ENTREVISTAS
"Iluminar histórias invisibilizadas é prioridade do Arquivo Nacional"
Leia entrevista com Mônica Lima, diretora-geral do Arquivo Nacional

A memória oficial do país ainda carrega lacunas que refletem desigualdades históricas. À frente do Arquivo Nacional, a professora Mônica Lima afirma que a instituição busca corrigir esse desequilíbrio ao ampliar o foco sobre grupos historicamente excluídos.
“O patrimônio documental, por muito tempo, foi tratado como algo restrito às elites brasileiras”, afirma a diretora-geral, nesta entrevista exclusiva ao A TARDE. “O que temos buscado é iluminar, dentro do Arquivo Nacional, as histórias de outros sujeitos que foram longamente invisibilizados”, acrescenta, citando populações indígenas, a população negra e as mulheres.
Durante a conversa, Mônica Lima detalhou iniciativas para tornar o acervo mais representativo e acessível, como a criação de escritórios regionais e projetos voltados a recortes de raça e gênero. Ela também abordou os desafios impostos pela tecnologia, a retomada de ações sobre a ditadura militar e os caminhos para a Política Nacional de Arquivos.
Leia a entrevista completa
Como a senhora enxerga o papel do Arquivo Nacional na construção de uma memória mais plural e representativa do país?
O Arquivo Nacional é responsável por guardar, preservar, tratar e divulgar o patrimônio documental do Brasil. Essa é a grande missão. E o que a gente precisa olhar?
Que esse patrimônio documental, por um longo tempo, foi tratado como um patrimônio que era restrito às elites brasileiras. Só se iluminava nesse patrimônio documental aquilo que dizia respeito à história dos setores dominantes da sociedade. Seus governantes e suas elites econômicas e sociais.
O que a gente vem buscando fazer, desde 2023, é iluminar dentro do Arquivo Nacional a histórias de outros sujeitos que foram longamente invisibilizados. Populações indígenas, a população negra brasileira, as mulheres do Brasil. Ou seja, os setores mais pobres da população. A gente vem procurando cada vez mais, não estamos começando isso agora, mas é uma ênfase dessa gestão, é destacar essas histórias longamente invisibilizadas. Isso a gente fez por meio de diferentes iniciativas.
Vou te dar duas delas que ajudam a gente a entender como isso se concretiza. A gente tem uma exposição em cartaz no Arquivo Nacional, inaugurada em novembro do ano passado, que se chama Senhora Liberdade.
Essa exposição apresenta, pela documentação do Arquivo Nacional, a história de mulheres que desafiaram a escravidão. Mulheres que haviam sido escravizadas, ou cujas filhas estavam escravizadas, e como elas desafiaram e lutaram para ver sua liberdade reconhecida. Essa exposição vai até o dia 12 de junho deste ano, está em cartaz e é um material bem importante nessa ideia que te falei.
Outra iniciativa importante é que a gente organizou um guia de fundos com marcadores de gênero e raça. Com a documentação que a gente já tem, escolhemos alguns fundos documentais, e iluminamos a presença de marcadores de raça, de gênero e de regionalidade, também nessa perspectiva de fazer o Arquivo Nacional cada vez mais nacional.
E, para terminar, a gente inaugurou escritórios regionais do Arquivo Nacional, na região Nordeste, em Salvador, na região Norte, em Manaus, e na região Sul, em Porto Alegre. Com o objetivo de aproximar o Arquivo Nacional das regiões para além do Sudeste e Centro-Oeste. A gente já tinha a sede aqui no Rio de Janeiro e a superintendência regional de Brasília.
Como essa descentralização pode impactar o acesso da população à informação e à própria história do país?
Essa regionalização tem por objetivo central levar o Arquivo Nacional para mais perto das pessoas. Não é trazer a documentação para cá, para a sede, nem para Brasília. Nem de longe a gente quer isso. Mas a gente almeja aproximar o Arquivo Nacional das pessoas interessadas em ter acesso aos documentos e às instituições arquivistas federais.
Porque a gente orienta como arquivar, como guardar, como eliminar documentos. Desde essa regionalização - ela teve início em outubro do ano passado - a gente vem realizando cursos, eventos locais, para que as pessoas interessadas possam comparecer.
