ENTREVISTAS
"Economia circular só se faz com inclusão social"
Leia entrevista completa com a articuladora das economias da vida, Liu Berman

A forma como produzimos e consumimos precisa mudar — e rápido. Para a articuladora das economias da vida, Liu Berman, a economia circular é peça central nessa transformação, que envolve repensar hábitos, políticas públicas e o papel de cada setor da sociedade. Nesta entrevista exclusiva ao A TARDE, ela explica que esse movimento só ganha força quando chega aos territórios.
O Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC), idealizado por essa empreendedora baiana, tem justamente essa missão de aproximar políticas, iniciativas e pessoas. “Não vai haver transformação ecológica se quem está na ponta não estiver preparado”, explica Liu.
Com esse objetivo, o Fórum realiza nesta semana mais um evento em Fortaleza. “O Fórum cumpre esse papel de chegar nos territórios e mostrar o que está acontecendo”.
Ao longo da conversa, Liu destaca que a economia circular vai além da reciclagem e exige inclusão social, inovação e mudança de mentalidade. “O lixo é erro de design”, pontua, ao defender que soluções precisam ser pensadas desde a origem dos produtos.
Ela também reforça o protagonismo do Nordeste nesse cenário e o potencial do modelo para gerar empregos e reduzir desigualdades.
Confira a entrevista completa com Liu Berman
Você já disse que falar de economia circular hoje é falar de sobrevivência. Por que esse tema se tornou tão essencial para a humanidade?
Quando falo de sobrevivência, é porque realmente é preciso mudar a forma como a gente se relaciona, consome, faz uso dos materiais. A gente não tem mais tempo e está sentindo isso na pele nos territórios. Como sociedade, precisamos entender nosso papel, nossa responsabilidade. Mas a gente ainda tem um caminho bem longo para percorrer.
Um dos grandes papéis do Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC), é trazer essa pauta para os territórios de forma mais democrática. O fórum é sobre economia circular, mas também trata das diferentes e novas economias. Ou, como o governo federal tem chamado, as economias da vida, que são a economia criativa, a economia circular, solidária, a economia azul. São novas formas de olhar para a economia, a partir de uma perspectiva de desenvolvimento sustentável.
O Fórum cumpre esse papel de chegar nos territórios e mostrar o que está acontecendo. Mostrar quais são os programas do governo federal. Porque tem muita coisa acontecendo no âmbito da política pública. A gente tem o Ministério da Fazenda com o Plano de Transformação Ecológica, que é um grande norteador desse processo.
O Consórcio Nordeste também criou o seu Plano de Transformação Ecológica. Quando a gente traz o Ministério da Fazenda para falar sobre seu plano, para mostrar ao território o que é, o Fórum cumpre o papel de fazer essa aproximação do poder público com quem está na ponta. E quando a gente faz isso, de certa forma, está levando educação, cultura, conhecimento, e preparando o território para essas transformações. Não vai haver transformação ecológica se, quem está na ponta, não estiver preparado.
A indústria precisa entender que a economia circular não é sobre um custo a mais. Quem ainda está pensando dessa forma vai ficar para trás
Qual é o papel dos catadores na economia circular e como garantir a humanização desse processo, reconhecendo sua importância como protagonistas e promovendo maior visibilidade e melhores práticas?
A agenda da economia circular ainda é pouco conhecida. Por volta de 70% de tudo que a gente recicla, por exemplo, no Brasil, passa pelas mãos dos catadores informais. E quando a gente olha para a economia circular, entende que ela só se faz realmente com inclusão social.
Agora mesmo, conhecemos a história de uma liderança de catadores de um território aqui pertinho, que está inclusive participando do filme. Tem um filme que se chama Catadoras, que é de Deyse Porto, que é de Salvador, inclusive. E a gente vai exibir o filme dela aqui, na programação, no cinema do Dragão do Mar, em Fortaleza. E uma das catadoras protagonistas do filme é daqui do território. Estamos fazendo uma sessão de cinema para os catadores e as catadoras da comunidade. Muitos nunca foram a um cinema. Obviamente, os catadores são protagonistas desse processo, mas a gente vê a economia circular também na indústria, nos pequenos empreendedores.
Muitas atividades podem ser incluídas nesse conceito de economia circular?
No Plano Nacional de Economia Circular, a gente trabalha com dez eixos temáticos. Todos esses eixos, de forma transversal, se relacionam com outras economias. Por exemplo, quando a gente fala de economia criativa na circularidade vê o trabalho das costureiras que fazem peças com as lonas que sobram dos eventos. Isso é a criatividade em um processo de circularidade. Aquilo ali era resíduo e o resíduo têxtil é um dos grandes problemas. Mas, agora, estamos vendo o resíduo têxtil, o resíduo plástico sendo reaproveitado, reutilizado e transformado em outro produto.
