evidente nos desenhos de tatuagens (Tattoo do Sítio, como chama) que faz e também lança na internet. "Para mim, é o auge quando a pessoa manda a foto da tatuagem que fez do meu desenho. Colocá-lo no corpo é uma declaração de que gostou".
A múltipla produção também engloba outras expressões, como letras de música (song book do Arara), no qual letras escritas por ele aguardam melodias de quem se interessar. Outro desdobramento foi batizado de reportagem de baixa tecnologia, experimentação que anima croquis de rostos, com uma trilha sonora.
O cineasta e o gestor
Araripe é mais conhecido como gestor e cineasta, autor do premiado curta Abrakadabra! e do longa Esses Moços, entre outras. "A minha geração chegou na gestão por mérito artístico e político. É um desafio, mas é uma missão também. É quase uma espécie de obrigação para nós. Lutamos contra a ditadura, de certa forma chegamos ao poder, e agora? Vamos sair da teoria para a prática?", indaga Araripe Jr., que fez parte da equipe de criação da TV Brasil e há três anos está no Irdeb, do qual é diretor geral há um ano.
Lá ele cria clipes, documentários e programas como o Multi. "O cineasta está perdendo o preconceito que tinha com TV, porque agora você tem telas. Desde que cheguei na TV Educativa já fiz mais de 500 interprogramas, não sei quantos documentários, mas é praticamente invisível dentro de um status. Porém, um curta vai ter uma vida, ganhar prêmio".
"Eu gosto do que é de massa e efêmero. De alguma forma, minha arte tem essa característica. O objetivo maior de tudo que eu faço é contar histórias", sintetiza.
Conheça o trabalho na página do sítio do arara, no Facebook, e no joseararipejr.fotoblog.uol.com.br