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CULTURA

“Uma nova proposição estética pode ser tão revolucionária quanto uma lei”, diz Rômulo Conceição

Eugênio Afonso

Por Eugênio Afonso

15/09/2021 - 6:06 h

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Rommulo Vieira Conceição, artista visual | Foto: Isis Medeiros | Divulgação
Rommulo Vieira Conceição, artista visual | Foto: Isis Medeiros | Divulgação -

Geólogo por formação, o artista visual soteropolitano Rommulo Vieira Conceição, 53, acaba de inaugurar (28 de agosto) uma mega instalação no maior museu a céu aberto do mundo, o Instituto Inhotim, em Brumadinho (MG).

A partir de agora, Rommulo passa a fazer parte do acervo permanente do parque e vai figurar ao lado de uma seleta relação de artistas plásticos que também possuem obras no museu, entre eles, mais dois baianos: o escultor Marepe e o fotógrafo Mario Cravo Neto, além de nomes consagrados nacionalmente como Cildo Meireles, Hélio Oiticica e Adriana Varejão.

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O Espaço físico pode ser um lugar abstrato complexo e em construção (nome da obra) tem cerca de 260m² e é atravessado por arcos, cúpulas, paredes, grades, andaimes, quartinhas de candomblé e frontões. Rommulo diz que a instalação quer explorar a construção da identidade brasileira através da dinâmica da diversidade religiosa.

E mesmo com cerca de 25 anos de carreira, exposições no Brasil, Japão, Finlândia, Austrália e Estados Unidos, além de diversos prêmios no currículo, Conceição ainda é um ilustre desconhecido em sua terra natal.

Morando em Porto Alegre desde o ano 2000, onde é professor de geoquímica na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Rommulo prefere acreditar que a Bahia ainda não o (re)conhece por falta de oportunidade, afinal ele saiu daqui ainda muito jovem.

Com vários projetos em andamento e sempre focado em construir um trabalho a partir da percepção do lugar e do espaço que o homem contemporâneo ocupa, Conceição conversou, por e-mail e WhatsApp, com o Caderno 2+ sobre a instalação de Inhotim, a função da arte, preconceito racial e a relação com a Bahia, dentre outros temas.

Fale um pouco sobre essa obra que agora faz parte do acervo de Inhotim.

Este trabalho consiste de arcos romanos, arcos e uma cúpula islâmicos, frontões clássicos, cúpulas de mesquitas israelitas, paredes de templos pentecostais e quartinhas de candomblé, convivendo com uma meia-parede escolar e classes de carteiras organizadas em fileiras em um ambiente de construção. Ele quer explorar a dinâmica da multidiversidade religiosa brasileira, tendo sido marcada pela predominância católica (representada pelos arcos), mas que nos tempos atuais muda com o avanço das religiões neopetencostais (marcadas por frontões e fachadas clássicas). Essas referências religiosas no Brasil foram sempre construídas em detrimento de outras religiões consideradas minorias, o que significa que a nossa multidiversidade não é praticada em harmonia. Os elementos sugerem que tudo isso é uma construção de identidade (metaforicamente apresentada pelos andaimes de construção civil, ou pela imensa parede escolar e classes espalhadas em toda a obra), e que podemos construir algo melhor, mais harmônico e possível.

O que significa ter uma obra permanente no maior museu a céu aberto do mundo?

Para mim, isso significa muito. Todo o trabalho com a instituição foi feito de uma forma muitíssimo profissional. Inhotim tem uma estrutura incrível e invejável. Eles me ofereceram um tempo para pesquisa e a partir disso foi sugerido o trabalho que está exposto. Depois da proposição, o projeto teve que ser aprovado em instâncias superiores e isso foi muito bacana. Para mim, o maior significado de ter uma obra em Inhotim é a possibilidade de desenvolver um trabalho sério, em conjunto com a instituição e sem fronteiras.