Na indústria, já existem muitos programas para estimular essa mudança. Esse processo que o governo federal precisa mostrar para que a indústria veja e entenda que isso não é sobre um custo a mais. Que ela vai gastar mais para trazer a circularidade para dentro dos negócios. Na verdade, quem ainda não está pensando dessa forma vai ficar para trás. Não tem jeito.
No Nordeste, a gente tem grandes indústrias do setor têxtil. É muita coisa concentrada aqui no Ceará. O Ceará, por exemplo, tem um potencial enorme no reuso de retalhos. O Nordeste tem essa força produtora mesmo, de material pós-consumo. Isso tem crescido bastante. O próprio turismo também, que é uma das cadeias que mais desperdiça e poderia faturar muito mais.
A falta de entendimento da economia circular, acaba não dando espaço para perceber que muitas das práticas, às vezes, que a gente já tem no nosso dia a dia, vem desse conceito. É você pensar que o lixo é erro de design. As meninas da Ideia Circular falam muito sobre isso: lixo é erro de design. Se virou lixo é porque aquele produto, aquela embalagem, não foi pensada para ter um ciclo de vida de materiais completos. O design circular é uma ferramenta absurdamente essencial nesse processo de transformação.
Lixo é erro de design
O ideal então é pensar o conceito de economia circular já no início da concepção do produto?
Na hora que a indústria vai botar um novo produto ela consegue imaginar as embalagens pensando de forma circular, isso aí gera um impacto positivo absurdo. Porque você deixa de produzir o resíduo. Não tem mais como não olhar para esse lugar. Por isso que a gente fala muito: senão agora, quando? Às vezes a falta de conhecimento afasta muita gente.
Os povos originários, por exemplo. Eu fiz uma entrevista ontem com a secretária de Povos Originários aqui do Ceará e aí a gente estava falando exatamente isso: aproveitar o que vem da terra é não desperdiçar nada. É ter um ciclo circular das cadeias produtivas.
Qual é o papel da inovação e da tecnologia no avanço da economia circular, especialmente na criação de novos processos produtivos mais sustentáveis?
Total. A tecnologia, a inovação e a criatividade é que dão escala para isso. São elas que fazem com que a economia circular ganhe a escalabilidade que precisa. Temos muitos editais de financiamento para incentivar a produção e a criação de projetos de inovação, utilizando a tecnologia para acelerar essa transição, essa nova produção, essa embalagem. Enfim, tem muita coisa de tecnologia acelerando esse processo.
Você falou sobre criatividade, e sabemos que a arte também pode impulsionar a economia circular. Como a arte e a criatividade podem contribuir, na prática, para fortalecer esse modelo?
Eu tenho 20 anos de economia criativa, sabe? Não é sobre transição de carreira. Mas, depois de 20 anos experimentando muita coisa de linguagem artísticas, de produções de pequeno e médio porte, comecei a me questionar muito como poderia utilizar essa minha capacidade de criar em rede, o meu capital intelectual criativo, para empoderar uma causa que acredito. Todo o meu conhecimento e o meu realizar está dentro da criatividade. Porque acredito na criatividade como uma ferramenta de aceleração e geração de valor. E ela caminha junto com a economia circular. Elas andam de mãos dadas.
Eu venho fazendo uma articulação nos ministérios, porque vim da criatividade nordestina. Pensa só: uma nordestina, baiana, morando em São Paulo, falando de um tema que está muito concentrado no Sul e no Sudeste.
Aí eu comecei a fomentar a construção de uma rede e de uma plataforma de articulação territorial, para falar de novas economias pautadas na economia circular. Isso foi em 2023, quando o Plano Nacional de Economia Circular estava em construção. Eu, inclusive, participei de um grupo, ‘Elas na economia circular’, dentro do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, para olhar para o recorte de gênero da cadeia. Quem são essas mulheres que estão atuando na economia circular? Sempre defendi que o Ministério da Cultura precisa dialogar com o que as outras áreas estão fazendo. Assim como o Ministério do Meio Ambiente. E a gente tem visto esse movimento já acontecendo.

Você mencionou o Plano Nacional de Economia Circular. Na sua avaliação, qual é a importância dessa política pública para articular os diferentes atores envolvidos?
