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"Um Homem Bom" estréia em cinemas baianos

João Carlos Sampaio
Por João Carlos Sampaio



Uma olhada mais cuidadosa na ficha técnica da estréia Um Homem Bom (Good, 2008) chama a atenção pela soma de diferentes culturas que a obra envolve. O filme se inspira numa peça de um dramaturgo britânico, C.P. Taylor (1929-1981), sobre acontecimentos ambientados na Alemanha nazista e com direção do brasileiro Vicente Amorim, 43 anos, que chega ao seu segundo longa-metragem de ficção.



Autor de O Caminho das Nuvens (2003), um filme romântico embalado pelas canções de Roberto Carlos, com Wagner Moura e Cláudia Abreu no elenco, Amorim tem apenas uma ligação distante com o tema do novo filme. É que, apesar de brasileiro, ele nasceu na Áustria (vizinha à Alemanha), filho do diplomata Celso Amorim. Excetuando isso, a sua presença como diretor deste filme se ateve a uma opção dos produtores.



Obra solar – A produtora Miriam Segal, que há 20 anos se interessou pela peça de C.P. Taylor, decidiu que queria um diretor latino-americano para rodar este filme como uma obra solar em sua construção imagética, como contraposição à aura cinza do seu conteúdo. A escolha de Vicente Amorim se deu depois que ela viu e gostou de O Caminho das Nuvens.



Exibido na Mostra de Cinema de São Paulo e no Festival do Rio, o filme conta com o ator Viggo Mortensen como protagonista. Ele inclusive esteve no Brasil, em outubro passado, participando de sessões première da fita e de coletivas de imprensa.

Mortensen ficou conhecido por viver o personagem Aragorn, na trilogia O Senhor dos Anéis, e, este ano, concorreu ao Oscar pela atuação no filme Senhores do Crime, de David Cronenberg.



Em Um Homem Bom, o ator interpreta um professor universitário e romancista alemão, que escreve um livro com uma sugestão à eutanásia como algo benéfico em determinados casos. A idéia agrada sobremaneira a ninguém menos que o líder nazista Adolf Hitler, que pensa ser interessante ter este homem como seu colaborador.



Na mente soturna e alucinada do ditador, uma defesa intelectual da eutanásia seria uma ótima justificativa para sacrificar, por exemplo, os nascidos com Síndrome de Down e todos os alemães que, por doença genética ou enfermidade adquirida, não gozassem das pretensas características saudáveis superiores da raça ariana.



Por este motivo, o homem comum interpretado por Mortensen acaba cooptado pelo regime nazista. Sem perceber, ele vai

cada vez mais se integrando ao poder, deixando para trás a vida que tinha.



A esposa, os filhos e o lar aparentemente feliz sucumbem ante uma paixão por uma aluna (personagem da atriz Jodie Whittaker), ao tempo em que toda a sua tábua de (bons) valores vai se dissolvendo.



No clímax do conflito entre o homem que o protagonista sente que é e aquilo que suas atitudes significam aparece a aflita relação com o personagem de Jason Isaacs (de O Patriota), o seu melhor amigo. É que este homem é judeu e passa a ser perseguido pelo mesmo regime que oferece todas as benesses ao tipo vivido por Mortensen.



Um Homem Bom se resolve em pouco mais de hora e meia, sem trazer nenhuma grande verdade universal ou qualquer revolução para a arte cinematográfica. Trata-se de uma narrativa convencional, mas habilidosa, que conta a história de uma personalidade em desintegração, tendo como pano de fundo o sempre atrativo tema do nazismo, síntese daquilo que seria o avesso dos valores humanos mais caros.



Um homem bom | De Vicente Amorim | Com Viggo Mortensen, Mark Strong e Jason Isaacs | Multiplex Iguatemi, Cineplace Itaigara, SaladeArte-Cinema do Museu. 12 anos

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