Quando percebeu o interesse pelas artes, já que sua formação é na área de geologia?

Acho que meu interesse nas artes vem antes da geologia e esteve sempre presente em mim. Desde os desenhos de criança até as questões existenciais depois. Aos cinco anos, minha mãe me colocou na Escola de Música. Quando ela deixou de ser só de música e passou a ser escola de artes, com a introdução das artes plásticas, meu interesse pelas artes visuais logo se manifestou. Meu segundo grau foi na Escola Técnica Federal da Bahia. Ali, havia um tipo de Liceu das artes, onde podíamos aprender e desenvolver as técnicas de artes visuais, dança, teatro, música e canto. Como eu já gostava das artes, me inscrevi nas artes plásticas e fui orientado por Célia Prata. Lá, aprendi técnicas de cerâmica, desenho e pintura. Acabei fazendo geologia, na Ufba, e levando artes em paralelo, sempre comigo.

Onde e como as duas profissões se entrelaçam?

Acho que artes e geologia se encontram nas ideias. O artista não é apenas aquele que trabalha com determinado meio ou ferramenta. Podemos usar vários meios para expressar uma ideia ou chegar a uma construção visual que seja interessante, nova, propositiva, indagadora. Acho que a geologia me ensina que tudo é passageiro e tudo muda. Ela me dá a dimensão de um tempo longo e profundo, da mudança do próprio espaço. Essa forma de ver a vida, passageira, com possibilidade de imbricamentos e vestígios de registros me interessa muito.

Por que já expôs em tantos lugares, inclusive fora do país, e não na Bahia? Guarda mágoa dessa suposta indiferença da sua terra?

Acho que está faltando oportunidades. Saí de Salvador aos 24/25 anos, hoje estou com 53. Grande parte da minha formação nas artes foi feita fora de Salvador. Sempre voltei a Salvador para visitar a família e sempre estive ligado à cidade. Na área das artes, acho que falta um sistema mais estruturado. Há museus e algumas galerias incríveis. Se formos pensar em termos de aparelhos, Salvador apresenta diversos lugares interessantes para pensar nas artes visuais e para exposições. Mas talvez essas instituições estejam voltadas à comunidade local, ou alternativamente a artistas mais consagrados. De uma certa forma, quando saímos da Bahia, ela nos esquece um pouco! Mas não guardo rancor nem mágoa. Só agradecimento, inclusive.

O que falta para a Bahia ainda te reconhecer como artista?

Não sei responder essa pergunta. Mas podemos começar com uma exposição relevante.

O que quer a sua arte?

Minha arte quer muita coisa! Mas a principal é que o observador tenha interesse em lê-la, decifrá-la a partir do seu próprio acervo de conhecimento. Que o público abra um tempo na sua agenda para observar e se interesse em ler o que estou propondo. Que o observador desacelere um pouco e que possa ler o que está sendo apresentado e que tenha várias camadas de interpretação. Acho que a arte é feita dessa forma: eu proponho coisas a partir do meu acervo de conhecimento ou dos meus interesses, mas o público lê essas propostas a partir dos seus próprios acervos de conhecimento. Com isso, vamos construindo linguagens, interpretações e temas que são sobreposições de tudo o que nos une, tudo que nos constitui como conhecimento humano.

O fato de ser negro e baiano dificulta, de alguma forma, sua circulação no universo das artes plásticas fora da Bahia?