Para além disso, a gente tem como objetivo, mais a médio prazo, ampliar nossa capacidade de recolhimento. Ou seja, buscar espaços onde a documentação que esteja com dificuldade de ser conservada nos órgãos públicos federais possa ser encaminhada e tratada pelo Arquivo Nacional localmente. Ou seja, não tirar a documentação da região.
E as sedes dos arquivos regionais, como a que existe em Salvador, também se articulam com os arquivos estaduais da região. Ela atende a esses arquivos e também aos arquivos municipais num diálogo mais próximo que reconhece as características e interesses regionais que devem ser respeitados nesse processo.
Como o Arquivo Nacional foi se reinventando diante das mudanças tecnológicas?
É um enorme desafio, porque a gente tem, por um lado, que se apropriar cada vez mais das possibilidades da inteligência artificial, no manejo dos arquivos, na leitura de documentos antigos que exigem estudos de paleografia. São documentos importantes, documentos que podem atestar, por exemplo, a propriedade da terra.
Quando comunidades indígenas, comunidades quilombolas reivindicam o seu direito à terra - e a gente não pode esquecer que o arquivo é um lugar que traz provas documentais na luta por direitos - quando esses documentos são acionados, alguns deles devem ser transcritos para serem compreendidos e utilizados como prova. A paleografia tem nisso um trabalho que é fundamental.
E a inteligência artificial, hoje em dia, vem ajudando o trabalho dos paleógrafos, na medida que eles também passam informações para as diferentes plataformas de inteligência artificial. Só que isso tem um problema enorme, que é a gente manter a soberania sobre os nossos documentos.
Você colocar esses documentos em qualquer lugar para que sejam transcritos, não pode significar que a gente abra mão da posse e do controle, no melhor sentido da palavra, sobre essa documentação.
Então, a gente tem um desafio grande, mas isso já está sendo enfrentado. O Arquivo Nacional está trabalhando nessa direção, para usar a tecnologia sem perder a soberania sobre o nosso patrimônio documental. Da mesma forma, a gente está preparando, deve sair ainda este semestre, o novo Siam, que é o Sistema de Atendimento aos Usuários, que é a nossa página onde as pessoas vão lá e pesquisam documentos sobre a sua família, sua história, sobre, enfim, a sua região, a sua localidade.
A gente está tornando esse sistema mais acessível, mais amigável. Devemos lançar o primeiro módulo desse sistema ainda neste primeiro semestre de 2026, que é uma iniciativa bem bacana, que vai ao encontro disso que te falei, de tornar o arquivo mais acessível e próximo das pessoas.
Falando em projetos, há o Centro Memórias Reveladas, criado para ampliar o acesso a documentos da ditadura militar. Em que estágio ele se encontra hoje? Como está a retomada dessa iniciativa?
O Centro de Referência Memórias Reveladas, a gente retomou, vamos dizer assim, a força dele e tivemos uma valorização desse centro nesta gestão. Primeiro, a gente trouxe esse centro de referência para o gabinete da direção-geral. Ele ficava vinculado a uma das diretorias.
Com isso, houve um reconhecimento de que esse centro de referência era algo central para essa gestão. Esse foi o primeiro movimento e, com isso, também ampliou-se o número de servidores que trabalham no centro de referência Memórias Reveladas. E este ano a gente realizou um evento bem importante, nomeado como Semana Ditadura, Arquivos e Memórias. Foi um evento que nós realizamos entre o dia 31 de março e o dia 1º de abril de 2026.
Nesse evento, a gente entregou o livro que é o Prêmio Memórias Reveladas. Foi uma retomada importante. A gente lançou o livro com vários artigos sobre os arquivos da ditadura militar, com artigos acadêmicos, materiais de comunicação e projetos pedagógicos. É um livro bem bacana e estamos já encaminhando o Prêmio Memórias Reveladas 2026. Porque esse livro se refere ao prêmio do ano passado, apesar de ter sido publicado agora.
