TENDÊNCIA EM 2023
Desejo de muitos profissionais, mudar de carreira requer planejamento
Segundo levantamento, 77,2% dos profissionais pretendem mudar de carreira em 2023

Após passar dez anos dedicados à advocacia, Hela Cerqut decidiu dar um giro de 360º em sua vida. Ela decidiu deixar o escritório de lado e atualmente é uma 'artista emergente'. Ela considera que não chegou a ser infeliz enquanto advogada, mas também não pode dizer que estava feliz. Um dos momentos mais sensíveis foi vivido na pandemia, quando desenvolveu a síndrome de burnout.
Quando estudante, 'atirou para todos os lados' e prestou vestibular para as mais diversas áreas. "Minha mãe disse assim: 'bote direito aí'. Passei. Aí ela me viu sem ter muita perspectiva e me deu direcionamento, e nessa, fui deixando a vida me levar. Me formei, advoguei, tive meu próprio escritório", lembra Hela sobre o início da carreira.

Durante a pandemia ela fez algumas pesquisas e se deparou com o escritor Simon Sinek, que induz o leitor a encontrar o próprio 'porquê' de existir. "Daí, chorei. Pensava que minha vida não tem o porquê... Nos exercícios de um dos livros, descobri que meu porquê é tornar a vida das outras pessoas mais leves. Neste caso a advocacia se encaixava. Só que eu não estava mais dando conta de ter uma vida de 'b.o'". E durante um passeio nas Cataratas do Iguaçu, ela decidiu pela guinada. " Nos primeiros meses não consegui. Mas voltar não era opção. Decidi ir e fui".
Esta mudança de carreira deve ser praticada por 77,2% dos profissionais que responderam um levantamento da plataforma Empregos.com.br. A principal causa é a insatisfação com o trabalho atual, que atinge 81,1% das pessoas ouvidas. Para 70% dos profissionais, a mudança será em busca por melhores salários. E 22,4% considera os benefícios oferecidos pelo futuro empregado. Apenas 7,5% levam em conta se a vaga é home office.
Esta insatisfação com a posição atual se deve a uma falha de preparação da infância e adolescência para a escolha profissional, segundo considera a psicóloga organizacional especialista em gestão de carreira, Alcina Mendes, diretora da LimiarRH consultoria. "Muitas vezes a gente não está preparado, pois durante a infância, adolescência, não houve preparação para decisão tão importante de algo que deveria ser para a vida toda. Quando ela se depara com atividades, a prática profissional, o estilo de vida da profissão, que não é como esperava, aí vem a insatisfação. Ocorre muito em função de uma primeira escolha precipitada".
Ela pontua ainda que também há questões externas que podem colaborar com a decisão de trocar de carreira. "É função de mercado, de crise econômica, de falta de possibilidade de fazer uma carreira bem sucedida. Então, o indivíduo fica a mercê, não só das questões próprias da sua natureza, existem outras envolvidas no processo que precisam ser levadas em consideração também".

Em qualquer que seja o caso, a mudança deve ser realizada de forma responsável e consciente. "A mudança tem que ser responsável. Muito consciente. Então, se houve já a escolha por uma profissão, o ideal é que quando a insatisfação chegar, encontre a causa raiz. É preciso ter muita propriedade do que está deixando insatisfeito ou feliz. Às vezes não é a profissão, é o contexto do trabalho, equipe, chefia, o mercado... Então, o ideal é explorar todas as possibilidades dentro da profissão e identifique a real causa da insatisfação".
Por outro lado, ela alerta que as empresas precisam estar atentas quanto a importância da humanização para se reter talentos e ter melhores resultados. "É valorizar o ser humano, que é quem faz ela acontecer. É muito delicado, mas são muito poucas as organizações que têm esse princípio".
É preciso fazer o possível para se dar conta se algo não faz bem, e isso é para trabalho, "relacionamento e tudo que está no contexto humano. As pessoas têm de ser muito bem orientadas para o autoconhecimento, autopercepção e reflexão".
Ela reforça que assim como tudo na vida, a mudança precisa de planejamento. "É fazer o reparo do equívoco que houve no primeiro momento, para que seja evitado em uma transição de carreira. Se não está tão preparado ou consciente, é importante se preparar, talvez buscar um profissional ou orientação vocacional".
Alcina orienta que antes de concretizar a mudança, é necessário buscar experiência, compreender como funciona o mercado na nova área, e realizar pesquisa para compreender a direção. "Não adianta sair de uma área e ir para outra sem essa direção".
Hela Cerqut, a 'artista emergente' do início da reportagem, deixa dicas a quem também pretende dar um giro na vida profissional. "Leia o livro 'Encontre seu porquê', de Simon Sinek. Não é fácil, não tenho uma dica que vai ser o click, que vai acender uma luz na cabeça dos outros. A gente tem que olhar para dentro, não tem outro caminho".
Ela pontua que o livro não é uma receita de bolo, mas vai orientar a encontrar o motivo pessoal da vida de cada um. "Vai mandar você olhar para dentro e entender o porque você está aqui. Agora, como exercer isso, são diversas formas. A minha, por exemplo, é tornar a vida das outras pessoas mais leves. Fiz como advogada, agora no entretenimento".
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