Tenho 53 anos e vi a figura do negro mudar ao longo da história. Essa figura mudou, inclusive em Salvador. Embora eu seja negro, não carrego comigo, pelo menos como interesse direto, as questões da ancestralidade, a diáspora, a carga cultural desejada pela sociedade como sendo negra. Para mim, o fardo de ser negro no Brasil é dado pela manifestação desse corpo negro no espaço. O preconceito no Brasil se dá pela manifestação desse corpo negro no lugar onde ele não é esperado! É esperado o negro nos cargos de subserviência. O fato de ser baiano, para mim, como negro, é menos relevante do que o fato de ser negro. Então, se houve dificuldades nessa trajetória toda, acho que esse corpo manifestado no lugar onde ele não deveria estar foi um determinante para que eu quisesse estar nesses lugares, que eu pudesse falar sobre o que me interessa, e não o que a agenda dos outros me impunha para falar, pensar ou manifestar. Para mim, viver como uma criança e adolescente negro na Bahia foi difícil! Viver como um dos únicos cinco estudantes negros ao longo do tempo em que eu estive no curso de minha graduação foi difícil! Parece estranho, visto que mais de 80% da população baiana se diz negra ou parda. As minhas grandes dificuldades vieram do fato de ser negro, não de ser baiano.

Você é um artista que trabalha com várias técnicas. Como se dá esse processo? Qual meio te interessa mais?

A arte contemporânea se apropriou do conceito mais do que da técnica. De todas as mídias, talvez a pintura ainda guarde essa característica de ofício. Não me interessa exatamente uma técnica ou uma mídia, embora os trabalhos em três dimensões sempre me interessem mais do que os bidimensionais. Gosto dos trabalhos instalativos pela proporção deles com o corpo humano. Acho que me aproprio de tudo que me interesse para conseguir chegar a um trabalho que seja visual e que tenha atributos conceituais. Colocar o conceito acima do visual não me interessa.

Morando há muitos anos fora da Bahia, como enxerga o mercado de arte por aqui?

Eu não consigo responder essa pergunta de forma precisa, pensando na Bahia. A Bahia que eu conheço tinha um interesse enorme na arte barroca, geralmente religiosa, e no modernismo tardio. Não sei se isso mudou em relação à arte contemporânea. Mas acho que o mercado das artes, de uma forma geral, tem que ser entendido como uma bolsa de valores de longa duração. Então, se há mercado forte, isso existe pela percepção do valor da obra de arte como um investimento com um retorno de longa duração. É preciso que se tenha na Bahia uma instrução da arte como um potencial de investimento. E um reconhecimento do sistema da arte como um todo. Acho isso ainda frágil na Bahia.

O que a arte propõe, ou deveria propor, para uma convivência mais equânime entre os povos?

A Arte não tem esse poder. A arte parte do interesse do proponente. E geralmente esse interesse é contemporâneo à sua época. Alguns artistas propõem trabalhos que apontam para o desequilíbrio social, ou que demonstram possibilidades para uma maior equanimidade na sociedade ou entre os povos. Mas a arte não é uma bula, uma fórmula, uma tábua de salvação. Uma nova proposição estética, por exemplo, pode ser tão revolucionária quanto uma lei. Vejo a arte como um termômetro do seu tempo. Mais do que uma proposição. Uma proposição sempre é tendenciosa. A arte não.

O que há de expressão baiana em seu trabalho?

Eu mesmo. Eu sou baiano, logo sou a expressão baiana em meu próprio trabalho. Tenho todos os acervos que a Bahia me deu no tempo, somados ao fato de todos os acervos gaúchos e de todos os lugares onde passei.

Quais os próximos projetos?

Tenho vários. Alguns práticos: uma exposição individual em São Paulo, prevista para o ano que vem. Alguns projetos de esculturas para um empreendimento e uma exposição coletiva que deve acontecer em novembro ou dezembro desse ano em Porto Alegre. No campo dos projetos, eu tenho investigado a ascensão e a mudança da matriz religiosa brasileira do catolicismo ao neopentecostalismo. Isso tem me interessado como fenômeno social, político e econômico. Essas pesquisas que tenho desenvolvido estão parcialmente expressas no trabalho que está exposto em Inhotim e deverá ser um assunto de interesse nos meus próximos anos. Tudo isso sem perder a poética no que já venho desenvolvendo, que é a partir da percepção do lugar e do espaço que o homem contemporâneo ocupa.

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