Já estamos em processo para o Prêmio Memórias Reveladas 2026, que vai retomar alguns aspectos de premiação de monografias completas. Nesse prêmio a gente tem essa modalidade de premiar mais pessoas com produtos mais curtos, artigos, materiais de comunicação.
Também foi algo muito positivo que a gente não premiou só texto escrito, mas material produzido para comunicação, tendo como base os arquivos da ditadura. E projetos pedagógicos, porque a gente entende que ensinar sobre a história da Ditadura Militar tem a ver com uma mudança de mentalidade, com reconhecimento da violência e de todos os efeitos negativos desse período.
Tudo isso como a gente diz com prova documental, com dados reais. Essas iniciativas têm a ver com esse novo posicionamento do Centro de Referência Memórias Reveladas. . Mas foi uma semana bem importante com a participação de lideranças de movimentos sociais contra a ditadura, de lideranças importantes do encaminhamento dessas denúncias dos efeitos da ditadura em outros países, inclusive.
Falando agora sobre a Segunda Conferência Nacional de Arquivos, marcada para maio, e considerando o intervalo de 15 anos desde a primeira edição: qual é a relevância desse encontro para o fortalecimento e os rumos da política arquivística no Brasil?
Essa conferência pode representar grandes avanços, e sobretudo vai produzir uma escuta qualificada da sociedade civil, pegando suas sugestões, colocando em discussão as suas ideias para a Política Nacional de Arquivos. É um momento em que o governo estabelece de forma direta esse diálogo. Para você ter uma ideia, a gente já está em processo.
A conferência, digamos assim, começou com as suas etapas preparatórias. E nós tivemos uma participação inédita. Quinze anos depois a gente teve 24 etapas estaduais da conferência. Somente três estados da Federação ficaram fora dessas etapas preparatórias. Isso é um número expressivo. Tivemos 10 conferências livres, que são as conferências diretamente organizadas pela sociedade civil. Enfim, temos aí uma etapa nacional, que vai ser entre 26 e 28 de maio, que promete ser com muita participação.
Os relatórios dessas etapas ficam publicados no site oficial da conferência. Por exemplo, na conferência da Bahia, houve 105 participantes diretos na sede do Arquivo Público do Estado da Bahia.
E no caso da Bahia, a gente tem também uma participação expressiva e importante dos arquivos comunitários. Agora, há pouco tempo, saiu o resultado de um edital internacional, que o Arquivo Nacional orienta a sua elaboração, ajudando os arquivos brasileiros que se interessam em pedir financiamento para esse programa de recursos para projetos arquivísticos, que se chama Iberarquivos.
E tivemos um número grande de projetos que se candidataram. Foram 23 projetos, e dos quatro projetos brasileiros selecionados para receber recursos, dois são da Bahia. Estou falando aqui para Bahia, então vale a pena a gente iluminar.
Um é o arquivo da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, e o outro é Arquivo Fotográfico Zumvi, baseado em Salvador, que é um acervo dedicado a preservar a memória negra. Ambos foram beneficiados com esse programa de financiamento de projetos arquivísticos, que nós, do Arquivo Nacional, intermediamos, organizando o processo seletivo. A gente está muito contente, porque vão ser quatro arquivos brasileiros que vão receber esse apoio.
Um arquivo é de uma prefeitura de um município pequeno, lá no Sul, em Francisco Beltrão, muito bom. E o outro arquivo da Associação Cantareira, no interior de São Paulo. E mais os dois da Bahia, como eu já falei. A gente está muito animado com esse movimento no campo dos arquivos, trazendo diferentes vozes, arquivos de diferentes tipos para discussão, em especial os arquivos comunitários.
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Professora, para concluirmos, a senhora mencionou a Política Nacional de Arquivos. Qual é a importância de o país contar com uma política dessa natureza?
A Política Nacional de Arquivos é que vai decidir qual é o lugar dos arquivos, primeiro na administração pública e nos espaços da sociedade civil. Qual é o papel dos arquivos?
Os arquivos não são depósitos de documento, onde você deposita papéis antigos, que eventualmente algum interessado, pesquisador ou curioso ou pessoa demandante vai lá buscar aquele papel que está lá esquecido. Não, a gente está tratando de documentos, não apenas de escritos, mas documentos visuais, fotografias, mapas, toda uma série de documentos, filmes. Aqui no Arquivo Nacional há um enorme arquivo de filmes, o segundo maior do Brasil. Enfim, ele abriga um conjunto de documentos.
