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Mais de 2,3 mil negócios do segmento de usados foram abertos no país

Projeção é que o setor que comercializa objetos de segunda mão movimente R$ 24 bilhões por ano até 2025

Publicado domingo, 09 de outubro de 2022 às 06:00 h | Autor: Ruan Amorim*
Caio e Silvio criaram a Garimpo Home
Caio e Silvio criaram a Garimpo Home -

O aumento expressivo dos preços de móveis, roupas, calçados e acessórios tem impulsionado o mercado de segunda mão no Brasil. A projeção é que o setor de compra e venda de usados movimente R$ 24 bilhões por ano no país até 2025, segundo estudo do Boston Consulting Group (BCG) com o Enjoei. Nesse contexto, empreendedores do ramo de revenda e seminovos  projetam alta nas vendas neste semestre. 

O aquecimento no nicho pode ser percebido por meio do surgimento de novas empresas que trabalham com o comércio de usados. Nos primeiros seis meses do ano, 2.308 pequenos negócios que atuam no mercado de revenda foram criados no país, segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas (Sebrae).

Dentro do mercado de segunda mão, um segmento que tem se destacado é o de moda. Por causa da inflação alta que tem pesado na indústria têxtil e alavancado o valor do vestuário, garimpar cada vez mais peças em brechós tem se tornado tendência. Quem tem percebido esse movimento é a publicitária e sócia-proprietária do Brechó QuerUsar, Tatiana Figliuolo, 51. De acordo com ela, o custo baixo é um dos motivos que impulsiona a busca por esse tipo de empreendimento.

“Ouvimos o tempo todo das clientes que até as lojas de fast fashion ou departamento, que antes possibilitavam a aquisição de roupas mais baratas, estão com patamar de preços bem mais altos. As grifes, nem se fala, não são acessíveis para a maior parte da população. Para quem busca preço, restam as opções dos sites asiáticos, cuja qualidade e processos produtivos e de gestão são altamente questionáveis; e os brechós, onde as pessoas encontram qualidade, variedade e custo baixo”, esclarece Tatiana. 

Foi em 2018 que a publicitária iniciou o QuerUsar. Na época, o empreendimento surgiu como projeto de cura de uma depressão desencadeada pela síndrome de burnout. A comercialização amadora de artigos usados, que era uma atividade terapêutica para Tatiana, em março de 2020 se tornou uma empresa de empreendedorismo social e sustentável. “Formalizei a empresa tendo minha mãe como sócia e abri a loja física na Barra, sem imaginar que em 15 dias da  inauguração, pegaria uma pandemia pela frente”, conta Tatiana. 

Apesar dos obstáculos, a empreendedora conseguiu se reinventar e aproveitar as oportunidades que surgiram em meio às adversidades, tanto que no período conseguiu crescer em faturamento e número de seguidores no Instagram. Para este ano, as expectativas também são favoráveis. ”Estamos projetando um crescimento de 20% para esse semestre”, diz Tatiana.

Ao observar a crescente demanda do mercado de usados, neste ano a empreendedora Simoni Machado, 53,  também decidiu investir em um brechó. Antes de entrar no negócio de usados, ela já comercializava acessórios e roupas de primeira mão na sua loja Sibi, hoje também brechó. 

“Comecei durante o bazar dos bazares, que é um evento de encontro de brechós, junto com acessórios que eu já vendia. Nesse processo, eu amadureci a ideia de ter também um espaço para itens de segunda mão. Juntamente com a demanda, um dos motivos que me incentivou a entrar nesse mercado foi o fato de que a minha mãe  sempre teve  um brechó e eu sempre gostei de trabalhar com isso”, esclarece Simoni.

Para este semestre, a proprietária do brechó Sibi, assim como Tatiana, também acumula expectativas positivas. De acordo com Simoni, “é possível aumentar as vendas em até 50% com as festas de final de ano chegando”. Mas para vender bem as peças de roupas, uma boa curadoria do que vai ficar à vista nas prateleiras tem que ser feita. “Eu faço a avaliação da peça, lavo, e após esse processo, coloco a peça à venda”, acrescenta Simoni. 

Além disso, Simoni faz das redes sociais aliadas no momento de vender e busca precificar o produto com base na sua condição estética e também na qualidade do material. “Tento ser o mais justa possível para que a peça tenha o seu devido valor, assim como a porcentagem de serviço do brechó, ou seja, o que fica de lucro para o empreendimento”, ressalta a empreendedora. 