A política pública é sempre fundamental. Está saindo também o Plano Nacional de Economia Criativa que é importantíssimo. Nunca pensei que estaria tão envolvida na política como estou hoje. Mas é porque entendi que só iria conseguir fazer isso que estou fazendo se tivesse como acessar lideranças políticas, tomadores de decisão, quem assina a lei no final do dia.
A gente precisa fazer com que essas lideranças também vejam o que os territórios estão fazendo. Não dá para a gente criar a política em Brasília e ficar lá de longe. A lei precisa virar ação prática. Como a gente executa isso? O Fórum Nordeste de Economia Circular entrou nos territórios para mostrar o que a política pública está fazendo.
Como o Nordeste tem se consolidado como protagonista na economia circular, a partir de iniciativas que posicionam a região como um polo de sustentabilidade? E qual é o papel do Fórum nesse processo?
Comecei esse processo partindo do princípio de que o Nordeste tem toda a condição de fazer a liderança dessa transição. E continuo trabalhando muito para mostrar esse potencial. Por várias razões, o Nordeste tem autoridade para estar nesse lugar, digamos assim. E o Fórum Nordeste de Economia Circular vem saindo muito desse lugar de evento. Porque o evento é um momento que você celebra, conecta, faz networking. Mas quais são os legados que a gente deixa no território? Esse é o terceiro ano do Fórum e a gente está se consolidando como plataforma de articulação territorial, não só de realização de eventos. Isso é uma construção. Não foi da noite que a gente virou uma plataforma de articulação.
A gente vai para o território e faz um trabalho para deixar um legado para o território. E, no final, esse legado é a construção de uma possível política pública no Estado. Por exemplo, o Ceará não tem uma Política Estadual de Economia Circular. Qual é o nosso trabalho no território? Fazer com que, no final do processo, a gente consiga ter o desenho de uma política já bem adiantado.
O Nordeste realmente tem sido protagonista. A gente tem a questão da energia, por exemplo. No Ceará, 71% da eletricidade já vem do vento e 25% do sol. Praticamente o Estado eliminou fontes fósseis, imagina. E assim vai: o Nordeste também lidera os projetos de hidrogênio verde. O complexo industrial e portuário do Pecém, no Ceará, é o único lugar no mundo que tem energia eólica, solar e porto de exportação. Tudo no mesmo território.
O Nordeste está hype porque o território tem diversidade, potencial, cultura e povo. A gente tem muita coisa. É por isso que o Nordeste está construindo essa liderança.
Qual é o papel do Fórum Nordeste de Economia Circular nesse processo?
O Fórum fortalece essa tendência, quando a gente circula pelos estados do Nordeste, levando educação, inovação, desenvolvimento sustentável, impactando a economia local, fazendo um trabalho de construção no território. A gente também amadureceu muito no processo.
Dessa forma, a plataforma está sendo construída. O Ceará é esse laboratório vivo agora para 2026. A gente faz isso junto com o governo do Estado, através desta Secretaria de Desenvolvimento Econômico. A gente tem uma robustez institucional absurda. Hoje a gente tem autarquias federais, como a Sudene, Consórcio Nordeste. Temos algumas instituições internacionais, como a GIZ, que é uma instituição de cooperação técnica alemã.
O FNEC está sendo instrumento para que uma cooperação técnica entre Alemanha e Ceará aconteça. A gente tem um programa de mentoria com a GIZ, com o Sebrae, com a Somos Um, que é uma instituição daqui do território, mas é nacional também, e que tem um trabalho de negócios de impacto absurdo.

Além dos benefícios ambientais, a economia circular também tem grande potencial de geração de empregos, especialmente os chamados empregos verdes. Como esse modelo pode contribuir para reduzir a informalidade e ampliar a inclusão de grupos historicamente sub representados no mercado de trabalho?
A gente vem trazendo uma robustez também de possibilidades de conexão, por exemplo, com a Finep, Financiadora de Estudos e Projetos, Vou trazer um exemplo prático: a Finep está com um edital aberto agora de R$150 milhões de investimento. E muitas vezes o problema não é o recurso. O problema é a estruturação de um bom projeto, como é que você faz para conseguir pegar esse recurso.
Então, o Fórum vem fazendo isso. Hoje temos a oportunidade de colocar você diretamente com o gerente da área de economia circular do Finep. Fazendo toda uma orientação para que possa conseguir esse recurso. A gente tem o Ministério da Fazenda indo para o fórum, explicando o que é o Plano de Transformação Ecológica. A gente tem o banco construindo uma oportunidade de mostrar quais são os financiamentos que estão sendo disponíveis.
Acaba que isso que a gente está gerando são oportunidades e os dobramentos também acontecem de forma muito positiva. Trazendo as pessoas que precisam estar nessas discussões.
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