Então, primeiro, a Política Nacional de Arquivos vai decidir como esses arquivos devem ser tratados na administração pública como um todo. Tanto em instâncias, federal, estadual, municipal. Qual é o lugar desses arquivos? Esses arquivos devem ficar vinculados a que órgãos dentro da administração pública? Qual será o seu vínculo? E esse vínculo tem a ver com o papel do arquivo.
O arquivo não só como o guardião, a instituição que preserva, que cuida do patrimônio documental, como também aquela área da administração que cuida da gestão dos documentos. Como os documentos vão ser produzidos, arquivados e como vai ser a decisão daqueles que devem ser guardados e eliminados.
Essa é uma decisão da Política Nacional de Arquivos. Recentemente saiu um decreto sobre a Política Nacional de Arquivos que tem muito a ver com isso, que orienta os arquivos brasileiros como é que eles devem fazer para decidir o que eliminar e o que guardar.
E a gente está falando também de documentação digital. Esse é um problema enorme hoje em dia. Como é que você guarda os documentos que produz? Aí saiu o decreto 12.939, assinado pelo presidente da república, que trata da gestão de documentos públicos na proteção do patrimônio arquivístico, mas não é só isso. A Política Nacional de Arquivos vai decidir também que lugar que a gente tem que reconhecer no que se refere aos arquivos comunitários.
Não são arquivos exatamente nem públicos nem privados. São arquivos de comunidades, que são geridos coletivamente. Arquivos de comunidades de terreiro, arquivos como é o Zumvi, um arquivo afro fotográfico relativo aos movimentos negros e à população negra baiana. Portanto, a Política Nacional de Arquivos vai dizer como devem ser tratados esses arquivos e reconhecidos e inseridos no diálogo sobre a política, ou seja, o destino, o lugar e a importância dos arquivos.
E também a gente tem que pensar em como podemos financiar esses arquivos e apoiar esses arquivos nacionalmente. Essa é uma decisão da Política Nacional de Arquivos. Como criar políticas públicas que fortaleçam, que apoiem os arquivos de quaisquer dimensões.
Em que estágio está, hoje, a formulação dessa política?
Essa formulação vem sofrendo transformações. Uma dessas é esse decreto que eu acabei de citar. Outra questão é, por exemplo, referente aos arquivos comunitários. Hoje em dia a gente não tem uma incorporação dos arquivos comunitários como instituições inseridas na lei, nos documentos legais, de forma explícita na decisão sobre a Política Nacional de Arquivos.
A gente colocou os arquivos comunitários quando fizemos decisões recentes sobre a composição do Conselho Nacional de Arquivos e sobre a Conferência Nacional de Arquivos. Então o Estado atual, eu diria que é um estado de mudança. Porque a gente tem uma legislação e uma produção escrita que precisam ser revisadas porque não incorpora esse sujeito e essas instituições, como os arquivos comunitários.
E, ao mesmo tempo, essas instituições e sujeitos estão se afirmando no cenário nacional, tanto por uma ação organizada deles próprios quanto do próprio Arquivo Nacional. O Arquivo Nacional vem pautando os arquivos comunitários. Vem trazendo eles para junto.
Essa é uma mudança bastante expressiva e é recente. Antigamente, eles não tinham representação no Conselho Nacional de Arquivos. A próxima seleção para membros do conselho vai incorporar representantes dos arquivos comunitários. Na primeira conferência de 15 anos atrás eles não estavam lá. Agora, eles estão na comissão nacional que organiza essa conferência.
Raio-X
Atual diretora-geral do Arquivo Nacional, Mônica Lima é historiadora, com mestrado em Estudos de África no El Colégio de México e doutorado em História Social na UFF. É professora do Instituto de História da UFRJ e tem longa experiência em pesquisa em arquivos em diferentes partes do mundo, e uma trajetória também extensa como docente de História para a Educação Básica e formação de professores, e de História da África e da população africana no Brasil para o ensino superior.
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