Fora do eixo da moda, o ramo de móveis e decoração também faz sucesso com a comercialização de artigos de segunda mão. Criada em 2020 na pandemia, a startup Garimpo Home tem fomentado esse mercado com a compra e venda online de móveis seminovos e restaurados. De acordo com o arquiteto e sócio-fundador da marca, Caio Martins, a ideia de montar a empresa surgiu no processo de reforma do apartamento do também idealizador da Garimpo, Silvio Regis.

Foi o questionamento de Silvio sobre o que fazer com os móveis e peças que não seriam mais aproveitadas em seu apartamento, o pontapé para criação do negócio. “Ele se questionou também sobre a necessidade da compra online e como  conseguir boas oportunidades de móveis e objetos de qualidade sem gastar uma fortuna e alcançar seu novo espaço em casa, com todo o diferencial de ter um projeto bem elaborado, diferenciado e de menor custo de investimento. Foi assim que a Garimpo surgiu”, explica Caio. 

Apelo sustentável

Quando o assunto é conquistar os clientes, a sustentabilidade se torna um apelo e tanto para o mercado de segunda mão no Brasil. É o que tem percebido Caio. Segundo ele, em um mundo repleto de crises ambientais, econômicas e sociais, as pessoas estão buscando soluções mais acessíveis e sustentáveis. 

“Ao buscar por móveis de segunda mão, por exemplo, elas sabem que vão adquirir um produto de altíssima qualidade pela metade do preço de um novo na loja e ainda estimular o ressignificado e reuso de peças. A população sabe que esse tipo de ação reduz diretamente o consumo de madeira, um recurso escasso no planeta”, diz o arquiteto. 

Nesse cenário, tanto o preço mais acessível quanto a sustentabilidade tem contribuído para o bom desempenho da startup.  “Tivemos nos últimos 4 meses um crescimento significativo. E nosso posicionamento e estratégias hoje estão mais maduros. A expectativa de crescimento de vendas para o final de 2022 é de 500%”, esclarece Caio. 

Referência na compra e venda de usados no Brasil, a OLX  proporciona autonomia a milhares de brasileiros que querem ter renda extra com itens parados em casa.  De acordo com a general manager do e-commerce, Regina Botter, o levantamento Brasil Digital, realizado pela plataforma em 2020, reforça as diversas oportunidades de empreender com itens usados. 

“Entrevistamos  2 mil usuários da plataforma e descobrimos que  63% deles possuíam, naquele ano, ao menos um objeto em casa sem uso. Apenas 23% deles venderam algo usado. Essa mesma pesquisa mostrou que os brasileiros têm, em média, R$ 4,7 mil em itens parados em casa”, diz.

Nesse contexto, a general manager diz  que vender um produto usado, de forma online, é uma oportunidade positiva em dois eixos: sustentável e renda.  E isso tem sido cada vez mais valorizado pela sociedade. “Além da adoção de novos hábitos de consumo mais conscientes em relação ao meio ambiente, o cenário econômico atual também tem levado as pessoas a buscarem por produtos com valores mais acessíveis”, explica Regina. 

Estratégias de venda

Comercializar um produto, não importa qual seja, sempre requer estratégias. É o que explica o economista e analista na Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae/BA, Anderson Teixeira, 32. Quando se trata especificamente do comércio de roupas em brechó, ele diz que “o ponto principal é o empreendedor conhecer o perfil do seu cliente, porque o perfil de público que procura comprar roupas em brechós é bastante variado, com clientes que vão desde os mais modestos aos mais descolados e exigentes”.

Para quem está atuando com a venda de artigos de segunda mão no geral, o especialista recomenda apostar nas vendas pela internet, através de sites, plataformas de marketplace e redes sociais. Segundo Anderson, estar nesses lugares é um fator de sobrevivência, sobretudo, para os pequenos negócios.  

“Nesse sentido, a internet, principalmente as redes sociais são ótimos canais de divulgação e relacionamento com o cliente. A interação entre o mundo físico e virtual no pós-pandemia já é uma realidade no mercado, então, se possível, essa conexão deve ser realizada, aprimorada”, afirma o analista.

*Sob supervisão da editora Cassandra Barteló

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