ECONOMIA
Trabalhadores paralisam a Sansuy

Demitidos não-indenizados e empregados realizam protesto nas unidades de Camaçari (BA) e de Embu (SP)
Berna Farias
Sem solução para o pagamento da rescisão dos mais de 170 demitidos e com os 470 ativos também enfrentando dificuldades, empregados da Sansuy S.A. Indústria de
Plásticos, localizada em Camaçari, paralisaram as atividades da fábrica durante todo o dia de ontem.
Policiais do 12º Batalhão da PM foram chamados pela direção da Sansuy e permaneceram no local também por todo o dia, mas não houve atrito com os trabalhadores.
A paralisação ocorreu nas duas fábricas da Sansuy em atividade: Camaçari e Embu, em São Paulo, e pode continuar hoje. A crise na empresa vem se intensificando desde dezembro, quando 415 trabalhadores foram demitidos 174 na Bahia e 241 em São Paulo.
A princípio, as demissões ocorreram sem justificativas mais concretas. Mais tarde, surgiram rumores de que a Sansuy estaria em processo de falência. O gerente administrativo na Bahia, Yoshiro Murata, não quis falar com a imprensa, assim como o presidente da empresa, Takeshi Honda, que fica em São Paulo.
O clima de incerteza começa a se transformar em desespero para os demitidos. Um deles é Arivaldo Cedro Batista, de 48 anos e mais de 23 trabalhando na Sansuy. Desligado no dia 14 de dezembro dos quadros da
empresa, ele ainda não teve calculada sua indenização.
O único repasse feito pela Sansuy foi um depósito de R$ 800 na conta de cada um dos demitidos, no dia 13 de janeiro.
Não adianta esse depósito, porque, quando cai na conta, o banco já leva. Tem companheiro que ficou sem nada, outro ficou com R$ 5, diz José Raimundo Bastos de Azevedo, 11 anos de empresa e também demitido.
Com mulher grávida e passando por dificuldade, ele resume: A situação está ruim. Unidos com os trabalhadores ainda empregados, eles participaram ontem do piquete na porta da fábrica, que prometem manter hoje caso não seja tomada nenhuma providência para pagar a rescisão dos demitidos e a segunda parcela do 13º salário dos ativos.
CESTA-ESMOLA As irregularidades não páram por aí, segundo o diretor do Sindicato Químico/Petroleiro, Luís Tavares. A empresa não estaria recolhendo o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) nem o INSS dos trabalhadores.
A queixa já foi prestada na Delegacia Regional do Trabalho (DRT). Segundo o gerente administrativo da Sansuy em São Paulo, o faturamento da empresa, lá, é de R$ 700 mil por dia, R$ 21 milhões ao mês, o que já daria para fazer a rescisão de todos os demitidos na Bahia, disse o sindicalista.
A Sansuy de Camaçari não informou seu faturamento, mas o sindicalista, também funcionário da empresa, garante ser alto. Lá, são produzidos biodigestores, lonas para cobertura de caminhões, manta para forro de barragem, toldos, plásticos transparentes para a indústria automobilística, tanques-rede para criatório de peixes, plásticos para comunicação visual (adesivos, etc) e uma série de outros produtos.
Outra medida que revoltou os trabalhadores foi a oferta de cestas básicas, além dos R$ 800 depositados na conta dos trabalhadores outro depósito, no mesmo valor, deverá ser feito entre 13 e 17 de fevereiro.
As cestas, no valor de R$ 23 para os trabalhadores paulistas e de R$ 15 para os baianos, foram recusadas, principalmente pela exiguidade do conteúdo um quilo de açúcar, dois de arroz, dois de feijão, pacote com 500 gramas de macarrão, pote com 250 gramas de margarina, duas garrafas de óleo de soja com menos de um litro cada e uma lata de 260 gramas de extrato de tomate.
CADEADO Utilizando dois carros pequenos uma viatura do Batalhão, outra da Ronda Escolar de Camaçari e um microônibus padronizado com a faixa amarela de Transporte Escolar, placas KRE-7713, policiais do 12º Batalhão da Polícia Militar, sediado em Camaçari, montaram guarda nas imediações dos portões da fábrica.
Mal humorado, o capitão João Neto, que comandava a operação, disse que eles foram chamados porque os trabalhadores colocaram três veículos diante dos portões e puseram neles um cadeado, para impedir a entrada na fábrica.
Solicitamos que eles tirassem os veículos e fomos atendidos, não tivemos nenhum problema, disse o capitão. Indagado sobre o uso de veículo próprio para transporte escolar, ele alegou que o microônibus foi emprestado porque o Batalhão não dispunha de viaturas grandes para transportar o contingente segundo ele, de 23 policiais; segundo os trabalhadores, cerca de 50.
O cadeado, não fomos nós que colocamos. Foi a direção da empresa, que é unha e carne com a Polícia de Camaçari, para nos incriminar, retrucou Luís Tavares.
A situação da Sansuy, segundo o Sindicato Químico/Petroleiro, é complicada e nebulosa, porque as informações não são passadas com clareza aos funcionários nem ao sindicato. No dia 21 de dezembro de 2005, a empresa deu entrada na 3ª Vara Cível de Embu, São Paulo, com um pedido de Recuperação Judicial.
A meta é ganhar prazo de 180 dias para negociar diretamente com os credores. A empresa também alega falta de recursos em caixa para comprar matéria-prima e continuar operando. O sindicato contesta, alegando que, de janeiro a novembro de 2005, a Sansuy divulgou um faturamento líquido de R$ 264 milhões.